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O fotógrafo de Beretta

Colaborador de Navegos, expoente do jornalismo baiano, desfia a memória e resgata fatos e personagens que fazem parte de sua história.

*Reynivaldo Brito

Ao chegar ao jornal fui procurar o professor Fernando Rocha que tinha um cargo de destaque na redação, indicado que fui por seu irmão Wilson Rocha, que era o então Secretário de Minas e Energia, no governo de Luiz Viana Filho. Ele substituirá Oliveira Britto, que fora cassado juntamente com o Secretário de Educação, Navarro de Brito, por terem servido no Governo do Presidente João Goulart.  Embora tivessem Brito nos sobrenomes não tinham parentesco algum, e um escrevia com dois ts e o outro com apenas um.

Depois de conversar com o professor e jornalista Fernando Rocha fui surpreendido por uma movimentação diferente que me chamou a atenção. Mas, como não conhecia a dinâmica da redação do jornal A Tarde , na sua antiga sede da Praça Castro Alves, fiquei ali quieto aguardando uma resposta. Ai o Diretor secretário de Redação dr. Cruz Rios me chamou, porque não havia um repórter sequer naquele momento disponível na redação, e fui enviado juntamente com o fotógrafo João Beretta para entrevistar o famoso cineasta Paolo Passolini que chegara de Roma, onde residia, passando pelo Rio de Janeiro onde permanecera alguns dias. Diante do assédio da imprensa carioca ele resolveu vir para a Bahia em companhia da não menos famosa a soprano de Maria Callas.

Ao chegar ao Hotel da Bahia, no Campo Grande, encontramos o cineasta no balcão da recepção e ao reconhecer avisei ao João Beretta para fotografá-lo imediatamente. Ao perceber a minha aproximação e de que fora fotografado ele resolveu tomar o elevador e subir para seu apartamento. Este foi o meu primeiro contato com o destemido e agitado João Beretta.
Este personagem era muito conhecido nos meios policiais por exercer por muitos anos sua atividade de fotógrafo da editoria policial do Jornal A Tarde. Era uma figura diferenciada. Tinha uma cabeça grande para seu corpo franzino e os cabelos crespos em arrepiados. Falava ligeiro e era muito agitado e ágil na hora de fotografar, mesmo sob ameaças de marginais presos pelos policiais. João não se separava de sua beretta. Não sei se funcionava ou se funcionou alguma vez, mas era sua companheira inseparável.

Na segunda vez que nos encontramos foi quando eu estava no plantão noturno e coincidiu que ele também. Fomos designados para cobrir um evento no centro da Cidade, e quando chegamos nas imediações onde hoje tem o supermercado Extra, na Avenida Vasco da Gama, encontramos um movimento grevista de motoristas e cobradores da empresa de transporte Duran. Esta empresa servia aos bairros da Canela e outros. Mandamos parar o carro e fomos fazer a reportagem da greve. Foi aí um grevista valentão partiu de lá com um pedaço de pau nas mãos. Aí João puxou sua beretta e o sujeito grandão e valentão afrouxou. Continuamos ali por alguns minutos e continuamos nossa viagem. Quando chegamos a redação em vez de uma reportagem tínhamos duas, e a da greve teve mais destaque na edição do dia seguinte.

A terceira vez foi ainda durante o governo de Luiz Vianna Filho, que era um homem circunspecto e refinado. Fomos ao Palácio de Ondina, onde o Governador ia dar uma entrevista ao jornal A Tarde. Quando olhei para o lado o João estava com sua máquina posicionada sobre a cabeça com os dois braços estendidos para cima. Visualizei a sua beretta aparecendo bem em frente ao Governador. Fiquei sem jeito e o segurança preocupado, até que o avisei. Ele colocou por trás da camisa, que estava com uma parte fora da calça.

Finalmente, o João Beretta comprou um velho Jeep Willys e resolveu ir com sua namorada curtir as delícias da beira mar em Itapagipe. Começou a tomar umas cervejas e cachaças. Com seu jeito ousado resolveu se posicionar na areia para apreciar a Lua. A maré estava baixa, a farra continuou junto com sua namorada. Adormeceram e a maré subiu. Quando acordaram a água estava no nível dos bancos. O Jeep ficou lá imprestável  e alguém de brincadeira arrancou o volante e levou para a redação. Quando um colega brincava de sua desventura ele ria, e se insistia ficava zangado e danava-se a xingar. Mas, a sua beretta continuou na cintura.

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