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O nonsense de um viajante inglês [Parte2-2]

Ensaísta, tradutora, escritora e professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC e do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (UFSC) escreve sobre o excêntrico artista vitoriano Edward Lear, explorando com argúcia e estilo sua descoberta do mundo. Aqui ela apresenta exemplos de Limeriques, gênero humorístico que teria surgido na França no século XV.

*Dirce Waltrick do Amarante

Na obra de Lear, a sociedade inglesa é representada pelo pronome “eles”. E, “eles”, como afirma o escritor Audous Huxley, são “a força da opinião pública””, que “sem exceção, odeia excentricidades”, Contudo, nos textos de Lear, não há uma defesa da sociedade repressora, tampouco do cidadão reprimido, o artista inglês apenas enfatiza a tensa relação entre eles e, às vezes, muito ocasionalmente, uma harmonia entre os mesmos. Assim, o nonsense ora parece pairar acima do Império Britânico, ora refleti-lo de maneira “deformada”.

Já os poucos ingleses descritos por Lear são, em geral, pessoas “normais”, ou seja, ingleses que viviam em harmonia com a sociedade britânica. Esse aspecto da obra do artista revela ainda mais o seu caráter insular.

Contudo, foi longe da sua Inglaterra, mas sempre próximo dos amigos ingleses, que trabalhavam nas colônias do Império Britânico, que Lear escreveu, na opinião de alguns estudiosos, como, por exemplo, Vivien Noakes, sua principal biógrafa, seu “mais importante nonsense”. São dessa época suas histórias em prosa e verso, suas canções, além de sua botânica (reproduzida ao final deste artigo) e de seus abecedários.

Uma das canções dessa fase da vida de Lear é “O Galanteio do Iongui-Bongui-Bô”, cujo nome do protagonista, acreditam os estudiosos, tenha se originado da linguagem de um empregado italiano do artista, que acabava todas as sentenças com o incompreensível refrão “Díngui Dónghi Dà”.  “O Galanteio do Iongui-Bongui-Bô” narra a história de Bô, um nativo da Costa do Coromandel, na Índia, que se apaixona por uma inglesa, Sra. Jingly Jones, a qual já está comprometida com um cidadão britânico. Bô, cuja fisionomia é medonha e não tem muitos bens materiais, não vê seus sentimentos serem correspondidos. Ao final do poema, o protagonista é obrigado a abandonar a sua própria terra, a fim de esquecer seu grande amor. Lady Jones, a inglesa, permanece na Índia, então colônia britânica. Mas ela chora, talvez arrependida por ter perdido Bô; ou talvez sinta-se culpada por ter-lhe expulsado de seu país de origem. Segue-se um fragmento de “O Galanteio do Iongui-Bongui-Bô”:

“Embora seu corpo seja bem acanhado,
Para uma cabeça que enorme se tornou, –
Embora seu chapéu possa de pronto voar,
Sr. Iongui-Bongui-Bô!
Embora seja você um Bom-Bocado –
Mesmo querendo meu palavreado
mudar, ainda assim preciso falar!
Faça-me o favor de se retirar!
Isso é tudo o que tenho a falar –
Sr. Iongui-Bongui-Bô !
Sr. Iongui-Bongui-Bô!”Descendo as lisas ladeiras da Beluga,
Onde a primeira abóbora brotou,
Em direção a calmo e silencioso mar,
Foi-se o Iongui-Bongui-Bô.
Lá, muito além da Baía da Fuga,
Jazia grande e lépida tartaruga; –
“Só você”, disse ele, “pode me ajudar;
Nas suas costas através do mar,
Tartaruga, deve-me agora levar!”,
Disse o Iongui-Bongui-Bô,
Disse o Iongui-Bongui-Bô.Através do mar calmo-turbulento
A tartaruga velozmente nadou;
Agarrado a seu casco com firmeza,
O Iongui-Bongui-Bô viajou.
Com um triste e simples movimento
Rumo ao poente das ilhas Sacramento
A tartaruga ainda o levou com presteza.
Agarrado a seu casco com firmeza,
“Adeus, Cara Senhora Theresa!”,
Disse o Iongui-Bongui-Bô,
Disse o Iongui-Bongui-Bô.O Grande Porto de Kakinada
Aquela dama nunca deixou;
No mesmo monte rochoso chora
Pelo Iongui-Bongui-Bô.
No Grande Porto de Kakinada,
Na sua jarra de asa quebrada,
Ainda lastima e sempre chora;
No mesmo montinho de outrora
Junto às suas galinhas chora,
Pelo Iongui-Bongui-Bô,
Pelo Iongui-Bongui-Bô.

