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Uma mulher do Acre

Autora de vários livros, nascida em São Paulo e criada no Acre, atualmente aposentada do Magistério, fala aos leitores de Navegos sobre sua experiência de vida e intelectual

*Da Redação 

Pós-graduada em Filosofia, escritora acreana recorda-se com muita clareza do seu processo de alfabetização. Amava as cartilhas e suas pequenas histórias, lembra Joelma Ferreira Franzini. Ficava admirando as gravuras como se fossem um tesouro. Quando ingressei na quinta série, a professora passava livros para leitura e depois fazermos prova. Me lembro que o primeiro foi “Cachorrinho Samba na Fazenda” de Maria José Dupré, na sequência vieram “A montanha Encantada”, “A serra dos dois Meninos” e o “Escaravelho do Diabo”. Era um sacrifício financeiro pra minha família, que morava na roça, poder adquirir tais livros e minha avó (que me criava nessa época) ficava brava com a Dona Nadir, a professora que havia feito o pedido da leitura. Tentávamos comprar sempre os livros velhos, já utilizados por alunos dos anos passados, por serem mais baratos. Mas eu amava e devorava cada palavra. Também lia algumas crônicas que encontrava na casa do meu tio Joel, por ocasião de alguma visita. Lia revistas, gibis, livros de receitas e livros antigos, livros e tudo quanto encontrasse pela frente na casa da tia Nair, que morava bem ao lado e que também gostava de ler.

No Ensino médio, vieram novos pedidos de livros mais adultos, agora fitos pela dona Robélia, como “O cortiço”, “Ateneu” e “Éramos Seis”, A História desse último, com as lutas diárias da Dona Lola, me encantaram e enterneceram. Quando me casei pela primeira vez, aos quinze anos de idade, meu marido era um bom leitor e possuía alguns livros, principalmente de romances e faroeste de bolso, eu lia todos. Acho que li umas três vezes “O Pequeno Príncipe”. Depois, com o tempo, pude passar a ler tudo quanto me interessasse, principalmente Filosofia. Enfim, sempre busquei estar perto de alguma coisa para ler.

Quando você começou a escrever?

–  Quando eu tinha onze anos de idade escrevi minha primeira poesia e nunca mais parei. Passei a escrever contos e crônicas e muitas poesias mais. Entretanto, nunca guardei nada, pois acreditava que não tinha o menor valor. No primeiro ano do Ensino Médio, eu cursava o Magistério, participei de um concurso nacional de redação e poesia, realizado pelo grupo da antiga Rede Manchete de televisão. Era sobre Olavo Bilac. Tirei o primeiro lugar do Estado do Acre e fui ao Rio de Janeiro com todas as despesas pagas, encontrar os jovens que haviam também vencido em seus estados. Fomos homenageados na Academia Brasileira de Letras pelo “imortal” Austregésilo de Athayde. Na ocasião, não tinha a total dimensão da tamanha honraria que recebia. Tudo foi perdido com o tempo. Não tenho, sequer, uma copiada minha redação vencedora.

Os compromissos da vida adulta, que para mim iniciou-se aos quatorze anos, quando comecei a trabalhar fora de casa, foram me sufocando. Cheguei a lecionar três períodos do dia e tinha casa e filhos sob minha responsabilidade. Parei de escrever. Apenas agora, quase aos cinquenta anos, precisei escrever novamente por conta de minha dissertação de mestrado. Depois que me aposentei, publiquei cinco modestos livros em um período de um ano. Iniciei outro livro, mas estou desmotivada para continuar escrevendo pois a situação financeira atual não está permitindo poder publicá-lo.

Qual seu assunto predileto de escrever?

– Gosto de escrever sobre as pessoas, buscar seus mais profundos sentimentos, fazer aflorar suas emoções adormecidas.

 O que a inspira?

– Minha principal inspiração é meu avô Jair Ferreira. Ele foi um trabalhador da roça que, mesmo com o trabalho bruto e sendo analfabeto, contava muitos causos, histórias e piadas, todos de sua autoria.

Fale um pouco sobre seus livros, peço-lhe.

O programa Bolsa Família e os Povos Indígenas da Amazônia: os índios são pobres – Esse livro é minha dissertação de mestrado e busca mostrar o programa bolsa família enquanto um instrumento de desterritorialização dos povos tradicionais, sem retirá-los de seus domínios naturais. Tenta elucidar o porquê de o governo federal dar o Bolsa para os indígenas e não dar as coisas que eles, de fato, necessitam.

