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Thiago de Mello em Natal

A edição do Dia da Poesia comemorado em 14 de março de 2013 ficou nos anais da cultura potiguar como o maior acontecimento já chancelado pelo Governo do Estado, até então calejado em colecionar fracassos atrás de fracassos em pouco mais de 40 anos de existência da Fundação José Augusto.

*Franklin Jorge

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Em 2013 tivemos entre nós, pela segunda vez, a presença do poeta Thiago de Mello, que em 1955 estivera por alguns dias na Usina Ilha Bela, no Ceara-Mirim, onde vi a luz pela primeira vez. Eu tinha três anos, então, e já vivia no Assu sob os desvelos de minha avó materna, que me criou, instruiu e educou nos princípios do humanismo e no culto da cultura.

Quando completei 40 anos, já vivendo no Acre, ele achou por bem surpreender-me, visitando-me, para que pudéssemos passar juntos essa data que ele considerava única na vida do homem. Famoso por sua generosidade e virtude de dar-se aos outros, tivemos alguns bons amigos em comum, como a grande artista Isolda Hermes da Fonseca, que o retratou ainda muito jovem, como anos depois retrataria a mim sob a figura de um monge ou de São Francisco, aí por volta de 1974, em seu estúdio no Jardim Botânico, visitado por grandes poetas, entre os quais Dante Milano, cujo pequeno retrato, ainda fresco e rescendendo a terebentina, pude apreciar, encantado, numa dessas tardes em que a visitei. Um pequeno retrato enigmático, em tons terrosos, concebido com imaginação e executado com a infalível mestria da artista.

Nessa ocasião, caminhando com Thiago, ou o Caboclo Thiago, como gostava de ser chamado por seus amigos, ele me revelou que havia algo que nos ligava afetivamente: o Ceará-Mirim, que visitou a convite de Odilon Ribeiro Coutinho, e lhe inspirara de três a cinco crônicas – ele não lembrava mais ao certo -, publicadas naquele ano em Contraponto, coluna que assinava no jornal O Globo e que estão sendo publicadas em Navegos, graças a um meticuloso trabalho de resgate e contextualização pelo jornalista José Vanilson Julião, a quem a posteridade será grata.

Confesso que, além de Thiago, pensara trazer a Natal, para participar daquele inesquecível Dia da Poesia celebrado em 14 de março de 2013, outro grande poeta de sua geração e amigo comum, Ferreira Gullar. O ideal seria, a meu ver, convidar os dois últimos grandes poetas cuja biografia teria alguns pontos em comum, mas uma tarde, conversando com Gullar por telefone, ele reforçou o nome de Thiago, até porque ele, o autor de Poema sujo, não andava de avião e seria impensável, usando o automóvel como meio de transporte, vir do Rio para Natal…

Fixei-me, então, em Thiago, sobretudo porque vislumbrei a possibilidade de leva-lo ao Ceará-Mirim para rever a Ilha Bela e registrarmos aquele precioso momento para a posteridade enriquecimento da nossa cultura. A propósito, devo registrar aqui que tive de enfrentar a má vontade e as maquinações da secretária extraordinária de cultura – extraordinária de fato -, Isaura Rosado, que segundo me disse, fora pedir uma segunda opinião sobre a minha escolha com um roqueiro local, Carito, que a teria aconselhado a desaprovar minha escolha sob a alegação de que Thiago de Mello era “um poeta muito velho e sem conexão com o presente”.

Foram as palavras mais aberrantes que já ouvi, em 50 anos de atividades culturais dentro e fora do Rio Grande do Norte, pronunciadas por uma arrivista que transformou a nossa cultura em uma posse privada. Palavras que me pareceram, além de inverídicas, grosseiras, inoportunas e mal-empregadas, considerando-se o simples fato de que ela própria, como eu, no caso, já não éramos mais jovens e como pessoas decentes não deveríamos julgar um poeta por sua idade, mas por sua obra e neste quesito certamente Carito não teria competência para opinar, reagi; desencantado com a pequeneza e pauperismo intelectual da secretária que se não fora cunhada da governadora, certamente, por mérito próprio, jamais teria ocupado tão alta função gestora.

Thiago veio, enfim, após muita luta, e atraiu uma multidão aos salões do Palácio Potengi, onde está instalada a Pinacoteca do Estado. Nunca um evento até então chancelado pela Fundação José Augusto despertou tanto interesse. Apesar de Carito. Apesar de Isaura Amélia Rosado Maia, que ao chegar à Pinacoteca, palco da comemoração, ficou embasbacada com a multidão atraída pela presença de um dos últimos grandes poetas de sua geração, fato registrado pelas lentes da fotógrafa Nina Batista [Ninocha Potiguar.]

Surpresa com a dimensão alcançada pelo evento, a secretária de cara oleada me propôs, no fim da tarde ou começos da noite, uma parceria descarada: que publicássemos um livro registrando a grandeza desse dia. Eu escreveria o livro e, para assegurar sua publicação, teria de dividir a autoria com ela, Isaura Amélia, que, candidamente, ao ser indagada por mim como justificaria sua co-autoria, disse-me que faria a digitação da obra, coisa que gostava de fazer todas as noites antes de dormir.

*Observe-se na foto de Ninocha Potiguara o flagrante ar de espanto da secretária extraordinária de cultura ao chegar à Pinacoteca do Estado e constar a olho nu a popularidade do poeta Thiago de Mello, que atraiu uma multidão naquele dia 14 de março de 2013.

O TEMPO

Thiago de Mello

A eternidade não depende de nós.

Precários seres, manchados de limites,

incapazes de dar vida

a qualquer coisa que dure para sempre,

já nasceram soletrando o Never More.

Tudo o que o homem faz é perecível.

A começar pelo próprio homem,

ração diária predileta

do tempo, desde o instante

em que o tempo acompanhou

a expansão de uma galáxia:

um pássaro invisível,

as asas cheias de auroras,

de cujo bico escorria

o silêncio do arco-íris.

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