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Relatório expõe miséria da Pinacoteca

Documento elaborado por especialista em 2012 acusa o descaso de gestores da cultura desprovidos de responsabilidade, escolhidos por apadrinhamento político, que contribuíram em sucessivas gestões para o depauperamento de um acervo avaliado em 130 milhões.

*Da Redação

Em 2012 o professor artista plástico Rossini Quintas Perez [Macaíba, 1931-Rio de Janeiro, 2020], considerado pela crítica europeia o último “maître graveur” que difundiu no mundo, através de ações culturais do Itamaraty, a arte da gravura e a cultura brasileira de sua geração, realizou meticulosa investigação para aquilatar as condições físicas e o armazenamento de obras do acervo da `Pinacoteca do Estado. Ao fazê-lo, pretendia certificar-se de que a instituição oferecia as necessárias condições de segurança, pois, além de uma retrospectiva de sua obra, pretendia doar seu valioso acervo de gravuras, matrizes e objetos à instituição fundada em 1983 pelo escritor e jornalista Franklin Jorge.

O resultado de sua avaliação aponta para uma situação real e desconfortável que expõe toda irresponsabilidade de sucessivas gestões da Fundação José Augusto, órgão do estado responsável pela preservação da cultura potiguar, a qual a Pinacoteca está subordinada. O documento, abaixo transcrito é o resumo de anos de inércia, despreparo, falta de compromisso, irresponsabilidade e ocultamento da realidade por gestores comprometidos apenas com a autopromoção ou a realização de eventos efêmeros que geralmente geram noticiários na imprensa e dão a impressão à pessoas desinformadas de que alguma coisa está sendo feita pela cultura local.

Vítima de furtos contínuos e sistemáticos, a Pinacoteca é o retrato vivo da incúria de gestores como Woden Madruga, François Silvestre [que desviou obras do acervo da Pinacoteca para Casas de Cultura de Umarizal e Martins, algumas doadas pelo próprio Franklin Jorge em nome dos artistas] e Isaura Rosado, cujas gestões se caracterizaram pelo afã midiático e autopromocial, a ocultação de denúncias relativas a furtos, como os que se registraram no Museu de História e na dilapidação de patrimônio, de que é exemplo a Oficina de Gravura Rossini Quintas Perez, extinta por falta de investimento e gestão. Seria pertinente registrar que muitas das sugestões feitas por Rossini não eram inédita: no curso dos anos, o Fundador da Pinacoteca já sugerira e intentara sem sucesso despertar o interesse de sucessivos gestores da FJA para sua implementação. Prova deste descaso, o quadro diretivo da Pinacoteca só foi criado 24 anos depois de sua instalação, como decorrência de gestões feitas por seu diretor Vatenor Oliveira à governadora Wilma Faria, embora nunca tenha sido implementado.

Abaixo documento produzido e assinado pelo gravador e professor de arte Rossini Quintas Perez:

RELATÓRIO DE ROSSINI QUINTAS PEREZ

Ilma. Sra. Isaura Amélia Rosado

M.D. Secretária Extraordinária de Cultura do RN

Prezada Senhora:

Visitando a Pinacoteca do Estado com o objetivo de conhecer suas instalações e acervo – visando reunir elementos para o planejamento de uma mostra de minha coleção particular e observar como as doações são tratadas -, verifiquei de imediato graves deficiências estruturais que põem em risco a integridade das obras, como a inexistência de laboratório de restauração e inadequação da Reserva Técnica, que não dispõe dos meios necessários para o seu funcionamento;

Por isso, a título de colaboração, tomei a liberdade de sugerir à direção da Casa que sejam adotadas, em caráter emergencial e a médio prazo, medidas capazes de adequar a Pinacoteca à sua função vital, promovendo melhor desempenho de suas ações e funcionamento, se não ideal, mais funcional e plenamente ajustado à dinâmica de uma pinacoteca estruturada segundo padrões universais;

