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‘Rei da Trova’ quer a união de todos os poetas

Navegos reproduz entrevista de 1991 com Eno Teodoro Wanke [1929- 2001] publicada no Jornal dos Municípios, em Rondônia, semanário fundado pelos jornalistas João Alves Nejain e Franklin Jorge.

*Franklin Jorge

[email protected]

Engenheiro químico, funcionário da Petrobrás, o paranaense Eno Theodoro Wanke tornou-se a maior autoridade brasileira no estudo da trova, gênero poético ao qual dedicou quatro grossos volumes. Talvez por isso, por essa operosidade, tenha tantos desafetos entre os trovadores, uma gente que vive roubando a trova dos outros e adora uma boa intriga. Prejudicado pelo excesso, destaca-se mais pela quantidade do que pela qualidade, porém não se pode tirar-lhe o mérito de ter produzido obras de referência fundamentais. O sucesso veio para Eno Theodoro Wanke com os estudos sobre a trova escabrosa e com os grafitos latrinários, que recolheu por onde passou, nos três continentes. Já falecido, não sei ao certo quando nem onde, mas suponho que no Rio de Janeiro onde o poeta e pesquisador, já aposentado, morava, esta entrevista foi feita em 1989, para publicação em um jornal que eu ajudei a fundar em Rondônia e que, naquela

Sabia que o Rio de Janeiro, para quem o vê de longe, lembra um manicômio?

Eno Theodoro Wanke – Deve ser influência do noticiário da televisão, sempre tão centrado nos crimes, guerras de quadrilhas, no problema dos tóxicos, nos assaltos, nas bundinhas das garotas da praia etc. Pois sabe que o Rio, para quem está aqui dentro, também lembra um manicômio?

Gosta de falar de si mesmo?

Eno Theodoro Wanke – De mim mesmo, como pessoa ou como engenheiro, até que não gosto muito. E olha que, como engenheiro, até que fui bem longe… Eu gosto mesmo de falar é de minha obra como escritor, isso sim.

Por que escreve?

Eno Theodoro Wanke – É uma espécie de necessidade fisiológica, como comer, dormir, amar. Se passo alguns dias sem escrever, fico infeliz.

Como definiria o ato de escrever?

Eno Theodoro Wanke – O ato de escrever, para mim, como já observei, é fisiológico. Uma necessidade do espírito e até do corpo. Nasci para isso.

É possível a poesia sem loucura?

Eno Theodoro Wanke – Acredito que sim. Embora digam que a própria poesia já seja, em si, um forte indicio de loucura.

Que é a loucura?

Eno Theodoro Wanke – A loucura tem muitas definições, desde aquela que a considera um estado patológico de fuga da realidade, até a de quem teima em perseguir um ideal contra tudo e contra todos – o que também pode ser considerado uma fuga.

Como as pessoas, em geral vêem o poeta?

Eno Theodoro Wanke — Certa vez, ao receber do pernambucano Mário Souto Maior – quando ele organizava seu “Dicionário do Palavrão” – um questionário pedindo que definisse o palavrão e, desse exemplo, arrolei entre eles a palavra “poeta”, pois era assim que eu sentia na indústria onde então trabalhava, ou seja, a Refinaria de Cubatão. Quem quisesse ofender fundo a alguém, especialmente na área profissional, que lhe chamasse de “poeta”. Mário não chegou a consignar tal palavra em seu dicionário, mas comentou a coisa num jornal, dando-me razão.

Como você concilia a poesia com o estado de guerra da vida cotidiana?

Eno Theodor Wanke – Tudo funciona como se a gente tivesse uma espécie de lar espiritual onde ela, a poesia, nos esperasse para nos acolher em seus braços depois de um dia cheio de batalhas, trabalhos e decepções. E é importante saber, enquanto sofremos nossa vida, que ela existe, o refrigério, o consolo da poesia… Não é à toa que minha mulher a considera uma séria rival.

Por que se voltou para o estudo da trova?

Eno Theodoro Wanke – A trova sempre me fascinou, desde criança. Sua brevidade, sua capacidade de dizer tanto então pouco espaço, sua penetração popular, tudo isso me levou a cultivar a trova desde os primeiros momentos do movimento trovista, em 1950, juntando-me a Luiz Otávio. Na década seguinte, quando o trovismo ia de vento em popa, vendo que o chamado mundo oficial da literatura não dava bola aos trovadores, comecei a estudar o movimento. E aí fiz descobertas tão surpreendentes a propósito da trova que não tive alternativa outra senão seguir adiante em meus estudos. E aquilo que, no princípio eu julgava que caberia num livrinho fininho terminou resultando em quatro grossos volumes.

Mantém contato com muitos trovadores?

Eno Theodoro Wanke –Com muitos,sim. Procuro manter contato com todos os trovadores em atividade, mais de 1000 no país inteiro. Além disso, o boletim da Federação Brasileira de Entidades Trovistas [FEBET], com notícias trovistas e agenda dos próximos encontros, tem uma tiragem de três mil exemplares distribuídos com órgãos de divulgação culturais, jornalistas, escritores, poetas, trovadores e interessados na trova em geral.

