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O nonsense de um viajante inglês [Parte1-2]

Ensaísta, tradutora, escritora e professora do Curso de Artes Cênicas da UFSC e do Curso de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (UFSC) escreve sobre o excêntrico artista vitoriano Edward Lear, explorando com argúcia e estilo sua descoberta do mundo.

*Dirce Waltrick do Amarante

O desenhista, pintor e escritor inglês Edward Lear (1812 –1888), considerado junto com Lewis Carroll um dos pais da literatura nonsense vitoriana, teve que deixar ainda jovem a sua fria Inglaterra. Sua saúde debilitada — Lear sofria de asma e bronquite — o obrigou a se estabelecer num lugar de clima mais ameno. Aos 25 anos, o artista mudou-se enfim para a Itália e nunca mais voltou a morar em sua terra natal.

No início, Lear, um viajante compulsivo, apreciou a vida errante. Mas não demorou a perceber que as viagens constantes e a quase impossibilidade de permanecer no seu país o haviam tornado um exilado, e essa condição significava que agora não pertencia a lugar nenhum: para os amigos de Londres, ele seria sempre alguém que mora no exterior e volta para casa nos meses de verão, mas, no continente, seria apenas mais um dos visitantes de inverno.
Lear, no entanto, fazia questão de ser inglês. Na opinião de G. K. Chesterton, aliás, embora o artista fosse uma pessoa instruída e informada, “era provinciano, assim como os demais ingleses instruídos de sua época”. E esse provincianismo está explícito não só nas cartas deixadas por Lear, mas também em parte de seus textos nonsense. De fato, afirma Chesterton: Lear “podia ler sobre estrangeiros, mas não podia falar com eles”. Um exemplo dessa falta de comunicação entre Lear e as outras culturas pode ser percebido numa das cartas que o artista enviou de Damasco à sua amiga Lady Waldegrave, em 1858, onde fala do povo árabe e da relação deles com viajantes americanos: “esses animais [os árabes] tomaram todos os seus tesouros, não apenas roupas, mas livros, coleção de plantas etc., coisas sem utilidade para eles, mas eu acho que as pegaram para o divertimento de suas horríveis criancinhas negras e bestiais”.

Numa outra carta de Lear, enviada de Ardee, na Irlanda, também para Lady Waldegrave, o artista se refere ao povo irlandês como pessoas engraçadas e estranhas, tanto no modo de falar quanto no de agir e pensar, o que lhe fez “cair na gargalhada”, segundo sua própria expressão. De sua estada na Irlanda, Lear concluiu: “Os irlandeses são pessoas engraçadas & [sic], no momento que se chega aqui, torna-se evidente que a Inglaterra e a Irlanda são países muito diferentes em diversos aspectos.”

Apesar desse desconforto em terras estrangeiras, Edward Lear aproveitou suas viagens para dar continuidade a sua arte. A novas paisagens deram a ele inspiração para compor, primeiramente, livros de viagem e, em seguida, também textos nonsense, o que revela a rica ambiguidade da sua relação com o outro, na vida real e na literatura.

Quando deixou a Inglaterra, Lear já era reconhecido por seu trabalho como ilustrador de história natural. Em Londres, o artista havia trabalhado com o especialista em ornitologia Prideaux Selby e, depois de adquirir com ele experiência como ilustrador de animais, publicou sozinho seu primeiro livro de ilustrações, intitulado Ilustrações da Família dos Psitacídeos, ou Papagaios (1832).
Lear, contudo, teve de abandonar ainda cedo os desenhos de zoologia, pois eles lhe exigiam a reprodução de detalhes, os quais a sua visão cada vez mais fraca já não lhe permitia alcançar e reproduzir.

No ano de 1835, o artista fez seus primeiros esboços de desenhos de paisagens. Mas foi a sua mudança para a Itália e os seus primeiros onze anos em Roma (nesse período retornou a Londres apenas duas vezes) que lhe forneceram o material necessário para os seus dois primeiros livros de viagem: Paisagens de Roma e seus Arredores, de 1841, e Excursões Ilustradas na Itália, de 1846. Este último livro impressionou de tal forma a Rainha Vitória que ela contratou o artista para lhe dar aulas de desenho.

Em 1846, Lear voltou para passar uma longa temporada na capital inglesa, onde lecionou desenho à Rainha e visitou os amigos. Nesse mesmo ano, publicou seu primeiro livro de poemas. O livro intitulava-se A Book of Nonsense (Um Livro de Nonsense) e continha setenta de dois poemas breves, escritos para crianças e acompanhados de ilustrações do próprio autor. Esses versos, todavia, não eram recentes, Lear os havia escrito há mais de duas décadas, quando ainda vivia na Inglaterra.

O que levou o artista a publicar seus poemas depois de tanto tempo ainda é uma incógnita, o certo é que Um Livro de Nonsense trouxe-lhe fama e dinheiro. Dinheiro que Lear investiu em viagens, pois buscava novas paisagens para desenhar.
Sabe-se ainda que a importância do livro foi tanta para a história da literatura que o termo nonsense, no contexto literário, teria sido tomado de empréstimo do título dessa obra.
De fato, os poemas curtos (de quatro ou cinco versos, conforme disposição gráfica) que compunham o livro se tornaram extremamente populares e receberam posteriormente (no séc. XIX) a denominação de limeriques (estou aportuguesando a grafia de limerick), denominação que associa até hoje os versos de Lear a uma velha tradição de poesias cômicas, surgida, alguns acreditam, na França no século XVII.

Eis alguns exemplos de limeriques de Lear:

Havia uma senhora de Valência,
Que fez descomunal reverência;
Girou como um pião até se enterrar no chão,
Estressando o povo de Valência.

Havia um velho cidadão das Maldivas,
Cujas maneiras eram torpes e aflitivas;
Sentou-se um dia na escada para comer goiabada,
Aquele imprudente velho das Maldivas.

Havia um velho na Estação,
Que fazia confuso sermão,
Mas disseram: “Vá se coçar! Você não parou de falar,
Aflitivo velho na Estação!”

De volta ao seu exílio, na Europa Continental, Lear continuou desenhando e escrevendo, agora com regularidade, novos textos nonsense. Passou também a dedicar-se à pintura, arte que não lhe deu retorno financeiro nem renome.

Nos anos seguintes, Lear publicou novos livros de viagens, assim como novos livros de prosa e poesia. Se os cenários “exóticos” inspiravam os desenhos de Lear, também as pessoas, as línguas e os costumes diversos de sua terra natal serviram-lhe de inspiração.  Por isso, talvez, nos textos nonsense do artista inglês o leitor encontre inúmeros personagens estrangeiros — muitos deles nativos de colônias britânicas –, retratados, no entanto, como seres fora do comum, insociáveis e até monstruosos, que precisam ser disciplinados pela sociedade, obviamente, a sociedade inglesa do período vitoriano.  Não se pode esquecer ainda que, no final do século XIX, época em que Lear escreve seu nonsense, o Império Britânico viveu o seu apogeu, o que parece ter gerado em parte da população inglesa um forte sentimento de superioridade racial sobre outros povos. Segundo Vicent Cheng: “A convicção de que a Pax Britannica realmente estaria a serviço dos melhores interesses do resto do mundo (…) tendia a reforçar a presunção etnocêntrica de genialidade do povo anglo-saxão para regular suas vidas e as de outros povos.

Em destaque, Edward Lear; acima, o artista autocaricaturado na companhia de seu querido gato Floss.

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