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Viagem ao universo de Marcel Proust

Colaborador de Navegos leva o leitor em uma viagem pelos escaninhos de uma obra que, por sua solidez e  monumentalidade, tem sido associada às catedrais góticas.

*Alexandro Alves

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“Porém – assim como no caso das viagens a Balbec e a Veneza, que desejara tanto – o que eu pedia àquela manhã era algo bem diverso de um prazer: eram verdades pertencentes a um mundo mais real que aquele em que eu vivia.” Este trecho está logo nas primeiras páginas de À Sombra das Moças em Flor, segundo romance do ciclo Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Iniciei a leitura do “romance-rio”, como fala Franklin Jorge, em janeiro de 2021, com o primeiro título: No Caminho de Swann, são sete romances, os próximos são: No Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A Prisioneira, A Fugitiva e O Tempo Recuperado.

Este segundo romance do ciclo é o mais lírico de Proust. Embora contenha a complexidade psicológica e a construção fluida com parágrafos estruturados em frases longas e períodos de enorme extensão, como o primeiro, À Sombra das Moças em Flor se assemelha àquele contato com a natureza que desfrutamos quando ouvimos a Sinfonia em Fá Maior, de Beethoven, chamada “Pastoral”. Inclusive, boa parte de suas páginas passa-se em um balneário de férias: são cenas marítimas, com descrições de céus azulados ou por vezes tempestuosos, longas caminhadas ao sol à beira-mar ou por caminhos entre montes, passeios matinais, moças sorridentes em suas bicicletas e a admiração por tudo isso do Narrador, que mesmo que em alguns momentos se mostre atormentado, suas passagens ao longo do romance, sobretudo no balneário, são sempre positivas e cheias de boas expectativas: seja pela amizade que deseja travar com Palamède de Guermantes (Barão de Charlus) e seu sobrinho, Robert de Saint-Loup ou pelo amor que nasce por Albertina, uma das moças ciclistas que o impressionam nas tardes do balneário. Porém, antes das férias no balneário, há a Berma. Uma famosa atriz, apelidada a Berma (Sarah Benhardt, sem dúvida), é o motivo condutor que carrega os anseios do Narrador no início do romance. Toda a sociedade parisiense está eufórica com a atriz e ele decide que precisa vê-la na Fedra, de Racine. O entusiasmo é tal, que são dedicadas a essas impressões, se fôssemos agrupar todos os parágrafos em que o autor cita a Berma e Fedra, 20 páginas da primeira parte do romance.

Todavia, o Narrador se decepciona, inicialmente, com a interpretação da atriz. Põe culpa em mil situações. Quando o pai lhe pergunta o que achou do desempenho da Berma, antes que responda, e como uma espécie de salvação, o amigo do seu pai, o intelectual sr. de Norpois, exclama “Deve ter ficado encantado!” O rapaz silencia. Nesse ponto do romance, uma constante que chama a atenção é a controvérsia, no espírito do Narrador, entre o real e o ideal, ou entre o que se espera e o que é entregue. Não apenas nas artes, mas na vida social em geral: “Numa época como a nossa em que a complexidade da vida mal deixa tempo para ler”. Toda a ação do romance, antes de Balbec, caminha sempre nesse sentido: expectativa, realização, sofrimento. Seja na arte, com a Berma, seja na vida social, com Gilberta Swann, seja na política, o Caso Dreyfus é citado, como no primeiro romance. Essa digressão entre o real e o ideal, é uma das ligações românticas e burguesas que o romance carrega. É essa oposição que continua a marcar a influência de Schopenhauer na obra. Outras fortes influências em Proust, Nietzsche e Wagner, ainda mantém seus passeios com os personagens proustianos, porém o filósofo do pessimismo é mais marcante nesse momento. Nietzsche, encontramos na aristocracia do Barão de Charlus e Wagner, na pureza do Narrador ao encontrar e ser cercado pelas moças ciclistas nas tardes de Balbec – como Parsifal, no segundo ato, que em uma tarde ensolarada, é cercado por flores que se transformam em moças – o título, À Sombra das Moças em Flor, vem desse momento do drama musical.

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