• search
  • Entrar — Criar Conta

Rua 24, Centro

Fundador de Navegos publica fragmento de O céu de Goiânia, livro seu inédito que pretende acrescentar a uma reedição de O ouro de Goiás (Instituto José Mendonça Teles- Editora Kelps, Goiânia, 1a edição, 2012), rapidamente esgotado.)

*Franklin Jorge

[email protected]

À noite, sob a copa de um velho pequizeiro que já se achava ali no quintal da casa quando a cidade foi planejada e surgiu nos arredores de Campina, preparávamos nosso jantar enquanto minha gentil anfitriã desfiava da memória hospitaleira fatos e lembranças que tornavam sua conversa tão atraente, para mim e para outros moços que a conheceram antes e depois de mim. Os primeiros moradores deste encantador chalezinho, construído em estilo francês, o pescador de fino trato, escritor e desembargador Maximiano da Matta Teixeira [1910-1984] e a orquidófila e historiadora Amália Hermano Teixeira [1916-1991], para todos, ‘’Doutora Amália’’, como se fez conhecida e citada por toda Goiás.

Sabia tudo de sua terra, desde a história antiga que remontava a eras mitológicas e a documentação mais erudita; passando pelos costumes do povo, a botânica, a gastronomia, a vida cotidiana animada pela memória de inesquecíveis personagens desse piccolo mondo que se integra ao imaginário coletivo dos que vieram antes e depois, e ainda, por séculos e séculos, hão de vir…

À primeira vista o chalé me pareceu atulhada de artefatos, adereços que depois verifiquei constituíam lembranças de uma vida inteira, o que criava uma ambiência a um tempo personalíssima e heterodoxa. Sugeria um pequeno museu anômalo, por muitos anos edificado pelos donos da casa.  À entrada, sobre uma mesa transportada da antiga capital da província, uma peça que me chamou a atenção – um livro de porcelana branca e sobre suas páginas abertas um rato de ar astuto, preparando-se para roê-las, como uma silenciosa advertência sobre a precariedade e efemeridade das coisas humanas. Móveis de família e alguns artefatos modernos, quadros, mesinhas, poltronas, sofás sobre os quais jaziam como que esquecidos, alguns livros. Uma casa aonde ninguém moraria, penso eu, exceto no quarto de dormir que me seria apresentado, talvez. Uma casa para ser vista e admirada. Não para ser habitada, comento. Doutora Amália ri.

Havia, nos fundos desse chalé da Rua 24, no Centro histórico de Goiânia, protegido por uma gruta úmida, construída por Maximiano, Maxí, um pequeno e inesgotável olheiro de água natural, fresca e cristalina, que me deixou entre surpreso e encantado, por encontrar ali, em meio ao silencio e à frescura de uma cidade populosa, tamanho milagre. Certa vez, enquanto desfrutava daquela delicia, uma fonte viva em plena cidade, a umidade da pedra e do limo verdolengo que irrompia entre as frestas do chão.

Maxi nunca quis atentar contra o olheiro, conta-me doutora Amália, e o conservou ao abrigo de olhares profanos, como um santuário ecológico a que só tinha acesso além dos moradores da casa um ou outro visitante que desejavam obsequiar com o desfrute  desse oásis em meio a asfaltos.  Nas horas que passei nesse santuário, uns dois ou três poemas apócrifos terão sido gestados. Como o da aranha titiriteira que tece o poema. Tornou-se, da casa, meu recanto predileto.

Havia, num quarto que em outros tempos teria sido uma biblioteca ou um arquivo, papéis aos montões envoltos em uma espessa camada de poeira e pós antitraças. Papéis sobre papéis, sem nenhuma hierarquia. E, num canto, frágeis e elegantes bonecos produzidos pelos antigos Guaranis em argila branca de grande delicadeza. Este é seu, diz-me em sua voz um tanto gutural Doutora Amalia; segure-o, por favor. E em seguida o embrulha cuidadosamente em sua echarpe de seda, após retira-la do pescoço branco e ossudo. Tornaram-se raras, essa bonecas, acrescenta ao entregar-me a peça; atualmente são objeto da cobiça dos grandes colecionadores.

Doutora Amália está viúva já há alguns anos e sob uma rigorosa vigilância alimentar e dietética de sua irmã, a Doutora Jandyra Hermano de Paula, terapeuta holística e professora universitária aposentada pelo governo militar. Morando a alguns quarteirões de distância e sem frequentar a sua casa senão excepcionalmente, Doutora Jandyra controla atentamente sua dieta, por considera-la desde menina na Cidade de Goiás, a antiga capital provincial, uma incorrigível glutona. E, preocupada com possíveis travessuras gastronômicas da irmã, delega a mim, reiteradamente que, sobretudo à noite, seja seus olhos e sua voz, quando na companhia de Doutora Amália; especialmente quando nos sentássemos para comer, porque aí residia o perigo. Desde a mocidade, Doutora Amália gostava de cozinhar e recepcionar os amigos com generosidade e refinamento, prazer que dividia com o marido, considerado por todos um exímio cozinheiro, como o recordava Jorge Amado, paciente de suas invenções culinárias e gastronômicas.

