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Uma dor chamada Saudade

Colaboradora de Navegos, poetisa e professora de Baixa Verde faz a cartografia sentimental de palavra que só existe em língua portuguesa

* Adalgisa Assunção

Existem algumas dores insuportáveis. Dor de ouvido é uma delas. A dor é tão intensa que dói a cabeça inteira e o indivíduo acredita que o crânio vai explodir. Dor de dente também é muito ruim; especialmente aquelas que só passam de manhã; quando o Sol começa a raiar. Outra dor insuportável é dor de unha encravada. Só sabe o quanto dói quem já sofreu com a dor.

Incontáveis são as dores que fazem o ser humano padecer. Depilação com cera, injeção intramuscular, prender o dedo na porta do carro e cólica menstrual, são algumas delas. Os homens dizem que não existe dor maior do que uma bolada nos testículos, enquanto para as mulheres nenhuma dor pode ser mais dolorida do que ter um filho de parto normal. Arrancar as sobrancelhas também é muito doloroso, mas o resultado compensa o sacrifício.

Martelar o próprio dedo, queimar a boca com sopa quente, restaurar um dente sem anestesia, morder uma pedra no meio da feijoada, tudo isso provoca dores que o ser humano consegue suportar. Nada, porém, pode doer mais do que um coração partido de saudade. Esta, sem sombra de dúvidas, é uma das maiores dores que alguém pode suportar.

Esta dor é como muito bem descreve Clarice Lispector: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas, às vezes, a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a pessoa toda. Essa saudade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida”.

A saudade também está presente na letra de diversas músicas. Sobre a saudade Bob Marley afirmou o seguinte em uma de suas canções: “Meu dia-a-dia é mais tranqüilo até o momento em que minha cabeça me leva até você. Minha cabeça me trai, o coração aperta, a atenção esvanece o frio na barriga… Com tantos sintomas a saudade até parece doença, mas sei que a cura é a sua presença”.

Dizem os estudiosos que a palavra “saudade” foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil Colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos. Define, pois, a meçancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim “solitáte”, solidão.

Fernando Pessoa escreveu um poema com o nome de Saudade, no qual relata seus sentimentos sobre a amizade: “Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos. Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim… do companheirismo vivido. […] A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente… E nos perderemos no tempo.  Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades seja a causa de grandes tempestades… eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

 

“Saudade é não saber o que fazer com os dias e as noites que se tornaram longos demais; é não saber como conter as lágrimas ao ouvir uma música; é não saber como quebrar o silêncio que toma conta de uma dor que não passa”, conforme afirma Marta Medeiros. Nada pode doer mais no corpo e na alma, do que a saudade que fica depois que um grande amor vai embora.

De tão grande, a dor tira o sono e o apetite; tira todas as vontades, o interesse pelas coisas. A dor da saudade endurece o coração; deixa as pessoas amargas, amarguradas e vazias de emoção. E, diante de dor tão grande, tão infinda, tão profunda, dor de dente, dor de ouvido, unha encravada e injeção na testa passam a ser fichinhas.

Adalgisa Assunção – Professora – Poetisa

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