Jão Planta Chão e Zé Corre Mundo – É um emocionante romance que conta a história e aventuras de dois irmãos gêmeos, filhos de ex-escravos, e de personalidades completamente diferentes. Jão é trabalhador e gosta de sua vida na roça, Zé odeia a roça e o serviço duro do campo. Mas o destino obriga Zé a trabalhar duramente na terra, pois é ilegalmente feito de escravo em uma fazenda sem lei, enquanto Jão tem que abandonar a esposa grávida e correr o mundo para salvar o irmão.

Fragmentos de Infância Lançados ao Vento – É uma obra de muita delicadeza que conta as memórias de uma menina criada no sítio. A criança relata, através de vários contos, situações ocorridas com ela e com outras pessoas de seu convívio na roça. Árvores, pintinhos, avós, assombrações, jardins e outros mais, vão ganhando vida e forma, através das lembranças mais intimas da criança.

Sapatinim – Narra a história de uma viagem ao coração da Amazônia, com o objetivo de uma visita à uma família de ex-seringueiros. Mostra as formas de deslocamento pela selva e a maneira como uma família de caboclos consegue sobreviver e ser feliz no meio da floresta. A protagonista narra seus estranhamentos sobre as diferenças entre os modos de vida, entretanto, aprende muito com os habitantes locais. O leitor é introduzido no universo dos povos da floresta, na porção amazônica onde se localiza o Estado do Acre.

Causos da Floresta: quarenta anos de Acre –  traz quinze espantosos causos, baseados em fatos reais, que versam sobre as forças sobrenaturais das matas, das águas, dos animais e de seres encantados. Essa obra demonstra a pequeneza humana diante do poderio das forças da natureza.

Qual livro melhora define?

– Todos me representam. Pode acreditar que existe um pedaço de mim contido em cada um deles.

O que lhe dá mais prazer no processo da escrita?

– É poder dividir minhas emoções e pensamentos com as outras pessoas. Saber que alguém, que jamais irei conhecer, mergulhou no meu universo, refletiu e se emocionou com ele.

Vale a pena ser escritor no Brasil?

–  Financeiramente não. Também é extremamente difícil divulgar seu trabalho. Você faz um investimento financeiro, praticamente, sem retorno. As pessoas não tem dinheiro para comprar livros e, quando compram, poucas tem tempo ou disposição para ler. Entretanto, enquanto realização pessoal, vale muito a pena. Quando terminei de escrever o romance Jão Planta Chão e Zé Corre Mundo, meu filho João Fernando leu o original e veio me abraçar extremamente emocionado. Confessou que jamais poderia imaginar que eu tivesse a capacidade de escrever uma história tão bonita e emocionante; minha nora leu a mesma obra e me parabenizou chorando; meu dentista, Dr. Elson, me confidenciou que quando lê as história de Causos da Floresta, parece-lhe que escuta a minha voz lendo baixinho os causos para ele; minha vizinha Raimunda Bezerra veio me visitar segurando o livro Fragmentos de Infância Lançados ao Vento,  me perguntou “quem eu era”, pois apesar de sermos vizinhas por quase quarenta anos, só me conheceu agora, queria saber como eu poderia ter escrito algo de tamanha delicadeza e sensibilidade, veio dizer que o livro “precisava ser divulgado no Ministério de Educação  e Cultura para poder chegar até aos alunos das escolas”. São esses momentos preciosos que valem a realização de toda uma eternidade. Então, a resposta é sim! Vale muito a pena ser escritor.

Que diria às pessoas que tem vontade de começar a escrever?

– Que escrevam! Escrevam tudo aquilo que tiver vontade. Não m vergonha de expor suas opiniões e sentimentos. Guardem tudo com muito carinho e cuidado pois, na hora certa, vai conseguir publicar seus escritos. E a realização pessoal é muito profunda.

Joelma Ferreira Franzini nasceu em 15-02-1968, Presidente Bernardes-São Paulo. Aos treze anos de idade passou a residir e ainda reside em Rio Branco, no estado do Acre. Trabalhou durante 36 anos enquanto professora do quadro efetivo da Secretaria Estadual de Educação-SEE e 30 anos na Secretaria Municipal de Educação de Rio Branco-SEME e atualmente é professora aposentada. Hoje, trabalha como dona de casa e escritora, cuida dos netos e possui cinco livros publicado e um em fase de elaboração. É casada com Evandro Gonzaga Santiago, teve três filhos (João, Fernando e Gabriel) e quatro netos (Marcos, Clara, Miguel e Benício). Se considera uma mulher forte, corajosa e realizada. É graduada em Pedagogia (1993), em Ciências Sociais (2008) e em Filosofia (2013) todos pela Universidade Federal do Acre-UFAC; Pós Graduada em Metodologia do Ensino Superior-UFAC (1994); Pós-graduada em Filosofia (2018) e Ciência da Religião- UFAC (2019); Mestre em Desenvolvimento Regional-UFAC (2016). E-mail: [email protected]

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