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O Rio Grande do Norte literário*

Colaborador de Navegos, jornalista e pesquisador José Vanilson Julião  descobre importante documento que transporta o leitor à década de 40 do século passado, conectando-o ao cenário literário local ao flagrar em um texto especialmente escrito para a mais prestigiosa publicação cultural da época.

*Petrarca Maranhão

[email protected]

(especial para DOM CASMURRO)

NATAL a pequena cidade no extremo nordeste do país, a capital mais oriental da América do Sul, é uma miniatura de urbe moderna com todas as características dos centros civilizados. Possui de tudo um pouco. Como nas grandes metrópoles existem nela literariamente as suas rodinhas, as reuniões em mesas de café, em portas de livrarias seus literatos militantes e contemplativos, suas panelinhas… De elogios recíprocos, bem como o jogo dos despeitos, das correntes políticas e das… Perniciosas. Há também os independentes… Grupinhos… Comentários desairosos contra quem querem que seja guardando sua dignidade própria… O estado tem sua Academia de Letras, filiadas as Academias de Letras do Brasil. É seu presidente o desembargador Antonio Soares, poeta de alta inspiração, autor de composições tornadas populares, pela sua simplicidade tocante e emotiva… O historiador e muito lido escritor Luís da Câmara Cascudo, de larga projeção no país e fora dele, figura benquista, por assim dizer, vive do trabalho intelectual, para o trabalho intelectual e pelo trabalho intelectual. É o verdadeiro padrão do homem de letras… São seus membros entre outros, Virgílio Trindade, fino humorista, Dionísio Filgueiras, Oto Guerra, Palmira Wanderley, a notável poetisa de “Roseira Brava”, Aderbal de França, que sob o pseudônimo de “Danilo”, diariamente, faz a crônica social da cidade, Juvenal Lamartine, ex-presidente do Estado, Antonio de Souza, o renomado Policarpo Feitosa, que tantos e tão interessantes romances nos tem dado ultimamente depois que se aposentou da vida política; Luiz Antonio, um dos grandes oradores da terra, Nestor Lima, presidente perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico, Januário Cicco, misto de escritor e de cientista, que depois de nos dar as excelentes “Notas de um médico de província”, várias monografias científicas e um romance sobre a “Eutanásia” promete para breve mais um grande trabalho intitulado “Trint’anos de hospital”. E longa iria a lista, se no momento, nos ocorresse toda a série de seus membros. Justo, entretanto não seria esquecer o nome da veterana e brilhante poetisa Carolina Wanderley, pertencente também ao seu corpo acadêmico.

Entretanto, há ainda os ausentes. Os que presentemente se encontram residindo no Rio. Não é possível deixar de citá-los. São eles: Peregrino Júnior, Adauto Câmara, Rodolfo Garcia, da Academia Brasileira, Umberto Peregrino, José Augusto, Dioclécio Duarte, Elói de Souza, Domingos Barros, José Wanderley. Voltando a Natal, é preciso agora salientar o nome de uma das figuras centrais da inteligência norte-rio-grandense na Literatura, qual seja Henrique Castriciano, um dos mais consumados poetas do Brasil, em todos os tempos, autor de diversas obras primas, para só citar o “O Aboio” e o “Monólogo de um bisturi”. Ultimamente esteve em Natal à consagrada declamadora e recitalista Zoraide Aranha, a menina-prodígio ora residente na Bahia, que deu aos poemas dos poetas da terra de seus pais, a vida e a graça que só ela saberia dar. Prosseguindo, veremos que também fora da Academia inúmeros valores existem por aí espalhados, produzindo apreciáveis trabalhos. Otoniel Menezes, Jaime dos G. Wanderley, Aluizio Alves, Veríssimo de Melo, Esmeraldo Siqueira, Clementino Júnior, J. A. Seabra de Melo e entre os mais novos, Genar Wanderley, Rivaldo Pinheiro, Rui Câmara, Djalma Maranhão, etc. Oradores, possui o R. G. do Norte e bons: Kerginaldo Cavalcanti, Paulo Viveiros, Luís da Câmara Cascudo. Jornalistas idem: Bruno Pereira, Edgar Barbosa, relevante figura intelectual, Elói de Souza. Teatrólogos: Ivo Cavalcanti, Sandoval Wanderley e mais alguns. Educadores: Antonio Fagundes, monsenhor João da Mata, Severino Bezerra, Celestino Pimentel, Clementino Câmara. Na arte musical: Waldemar de Almeida, Maurilo Lira, ambas as figuras exponenciais no gênero. Na pintura: Cícero Vieira. Na escultura: Hostílio Dantas. Dentre os filósofos e eruditos são de citar os nomes de Floriano Cavalcanti e padre Luiz Monte. E como ensaísta Américo de Oliveira Costa. Dentre os descentemente desaparecidos são de mencionar os nomes do desembargador Sebastião Fernandes e do poeta Paulo Benevides.