Outro poema de Lear, este escrito durante uma viagem à Índia, fala de um monstro que engole donzelas indefesas. O título do poema é “The Cummerbund”, sendo cummerbund uma palavra corrente na língua inglesa, significando faixa usada na cintura pelos nativos da Índia. Esse poema demonstra de que forma as viagens influenciaram a poesia e a prosa nonsense de Lear, e qual era a sua visão do estrangeiro. Abaixo um trecho do mencionado poema:

“O CINTURÃO”
Sentada numa almofada,
Ouvia uma linda canção,
Quando um grito soou longe:
“Lá vem vindo o Cinturão!”
Em vão fugiu: – com a boca aberta
O furioso Monstro a seguiu
E, assim, antes que ajuda viesse,
Ele a bela dama engoliu.

Mas Lear, ao contrário de outro ilustre viajante, o belga Henri Michaux, não fez sua “Mea Culpa”, não se considerava um bárbaro nem se lamentou da “cegueira de quem se beneficia das vantagens de uma nação e de uma situação momentaneamente privilegiadas”, como o fez Michaux. Para o artista inglês, os povos e as pessoas que ele encontrou fora da Inglaterra nunca lhe pareceram muito reais. Todavia, foi ao lado desses seres irreais que ele viveu os anos de maturidade e talvez seu período mais criativo como artista. Essa experiência de se sentir imerso na irrealidade do mundo talvez seja uma das principais características do seu nonsense, que põe em cheque os sentidos estabelecidos, as verdades do bom senso.
Além dos poemas mencionados acima, podemos considerar que os limeriques, no seu conjunto, são como diários de viagem. Neles, Lear registra pessoas e fatos de terras distantes de sua paradigmática Ilha. Só para mencionar alguns exemplos, cito o limerique que fala do velho do Nilo, que afiava as unhas com serra. Num outro limerique, temos um velho de Apulia, que tinha o hábito “bastante peculiar”, na opinião do escritor, de alimentar seus filhos com pães doces.
Por fim, não poderia deixar de mencionar a botânica nonsense de Lear, que começou a ser escrita durante um passeio pelas montanhas de Grasse, no sul da França. Essas montanhas deram a Lear inspiração para imaginar plantas incríveis, nenhuma rosa, ou tulipa, mas vegetais exóticos, ao gosto das regiões quentes do mediterrâneo.

A botânica nonsense consiste em desenhos de plantas imaginárias, que se originaram do cruzamento de vegetais com seres vivos ou objetos inanimados, como, por exemplo, a Faciobesia Estupenda, que tem a forma de um rosto enorme e gordo numa haste de girassol, ou a Chachimbia Gratiosis, que é um longo e formoso cachimbo estendido para fora de uma moita de capim. Sobre a botânica de Lear, Noakes diz existir indícios de que o artista tenha sofrido a influência do livro Hortus Sanitis, escrito no final do século XV. Mas também não se pode deixar de mencionar que, na época da composição da botânica nonsense, a Inglaterra investia nos grandes catálogos de bichos e plantas trazidas de todas as partes do mundo. Parte desses catálogos foi exposta no Palácio de Cristal, edifício de ferro e vidro construído no Hyde Park de Londres, em 1851, para abrigar a maior exibição da indústria de todas as nações e para enfatizar a supremacia do Império Britânico. Desse modo, com a sua botânica nonsense, Lear traria também sua contribuição para a exposição do Hyde Park e reforçaria a “missão imperialista” de suas viagens, porém, ao mesmo tempo, minando, graças ao humor e à ironia, essa mesma ideologia. Essa é, enfim, a rica ambiguidade dos textos nonsense de Lear que estou comentado aqui.

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