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O Sistema joga sujo

Advogado potiguar critica a crueldade e efemeridade dos Sistemas em todos os âmbitos da sociedade; ele usa como exemplo um professor universitário às vésperas de ser definitivamente excluído do Sistema de ensino

Honório de Medeiros

O pior da luta contra o Sistema é que não conseguimos individualizar o adversário. Não conseguimos identificar o responsável pelo nosso desconforto. Não conseguimos olhá-lo no olho e dizer-lhe o que ele merece escutar.

Lutamos contra algo amorfo, sem consistência definida, sem limites delineados, que não oferece resistência imediata e clara. Há pequenos recuos ante nossa indignação, apresentados pelos tentáculos do Sistema – os seus operadores – e uma imediata, homogênea e difusa contrapressão como resposta ao incômodo que lhes causamos, e terminamos sendo manipulados e conduzidos, lenta e inexoravelmente, para o lugar que nos foi reservado.

Muito abstrato? Exemplifico.

Em uma instituição de ensino superior deste imenso e desgovernado país, um velho e experiente professor de “História das Ideias Políticas” percebeu, em certo momento de desconforto profissional alusivo a “como as coisas estavam acontecendo” no seu Departamento, como quem acorda abruptamente e a realidade penetra sem rodeios em sua percepção das coisas e fenômenos, um insidioso e ainda opaco processo de mudança nos paradigmas implícitos que governavam a Instituição.

Algo sutil, mas persistente.

O velho professor já passara por algo semelhante em sua longa carreira universitária. Sentiu que a luta era vã em sua resistência inócua contra o processo que se instalava lentamente, mas decidiu lutar, resistir para documentar, mesmo que somente para si, tudo quanto estava acontecendo.

“Quando tudo havia começado?”, perguntou-se. “Ora, como saber?” Abandonou essa questão e tratou de fazer um registro e análise “positivista” do fato, sem levar em consideração possíveis causas estruturalistas, materialistas, marxista-leninistas, do fenômeno em si. Faria o registro, pura e simplesmente, dos fatos e os interpretaria a partir da própria lógica do Sistema.

Recordou que longe, lá no começo, sua disciplina, que previa oitenta horas/aulas por semestre, fora reduzida para sessenta. Reduziram, também, para sessenta horas/aula a disciplina coirmã História das Ideias Sociais. Depois, extinguiram História das Ideias Sociais e a História das Ideias Políticas passou a ser História das Ideias Sócio-Políticas, com as mesmas sessenta horas/aula. Assim, de uma penada só, o Sistema se livrou de vários professores.

Resolveu protestar, então. O chefe do Departamento o escutou atentamente e prontificou-se a levar sua “exposição de motivos” à próxima reunião do Conselho Diretor. Algum tempo depois, sem receber resposta do chefe, indagou dele acerca da decisão do Conselho. Este lhe comunicou que o assunto estava despertando o devido interesse e que, inclusive, tinha sido encaminhado para a Comissão de Análise, uma instância superior, restando apenas aguardar e ter paciência.

Dias depois, o velho professor recebeu formalmente, por intermédio de um memorando, a notícia da desativação da sua linha de pesquisa. Novo protesto. Nova atitude do dirigente de encaminhar, para escalões superiores, sua queixa. Nova espera. E, como não poderia deixar de ser, nova retaliação: as decisões acerca da rotina futura entre professor e alunos de sua disciplina, tais como as datas das avaliações, bem como o conteúdo, foram tomadas sem seu conhecimento, sem sua participação.

E o velho professor, nesse estado de coisas, ao perceber o esvaziamento profissional para o qual o encaminhava o Sistema, passou a duvidar, inclusive, de si mesmo: “será que tudo isso não é o resultado da aplicação de meios que são usados para afastar aqueles que, como eu, já estão próximos da aposentadoria, abrindo espaço para o ‘sangue novo’ dos ‘inocentes úteis’ que assumam os paradigmas que lhes serão impostos sem quaisquer questionamentos?”.

Lembrou-se de uma antiga tia, que fora professora universitária assim como ele o era, a qual se queixava amargamente, pouco tempo antes de sua aposentadoria, de como estava sendo deixada, deliberadamente, para trás em tudo que dizia respeito ao Departamento no qual estava lotada.

Também se perguntou, muitas vezes, acerca de como o Sistema agia com outras pessoas, individualmente demarcadas, que eram opositoras, por essa ou aquela circunstância pessoal. Lembrou-se de um amigo que encetara uma guerra solitária e inútil contra o Tribunal de Contas de seu Estado; outro, às voltas com o Ministério Público Estadual; outro, ainda, enredado nas malhas do Tribunal de Justiça; e do outro sendo massacrado, lentamente, pela burocracia da Prefeitura Municipal. Por fim, outro, a quem a posição do seu sindicato, oportunista e alienada, condenava ao isolamento.

Todos eles vítimas. Todos impotentes. Todos derrotados.

“Que fazer?”, perguntou-se muitas e muitas vezes. Tentar ser um predador, mesmo com os dentes gastos? Imaginar que a experiência compensava a passagem do tempo e ir à luta? Ou renunciar à luta, e ir sobrevivendo no dia a dia, sem se preocupar com o amanhã, agindo como a grande maioria age, engolindo o sapo nosso de cada hora e seguindo em frente?

“Não há resposta”, concluiu desanimado. “O Sistema vence sempre.” “Tenho mesmo é que seguir em frente. Caminhante, pois o caminho se faz ao caminhar”, consolava-se, remoendo esse dito execrável, enquanto a moenda prosseguia, implacável, até que nem o pó de seus ossos existisse mais. Nem o de todos os que viessem pela frente, meras peças de reposição.

A ideia precede a ação, não há ação no vazio da mente, e assim emerge o Sistema: uma ideia mutante, uma ideia fora do Sistema anterior, fora do padrão, uma ideia que é um vírus em busca de um ambiente fértil no qual se replique, desenvolva-se. Um “meme”.

Quando o primeiro ser humano cercou uma área de terra e afirmou que ela lhe pertencia, eis que surgiu uma ideia mutante. Uma vez tendo surgido, e sobrevivido, atraiu outras ideias que puderam a ela se conectar, a mutação funcionando como atractor, ensejando o surgimento de uma rede. A rede é o Sistema.

O Sistema é ideias e homens. O Sistema passa a se expandir na medida em que supera os obstáculos à sua expansão. Assim foi com o rock; assim foi com o futebol; assim foi com o protestantismo; assim foi, no direito, com o positivismo; assim foi com o cálculo integral.

Sistemas destroem Sistemas. O coronelismo se foi; o feudalismo se foi; o cangaço se foi; Roma se foi; todos eles Sistemas que entraram em colapso. Outros Sistemas virão.

Tudo que veio há de ir, um dia. Enquanto isso, na moenda da vida, homens e ideias são triturados.

Honório de Medeiros, advogado, é mestre em Direito de Estado pela UFCE.

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