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Urtigal, Anta Esfolada, Nova Cruz…

Nome exponencial do jornalismo no Rio Grande do Norte, criador da célebre coluna Roda Viva, escreve sobre conterrâneo seu que mitificou sua terra de origem em uma grande obra literária.

*Cassiano Arruda Câmara

Na confluência dos rios Curimataú e Bujari, dois rios secos como centenas existentes no Nordeste do Brasil, na fronteira do Rio Grande do Norte e Paraíba, no Século XVII, boiadeiros escolheram um local de descanso e onde construíram um rancho. O lugar ficou conhecido como Urtigal, pela abundância de urtiga, planta encontrada em todas as partes do globo, que se caracteriza pela presença de pelos nas folhas e caule, que produzem irritação da pele a partir de qualquer contato.

Foi lá que uma pensão foi edificada para atender a demanda gerada por esses passantes. Mas o nome foi mudado em razão de uma lenda: – Um caçador conseguiu aprisionar uma anta numa armadilha, mas deixou-a fugir, ficando com a sua pele nas mãos. A anta virou assombração aparecendo esfolada e amedrontando todo mundo que morava naquelas lonjuras.

Aí apareceu frei Serafim de Catânia, vindo de Santa Cruz, trazendo um enorme cruzeiro feito de angico, para evangelizar aqueles povos. Começou prometendo exorcizar aquele espírito do mal, que depois de sua pregação ninguém mais ouviu falar nele. E o frade italiano conseguiu (como fez em muitos outros lugares do Nordeste) mudar o nome do lugar. Anta Esfolada virou Nova Cruz,

A nova cruz fincada na entrada do arruado pelo frade italiano marcava definitivamente o desaparecimento daquela triste assombração que não deixava ninguém criar raízes, para viver naquele lugar tão agradável.

O professor Antenor Laurentino, a partir de sua memória e de memórias que pesquisou, construiu um romance que resgata a história dessa terra e desse povo. Essa é a Nova Cruz apresentada como cenário de uma história de amor registrada no início do Século XX.  O autor – enquanto buscava suas próprias origens – teve a coragem de reviver essa história vivida naquelas paisagens agresteiras fazendo a narrativa de uma forma de amor só possível naquela Anta Esfolada revivida.

Certamente que não testemunhei o romance aqui relatado (nem lembro de ter ouvido qualquer referência a ele). A Nova Cruz da minha infância e da minha memória veio muito depois disso, mas eu conheci pessoalmente um dos personagens do romance que só vim a descobrir quando tive o privilégio de manusear em primeira mão, essa obra de ficção, baseada em fatos reais, que Antenor registrou e só por isso já merece o mérito por preservar e, sobretudo, a coragem de contar uma história tão instigante.

Na Nova Cruz da minha meninice, Júlia Galdino – a personagem principal do romance – era uma das figuras presente neste meu universo particular, telúrico e sentimental.

Lembro bem a sua casa, um casarão de pé direito alto, com telhado de duas águas, localizado na esquina da rua Capitão José da Penha, onde funcionava uma pensão voltada, principalmente para os trabalhadores das duas companhias de estrada de ferro que tinham suas estações na cidade, a Graet Western, que integrava o Rio Grande do Norte a Paraíba e Pernambuco, e a Estrada de Ferro Sampaio Correia, estatal, fazendo a ligação com Natal, a capital do Estado.

A Júlia Galdino que conheci, já não tinha o frescor da menina moça que mexeu com a cabeça do outro personagem, o ricaço Ernesto Belmont, figura que não aparece em qualquer registro na minha memória de novacruzense distante.

Júlia, era nossa amiga e correligionária do velho PSD. Foi da sua pensão que o prefeito Lauro Arruda (tão generosamente perfilado neste Memorial de Anta Esfolada),  do meio da ladeira, na calçada da pensão de Júlia Galdino, comandou uma das suas grandes obras, rasgando uma nova avenida que era interrompida por um lajedo que teve de ser desmontado para deixar o progresso passar. Da heroína do romance eu tinha a lembrança de uma mulher solidária e chefe de uma grande família. Acompanhar o pai/prefeito nessas incursões e o convívio com esses personagens, faz parte das minhas mais profundas lembranças.

 

Na enorme família de Júlia, pontuava Jota Epifânio, o grande cronista social da Natal dos anos ´60, ´70 e ´80, um dos seus muitos sobrinhos, que deixou Nova Cruz para vir trabalhar na base dos americanos, mas preservou, nela, a sua referência para manter fidelidade à cidade que tanto promoveu. A tia era a gestora dos benefícios carreados para tantos familiares. Dentre estes, registro a figura de Cícero de Genuíno, o grande craque do São Sebastião, o Bastião, time do nosso partido (depois ele foi jogar no União, time da UDN). Ou Afonso Laurentino, irmão do autor deste livro, já metido a intelectual, quando ia passar as férias com a avó, nos anos que me aproximam dessa história.

A minha Nova Cruz, a Nova Cruz dos Arruda Câmara, só começou em 1914, quando Antônio Arruda Câmara vindo de Lábrea, no Amazonas, onde dirigiu um seringal e onde nasceram os dois primeiros, dos 12 filhos criados. Seu Arruda trazia o dinheiro (boa parte em libras esterlinas), que havia conseguido juntar participando da guerra da borracha, para se estabelecer em Guarabira, onde conhecera Taciana, sua mulher, mas terminou ficando no meio do caminho e ajudado a consolidar a cidade na presença de quatro gerações.

Pelo caminho da ficção, Antenor Laurentino revela neste Memorial de Anta Esfolada um verdadeiro romance, onde oferece – além da ficção – elementos capazes para quem quiser aprofundar estudos sobre a formação de uma cidade e um retrato sem retoque do seu povo.

FOTO Antenor Laurentino Ramos

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