Como anda o movimento trovista no Brasil e em Portugal?

Eno Theodoro Wanke – O movimento trovista no Brasil e em Portugal anda mal das pernas. Não há quase divulgação das trovas – o que seria essencial à vida de um movimento literário. E os trovadores, em vez de se unirem, vivem de picuinhas e tititis. Ultimamente a FEBET e o Clube de Trovadores Capixabas têm feito grandes esforços para difundir o movimento através de encontros que acontecem em todo o Brasil, nestes últimos anos: Vitória, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Petrópolis, Timóteo, São Paulo, Maringá, Porto Alegre, São Gonçalo, Campos, Porto Velho… No ano que vem [1991] estão marcadas duas cidades novas: Brasília e Corumbá. Quanto ao movimento em Portugal, coincide com a informação acima, onde o que há são apenas alguns trovadores. O mesmo ocorre nos países luso-africanos.

Por que os trovadores brigam tanto? As entidades trovistas são antros de intrigas?

Eno Theodoro Wanke – Não acredito que cheguem a ser “antros”. Mas que apreciam uma boa intriga, isso lá é verdade. A propósito, estou às voltas com uma fofoca terrível, causada por um maquiavélico falsário. Imagine que o dito cujo remeteu para todos os membros da diretoria da Academia Brasileira da Trova, a qual pertenço, uma trova porca e ofensiva, imitando a minha letra e minha assinatura! Mandou fazer até o meu carimbo de remetente! O pior foi que o pessoal que recebeu a porcaria acreditou – e entrou no jogo do intrigante, respondendo à trova e espalhando a sujeira para outros confrades. Agora que a coisa foi desmascarada, ficaram todos com uma certa cara de arara… Sei lá por que os trovadores brigam tanto! Talvez por serem humanos, por serem numerosos e por não terem como se comunicar com o público… Quem sabe?

As academias são necessárias?

Eno Theodoro Wanke – Sim, se estendermos a pergunta às outras entidades associativas literárias: os clubes de poesia e de trovas, os grêmios ou que nome tenham, especialmente esses, por serem mais informais e mais abertos. São necessários porque congregam os literatos, dão-lhes “espírito de classe” e, portanto, armas para se juntarem e resolverem seus problemas.

O que tem aprendido na pesquisa da trova escatológica?

Eno Theodoro Wanke – Quem alguns espécimes humanos são de uma hipocrisia e de um cinismo sem par. O mesmo trovador que combate a trova escabrosa, declarando que seus compositores deviam estar na cadeia, este mesmo camarada escreve-as e diverte-se com elas quando em grupinho “só de homens”.

Como tem sido a emoção de participar de leituras e recitais poéticos? Que tipo de público frequenta esses eventos e como ele reage diante dos poeta?

Eno Theodoro Wanke – Na verdade, só tenho participado eventualmente de recitais poéticos. Recentemente houve um dedicado inteiramente à minha obra poética, organizado por Francisco Igreja e pelo pessoal da Associação Profissional dos Poetas do Rio de Janeiro [APPERJ], que tem – mais do que ninguém – levado a poesia ao povo. E do que sei, o público carioca recebe muito bem os poetas e suas produções maravilhosas. O tipo de gente que frequenta os recitais é o mais variado possível – desde os mais humildes aos mais aristocráticos – se é que isso ainda existe. A poesia exerce um fascínio geral sobre todos. Só está faltando mesmo é uma ponte de comunicação para que o povo e a poesia [nela incluída a trova] entrem em harmonia e tenham um caso de amor genuíno.

Qual é o espaço que os poetas ocupam na mídia?

Eno Theodoro Wanke – Praticamente, nenhum.

E antes?

Eno Theodoro Wanke – Na década de sessenta, pelo menos, os trovadores tiveram um período “áureo”: tinham espaço em jornais, nas programações de rádio, e até editoras se interessavam em publicar seus livros. Pois até a televisão [que engatinhava ainda] recebia os trovadores e suas trovas com simpatia.

A trova não se renova?

Eno Theodoro Wanke – É verdade. Acho que a trova sofre, hoje, de uma estagnação resultante de dois males que interagem entre si: falta de divulgação e exclusividade dos concursos. O concurso de trovas, em si, não é um mal, é claro. Acontece que ele exige julgamento – e julgamento pressupõe certas regras, certos padrões que acabam se impondo aos trovadores. Quando o trovador escreve trovas para concursos, não pode fugir daquelas limitações sob pena de ver suas trovas desclassificadas. Com isso, vai-se a criatividade, acaba a renovação da linguagem. Outro mal dos concursos é exigirem sempre trovas inéditas – logo, as trovas que “sobram” de um concurso são “guardadas” para o concurso seguinte, pois podem ser sempre adaptadas aos novos temas. Assim, entramos num círculo vicioso: nem há divulgação de trovas, nem os trovadores têm interesse em divulgá-las.

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