Doutora Amália se dispôs a ensinar-me os segredos da cozinha goiana, e para fazê-lo só havia uma forma, cozinhar. Botar a mão na massa. Ah, se Maxi fosse vivo! – dizia-me. – Teríamos, aqui, toda noite, um banquete. Fartura e variedade era o seu lema…, Mas, prove este bolinho… Prove. Só há igual em Cidade de Goiás! E, estes, vieram de lá… De Goiás de velhas tradições. Bolinhos de arroz feitos especialmente por Dona Maninha, de tradicional família libanesa aculturada em terras dos Goyases…

Uma noite, gulosamente, saboreei a decantada galinha com pequi e, no afã de saboreá-la, mordi gulosamente o fruto de ouro que na época da safra, em setembro, propaga pelas ruas da cidade um cheiro terrestre, intenso e exuberante. Sensual, diria. Por seu perfume penetrante, sabe-se que é a safra de pequi que invade as esquinas e não pode faltar às mesas de ricos e pobres, pois todos comem o pequi. Fiquei com o céu da boca e a língua pontilhados de minúsculos espinhos. Doutora Amália, mãe da sabedoria, deu-me um chapéu de palha e mandou que mordesse suas abas. Antes, fez-me tomar na boca uma colherada de azeite doce. Fui ao lavabo com o chapéu de palha na mão, após beber uma colherada de azeite. Mordi a aba do chapéu, como mandara. Uma santa e eficiente terapia que me livrou, instantaneamente, do incomodo. Senti-me reconfortado, quanto minha anfitriã ria-se de minha gulodice.

Aprendi os segredos dos doces e biscoitos aperfeiçoados por gerações de exímios doceiros e quituteiros das velhas casas coloniais das cidades históricas de Goiás, convocados para as grandes celebrações e datas íntimas e significativas.

Senti uma pletora de emoções e encantamento, ao ouvi-la, falando sobre personagens já esquecidos, de histórias que sobrevivem no imaginário coletivo, como uma herança de gerações. Contou-me várias histórias que seus pais e avós apreciavam contar e que inspirariam alguns dos melhores contos de Bernardo Élias, como a da mulher que matara o marido abusivo e jogara o seu corpo num igarapé coalhado de piranhas famélicas que o devoraram, num abrir e fechar de olhos, dele restando apenas a ossada branca. Contou-me em detalhes como sua mãe fugira mato adentro com o filho recém-nascido nos braços para escapar de bandoleiros em luta pela posse da terra, episódio que inspiraria a Bernardo Élis O tronco, considerado a sua obra magna. E a absurdamente estranha história que resultaria no conto A enxada, sobre um pobre agricultor que usara as próprias mãos para escavar a terra e plantar as poucas sementes que em sua pobreza conseguira amealhar, de tudo o que escreveu o autor de Ermos e gerais o meu predileto.

Impressionou-me o relato sobre um homem perverso e mau que seus avós conheceram e foram testemunhas de sua morte e do seu transporte até o cemitério por umas poucas pessoas que o acompanharam à última morada, enquanto sobre suas cabeças, planando nas alturas, um numeroso bando de urubus crocitando seguia o cortejo sinistro. Só se dispersariam depois do coveiro jogar-lhe a ultima pá de terra sobre o caixão…

Repositório de infinitos contos, conhece Doutora Amália em extensão e profundidade a terra e a história goianas; cultiva e preserva a memória de tradições, como um atuante membro do Conselho Estadual de Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Política de Privacidade — Garantir a confidencialidade dos dados pessoais dos usuários é de alta importância para nós, todas as informações pessoais relativas a membros, assinantes, clientes ou visitantes que utilizam nossos sistemas serão tratadas em concordância com a Lei da Proteção de Dados Pessoais de 26 de Outubro de 1998 (Lei n.º 67/98). As informações pessoais recolhidas podem incluir nome, e-mail, telefone, endereço, data de nascimento e/ou outros. O uso de nossos sistemas pressupõe a aceitação deste Acordo de Privacidade. Reservamos o direito de alterar este acordo sem aviso prévio, por isso recomendamos que você verifique nossa política de privacidade regularmente para manter-se atualizado(a). Anúncios — Assim como outros sites, coletamos e utilizamos informações contidas em anúncios, como seu endereço de IP (Internet Protocol), seu ISP (Internet Service Provider), o navegador utilizado nas visitas a nossos sites (Chrome/Safari/Firefox), o tempo de visita e quais páginas foram visitadas. Sites de Clientes — Possuímos ligação direta com os sites de nossos clientes, os quais podem conter informações/ferramentas úteis para seus visitantes. Nossa política de privacidade não se aplica a sites de clientes, caso visite outro site a partir do nosso, deverá ler sua própria politica de privacidade. Não nos responsabilizamos pela política de privacidade ou conteúdo presente nesses sites. Para maiores informações, entre em contato conosco.