A relação é grande. Pudera. Terra que tem dados nomes sem conta de individualidades marcantes em todos os setores da atividade intelectual e fora dela, não pode deixar de continuar sendo o germinal de outras tantas figuras já triunfantes ou simplesmente promissoras. A terra que deu Augusto Severo, Amaro Cavalcanti, Nísia Floresta, Ferreira Itajubá, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Felipe Camarão, Jerônimo e André de Albuquerque, Junqueira Aires, Pedro Velho, e tantos outros grandes nomes nacionais, positivamente está fadada a desempenhar permanentemente uma alta função na hierarquia intelectual de nossa pátria. Uma homenagem especial indispensável, deve ser porém prestada nesta crônica caleidoscópica da vida espiritual norte-rio-grandense ás duas grandes figuras de Tavares de Lyra e de Tobias Monteiro, que ainda hoje honram o Estado, na continuidade do labor encimado por seus nomes ilustres, na esfera cultural da capital da República.

É certo que na resenha acima feita, muitos nomes dignos de serem citados, escaparam à nossa presença de espírito, no momento de improvisarmos na máquina de escrever o artigo em que pretendemos dar uma impressão o quanto possível ampla, da vida literária no Rio Grande do Norte atualmente. Está claro que nos cingimos a tratar da atividade meramente literária. Não entramos a comentar a atividade social, industrial, médica, judiciária, política ou comercial. Escrevendo para um jornal eminentemente literário como é o DOM CASMURRO de Brício de Abreu e Álvaro Moreyra esses dois homens incríveis, que numa época como esta, conseguiram fundar e manter um semanário do porte e da beleza que só ele no Brasil conseguiu apresentar ao mundo literário, vitoriosamente, não devíamos nos comportar, senão, de acordo com o espírito do ambiente que nos agasalha. Assim, esperamos seja relevado o que nele houver de omisso, sobretudo levando-se em conta que não pretendeu fazer um dicionário onomástico regional…

O ponto principal da cidade onde se reúnem por assim dizer, espontânea e sensivelmente os paredros literários da capital do Estado (caberá bem a expressão?), recordando os velhos tempos da “Garnier” e hoje da livraria José Olímpio e de alguns, no Rio, são diversos: – o principal, talvez seja ainda a livraria Cosmopolita, do velho Fortunato Aranha. Frente à porta principal, à rua Dr. Barata – o centro comercial mais movimentado da cidade, – são encontrados quase diariamente, em roda costumeiros, Nestor Lima, João Dionísio Filgueiras, o juiz Eurico Montenegro, os advogados Custódio Toscano, Varela de Albuquerque, Felipe Guerra, e alguns mais, menos constantes. A palestra gira sempre em torno das novidades biobibliográficas, questões jurídicas, ou a situação internacional. Nas portas laterais o vai-vem dos que saem e dos que entram, à procura de livros e revistas, moços e velhos, homens e senhoritas, e em frente, o movimento dos transeuntes, dos diferentes misteres e de ambos os sexos.

O outro ponto é o café Cova da Onça. Ai e em frente, na livraria de João Rodrigues, reúnem quase sempre, os novos, em animada palestra cotidiana. Todos os assuntos são revolvidos e explorados. E ainda pouco adiante na mesma Avenida Tavares de Lira, há outro centro literário. É a Agência Pernambucana. O grupo habitual sempre aí está por volta 4 horas até quase 5 horas da tarde. São as mesmas caras. Os mesmos camaradas. Se houvesse um horário e uma ordem superior fixando essas reuniões elas não se efetuariam com tanta regularidade. Além desses lugares há ainda a confeitaria Avenida e o saguão do Grande Hotel, onde modernamente um bom grupo se deslocou para lá atraídos pelo bar recentemente instalado. Isso no centro da cidade.

Na Cidade Alta o local de reunião permanente à noite em dias feriados é o Grande Ponto. No café que tem esse nome, no cruzamento de várias ruas e avenidas perto do Cinema Rex, se vê um ajuntamento enorme de circunstantes, em frente e no recinto do café, na mesma e continuada azáfama, de apreciar os assuntos do dia e da hora que passam céleres, para o eterno esfuziar do tempo, no dizer sonoro de Raul Pompéia, é a ocasião passageira dos fatos, mas, sobretudo – o funeral para sempre das horas.

Eis o que nos apresenta aos olhos numa visão panorâmica rápida, a paisagem literária do Rio Grande do Norte, numa excursão displicente, através de seus aspectos atuais.

* Revista Dom Casmurro (229 – 6/12/1941)

NOTA DA REDAÇÃO: – O artigo do escritor amazonense Petrarca Maranhão retrata o panorama da cidade antes da chegada dos soldados norte-americanos na II Guerra.

Na sequência “Navegos” explica quem são os personagens, prédios e logradouros citados com algumas observações necessárias para a compreensão do contexto.

Além do jornal semanal cultural que abriga a crônica, quem foram os controladores, quem é o autor.

E a origem nordestina deste, precisamente Pernambuco e, principalmente, o Rio Grande do Norte.

As reticências na transcrição se devem a não compreensão de algumas adjetivações com falhas de impressão no original. A falta não altera o teor final.

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