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Um pioneiro esquecido

Reafirmando a máxima de que os norte-rio-grandenses não reconhecem nem valorizam seus artistas – salvo quando são reverenciados alhures –, o primeiro violonista erudito do Estado vive hoje no ostracismo; historiador potiguar com doutorado na USP colabora com Navegos para resgatar sua importância na história da música do Rio Grande do Norte

Claudio Galvão

A tradição de Natal como terra de intelectuais, poetas e boêmios vem dos anos 1800. Há uma quadrinha popular que diz: “Rio Grande do Norte / Capital Natal / Em cada esquina um poeta / Em cada rua um jornal”. Na área musical, por exemplo, a publicação “A Modinha Norte-rio-grandense” (Edufrn; 2000), de minha autoria, apresenta letras e partituras musicais de trezentas e sessenta e uma modinhas que eram cantadas na cidade, sendo duzentas e uma delas de autor local confirmado. Não se conhece pesquisa semelhante em outros Estados do país.

O poema musicado era mais conhecido como modinha. A quase totalidade deles era originado de autores que compunham ao violão, um instrumento tocado sempre “de ouvido”. Era raramente solista, mas sempre acompanhador de cantores ou outros instrumentos. Sabe-se com certeza que o mais antigo poeta de Natal foi Lourival Açucena (1827-1907). O seu livro póstumo de poemas, “Polianteia”, traz alguns deles com a advertência: “Tem muzica do auctor”. É ele o primeiro poeta que se conhece sendo “tocador de violão”.

Depois dele vem Heronides de França (1860-1926), de quem se tem notícias graças aos jornais da época. Sabe-se que era também solista, mas não deixou nada escrito. As músicas que criou para versos de poetas locais são de grande riqueza melódica. Vem, em seguida, Eduardo Medeiros (1888-1961), que se notabilizou como autor da melodia da célebre “Praieira dos Meus Amores”. Mais recente é Olympio Baptista Filho (1889-1942), ele mesmo também poeta e autor de grande número de belas melodias. Resta destacar o violonista Henrique Brito (1907-1935) que, residindo no Rio de Janeiro, foi o primeiro natalense a gravar discos. A cidade foi perdendo paulatinamente os velhos hábitos dos poetas, violonistas e cantores vivendo românticas serenatas pelas ruas desertas.

O progresso dos toca-discos, cinema, rádio e, recentemente, a televisão puseram o ponto final. Agora as músicas são outras, inteiramente diferentes. O velho violão popular, tocado “de ouvido”, também haveria de ter a sua transformação, mesmo que ainda mantendo a tradição dos acompanhadores. Tudo começou com a presença em Natal do violonista areia-branquense Amaro Siqueira (1908-1970), que estudou violão no Recife. Voltando para Natal, ensinou violão no Instituto de Música e para particulares. Apresentou diversos recitais e, no dia 26 de setembro de 1948, criou o Clube do Violão. Iniciava-se, então, a fase do violão erudito na cidade, com repertório tanto popular como clássico e sempre tocado por música. É nesse contexto que aparece o jovem Genardo Lucas da Câmara, hoje com 84 anos.

Quando criança, tocou trombone numa banda infantil, aí se iniciando na teoria musical. Em sua casa, a maior influência: seu pai, João Lucas da Costa, e seu tio, José Lucas, eram exímios violonistas populares. O contato com o Clube do Violão indicou-lhe o caminho do instrumento tocado por música, rapidamente ingressando no repertório erudito. Sem contar com apoio de um professor, desenvolveu-se apenas através do conhecimento da teoria musical, aliado a seu talento e particular musicalidade. Genardo Lucas marcou a história da música no Rio Grande do Norte por ter sido o primeiro natalense a apresentar recitais eruditos de violão.

Seu primeiro concerto realizou-se no Teatro Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão), no dia 12 de janeiro de 1954. A 5 de junho de 1957 apresentou-se no salão de festas da sede do ABC Futebol Clube (prédio demolido, onde hoje é o CCAB-Petrópolis). Apresentou-se, ainda, no Recife, no auditório da Caixa Econômica Federal, em 30 de maio de 1959. Seu último recital realizou-se no Clube dos Oficiais da Base Naval de Natal, em 26 de junho de 1960.

A partir de então, na impossibilidade de dedicar-se inteiramente à sua arte por falta de campo profissional na cidade, dedicou-se a outro tipo de atividade. Hoje, a Escola de Música da UFRN oferece cursos completos de violão, a cargo de professores portadores de mestrado e doutorado, oferecendo ainda mestrado no instrumento.

Há sessenta anos passados, as dificuldades eram quase intransponíveis. Os cultores do violão têm hoje todos os motivos para reconhecer e homenagear o exemplo, força de vontade e pioneirismo de Genardo Lucas, nosso primeiro violonista erudito.

Claudio Galvão, professor e criador do Departamento de Artes, do Núcleo de Arte e Cultura e do Laboratório de Restauração de Livros e Documentos da UFRN, é autor do livro “Oswaldo Souza – O Canto do Nordeste” (Funarte; 1988), além de ser pesquisador, organizador e introdutor das obras de Othoniel Menezes, Tonheca Dantas e Sebastião Fernandes.

CORDAS SENTIMENTAIS O natalense Genardo Lucas em sua casa em dois momentos: no início da década de 1990, aos 56 anos, e hoje, aos 84 com absoluta lucidez; sua relevância para a música potiguar como o primeiro violonista erudito do Estado urge ser registrada

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