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Os bichos de Zé Lopes*

Colaborador de Navegos resgata mais uma crônica de série inspirada ao autor por sua passagem pelo Ceará-Mirim em 1955 a convite de Odilon Ribeiro Coutinho, na época gerente e depois proprietário da Usina Ilha Bela.

Thiago de Mello

VALE DO CEARÁ-MIRIM (Por gentileza da Panair do Brasil) – Aos embalos da rede armada no alpendre, gasto à tarde na contemplação e também na conversa com os bichos do quintal. São muitos, são bonitos e, sobretudo, são excelentes companheiros, com exceção dos patos, está claro. Que nunca vi bicho de quintal tão orgulhoso como o pato. Agora mesmo estou vendo ali duas patas, brancas e gordas, caminhando lentamente pelo quintal bem cuidado. Vêm avançando, fazendo pausas, enterrando o bico chato na areia, na erva, e lá se vão, desengonçadas, gorduchas, mas orgulhosas. Já os gansos são ótimos. Neste momento eles estão espadanando-se na água do tanque. Como estão felizes! Tenho reparado que os gansos são positivamente da bagunça, e da alegria. Gritam por tudo e por nada. Adoram uma algazarra. Coisa de meia hora chegou-me lá do fundo do quintal os seus gritos: tive a impressão de que estavam em perigo. Talvez uma raposa, pensei. Ergui-me em socorro dos amigos. Pois fui ver e não era nada. Os calhordas brincavam, folgavam. Eles são assim, os gansos.

Daqui estou vendo, altivazinha e brejeira, um frangote pedrês. Digamos uma franga em flor. Passeia solitária, indiferente ao falar das velhotas (como conversam essas galinhas daqui!), alheia ao olhar dos frangos mais ousados ou, como se diz por essas bandas, mais enxeridos. Gosto de ver uma franga assim. Aquela outra, que já está mais madura para o amor, e têm umas pernas compridas e bem feitas, caminha com uma elegância que a distingue das demais. Anda como se estivesse bailando: bailado de galinha é verdade, mas bailado. É a princesa do quintal.

Merece referência especial o caso daquela bela e branca galinha, que ali vejo cuidando de sua ninhada. Segundo apurei, quando ela apareceu choca – pela primeira vez! – as suas companheiras de quintal deram-lhe de fazer pouco caso. “Aquela – dizia certa pedrês velhota e maldizente – aquela não tira nem três pintos”. “São ovos perdidos”, ajuntava outra matrona. A branca, marinheira de primeira viagem, não dizia nada: dava-se inteira e humilde ao seu choco. Pois muito bem. Ao fim de vinte e um dias os pintos começaram a surgir. Um, dois, três, cinco, dez… Quinze. Quinze pintos, sim, senhores! E todos vingaram, todos estão crescendo com a graça de Deus, para orgulho e felicidade da jovem galinha, cuja vocação para a maternidade empolgou a todos, sobretudo o Zé Lopes, misto de caseiro e mordomo, um tipo esplêndido, que dedica aos bichos do quintal aqui de Ilha Bela uma ternura especial.

Já as guinés, decididamente não andam muito a choco. As guinezinhas meninas que andam pelo terreiro nasceram graças às bondades de certas galinhas, que não se fizeram de rogadas nem de ofendidas, em chocar os ovos daquelas parentes um tanto comodistas. Em compensação, como os guinés são garbosos ao caminhar! Muitas delas, conforme venho observando, têm um acentuado pendor para o “ballet”: virtude que Deus certamente lhes deu para compensar aquela cara de palhaço que elas vivem a transportar, assustadiças e ligeiras, pelos terreiros deste mundo.

Por fim, uma palavra, que não poderia faltar, sobre a meiga juriti, cujos suspiros, ao entardecer, me levaram de volta ao tempo de menino, àqueles campos gerais, onde os juritis, tristes e cinzentos, passavam com os seus suspiros.

P.S. ao Superintendente d’0 GLOBO. Meu caro Graell, registro aqui as muitas reclamações que aqui em João Pessoa e em Natal, contra o fato de O GLOBO escassear tanto nessas duas cidades. O interesse é enorme. Tanto mais quanto a RÁDIO GLOBO é, nas duas capitais, a estação sulina mais ouvida.

*”Contraponto” – O Globo (quarta-feira 1/6/1955)

Nota da Redação

Segunda crônica, de uma série de cinco, do poeta amazonense, em périplo pelo Nordeste. Este artigo é publicado no jornal carioca 23 dias após Thiago de Mello anunciar na própria coluna a viagem. Com estadia no Ceará-Mirim a convite do amigo Odilon Ribeiro Coutinho (foto). Adendo à transcrição anterior: – Conversa de quem vai navegando (a coincidência verbal com nome do site).

Odilon Ribeiro Coutinho

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