Instalada em prédio histórico de elegantes e sóbrias linhas arquitetônicas, o antigo Palácio do Governo precisaria, no entanto, de ajustes para acolher, preservar e difundir o acervo de uma instituição do gênero, como se costumava fazer em toda a parte; um desses ajustes diz respeito, justamente, ao acervo formado sem critério e conservado de maneira imprópria enquanto espera ser submetido a um trabalho de seleção que estabeleça o que deve fazer parte ou não do acervo, escolha que deve ser feita com a colaboração de especialistas sob a coordenação de um Curador experiente e antenado com o mundo da cultura. Presentemente, a Pinacoteca do Estado não dispõe dos recursos básicos ao funcionamento regular e proveitoso que caracteriza uma instituição viva e ativa e integrada à vida da comunidade;

Eis, portanto, algumas das sugestões que faço em proveito de um projeto maior, organizadas segundo uma ordem de urgência que, me parece, devam ser consideradas para a adequação da Pinacoteca à realidade, a saber:

– Reforma e ampliação da Reserva Técnica, que deve observar regras que assegurem além da funcionalidade as condições básicas necessárias ao armazenamento e conservação das obras do acervo, como a aquisição e instalação de gaveteiros e mesas de apoio ao manuseio das obras em uso, iluminação e ventilação, e demais serviços que se fazem necessários e imprescindíveis numa instituição do gênero;

– Recuperação, ampliação e reinstalação da Oficina de Gravura, como parte efetiva e intransferível da própria Pinacoteca, servindo assim como um polo de atividades didáticas regulares, considerando-se os serviços já prestados pela Oficina que, em matéria de equipamentos, já foi de “última geração” porém com o tempo foi perdendo seus objetivos, especialmente no que se refere a transmissão de técnicas tradicionais de impressão, além de formação de instrutores e multiplicadores;

– Criação e instalação de Laboratório de Restauro de Papéis e Pintura;

– Marcenaria para manutenção, reparos e confecção de molduras e painéis, quando se fizer necessário;

– Criação e instalação de departamento especializado em Fotografia, uma arte que não pode estar ausente dos objetivos de uma pinacoteca moderna;

– Marcenaria para manutenção, reparos e confecção de molduras e painéis, quando se fizer necessário;

– Criação de Plano Editorial voltado para o planejamento e criação de publicações especializadas;

– Instalação de livraria e cafeteria que constituam chamarizes de público etc.;

Considerando as necessidades mais urgentes, sugiro a aquisição de 04 mapotecas (gaveteiros de aço) com 05 gavetas cada uma, para armazenamento de obras, em dois tamanhos, considerando-se as seguintes dimensões:

0,70 altura

0,90 profundidade

1,34 largura;

Aquisição de 02 mesas (tipo bancada) grandes: 2,5 x 1,30cm;

Sugiro, ainda, que a Pinacoteca promova campanhas de sensibilização que levem cidadãos e empresas a fazer doações de obras cujo conjunto teria o nome do Doador, e desenvolva, paralelamente, uma linha de ação que contemple, por exemplo o Comodato de obras (incluindo mobiliário e objetos de época), pertencentes a acervos particulares, para desfrute público etc. também seria pertinente a oferta de estágios a estudantes universitários;

Notei, ainda, que se faz necessário implementar medidas em favor da qualificação de Monitores atos a atender minimamente à curiosidade e necessidade do público acerca das obras do acervo e dos artistas que o integram. O entorno do prédio, indevidamente transformado em estacionamento, contempla o monumento comemorativo do Centenário da Independência, obra escultórica de Bibiano que se acha, lamentavelmente, abandonado: é necessário integrá-lo ao conjunto.

Sem mais, agradecendo a acolhida e as gentilezas de que fui alvo em minha passagem por Natal.

Subscrevo-me, atenciosamente.

– Rossini Quintas Perez.

Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 2012.

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