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Os imbecis estão chegando!

Caio Aurélio Domingues, amigo de Michel Bernanos, lembrava que o pai de seu amigo se aborrecia, ficava irrascível com visitas inesperadas e numerosas,. Referia-se a imbeciles!  

*Franklin Jorge

Monarquista e católico, considerado pela grandeza abismática de sua obra o Dostoievski francês, Georges Bernanos [1888-1948] chegou ao Brasil em fins de 1938 para escapar do inexorável terror nazista que se espalhava então  pela Europa.de ampla visai, enxergando longe, sofria mais que a maioria dos homens que enxergavam pouco ou tinham uma estreita percepção das coisas.

Bernanos, não. Enxergava longe. Tinha uma visão sombria do futuro e da existência humana. Via tudo estreitar-se.

Tinha uma fé, então, inquebrantável. Feita para resistir.

O Auto das Carmelitas, tragédia moderna grandiosa. Em que circunstancia a escreveu? Antecipa o terror nazista, pré-nazista. Uma massa plástica, onde se recolhiam as futuras esposas de Cristo.

Temperamental e facilmente irritável, como dos poetas disse Horácio, Georges Bernanos não gostava da facilidade com que escritores brasileiros trocavam o trabalho duro da escritura pelo convívio social. Disciplinado, habituado a uma rotina de trabalho que incluía a leitura, a escrita e os cuidados da propriedade nos arredores de Barbacena, dir-se-ia que vivia para a família, para a labuta no campo. Sua vida era luta renhida. Viver é lutar. Havia ainda a sua correspondência. A sua palavra.

Aborrecia-o ser tirado de suas ocupações para receber visitas, mesmo do famoso grupo de “escritores católicos” chefiados por Alceu de Amoroso Lima, homem rico e influente, da Academia Brasileira de Letras, que assinava seus artigos como Tristão de Athayde. Costumavam se deslocar do Rio em peregrinação a Minas para, em Barbacena, visitar o escritor que vivia com a mulher e seus seis filhos atarefados com a vida no campo, onde desejava criar bois e fundar no Norte de Minas uma comunidade de franceses católicos e monarquistas que prezassem viver em uma terra livre. Ao divisar a caravana, corriam, na maior algazarra, gritando em voz alta, entre risadas, les imbéciles arrivent! les imbéciles arrivent! les imbéciles arrivent!

Refugiado no Brasil, onde tinha admiradores e seguidores, encontrou no Norte de Minas um lugar onde dormir sem vergonha. Como alguém que amava a vida e não se intimidava de lutar por ela.

Caio Aurélio Domingues, primo de Fernando Carneiro, amigo de Michel, um dos seis filhos de Bernanos tinha lembranças de Gustavo Corção, católico e reacionário, amigo de Fernando Carneiro; – o “grande reacionário” segundo Villaça me disse certa manhã ao passarmos de táxi diante de sua casa -, vi-o como uma montanha a ser explorada, escalada, percorrida, sondada por mineiros ávidos de novos filões.

Descreveu como o francês de verbo fustigante que viera ao Brasil “cuver as honte” em uma página de Dez anos, livro esgotadíssimo que Villaça garimparia em sebos do Rio e encontrara no depósito da Agir, para presentear-me com inesquecível dedicatória. Nessa página lapidar, evoca a noite em que o encontrou pela última vez, no quarto de pensão onde morava entre uma montanha de discos de Mozart o poeta Murilo Mendes, enfermo indestrutível. No centro do quarto, sentado numa cadeira, entre amigos e admiradores, a cabeça afundada entre as mãos, cansado e angustiado, vivo, único, movido pela fé, como um centauro doente ora exaltado, ora enternecido.

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