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O exílio de um peripatético

Colaborador de Navegos leva nossos leitores por um passeio pela casa-museu que guarda as últimas lembranças e a memória de escritor judeu que, refugiado do nazifascismo durante a 2a. guerra mundial, cometeu suicídio com a mulher na bela e bucólica Cidade Imperial dos Orleans e Bragança em solo brasileiro.

*Lívio Oliveira

Nas andanças de retiro pelas belas e frias ruas de Petrópolis, a Cidade Imperial de região montanhosa do Rio de Janeiro, decidi com a minha mulher conhecer a Casa Stefan Zweig, que guarda parte da história do escritor austríaco (Viena, 28/11/1881 – Petrópolis, 22/02/1942), local onde se revela aos visitantes detalhes da sua derradeira e trágica vinda ao Brasil, país que o autor judeu conhecera e pelo qual se deslumbrara em rápida e primeira passagem no ano de 1936, a ponto de escrever “Brasil, um país do futuro” (1941).

Havia um táxi solitário numa das saídas da Rua da Imperatriz. Perguntamos ao motorista se sabia o caminho da casa. Não sabia sequer da sua existência. No bolso do meu casaco encontrei um mapa que me fora dado no hotel. Apontei, então, para o desenho do bairro: Valparaíso. Confirmei os demais dados do endereço: Rua Gonçalves Dias, 34. Logo chegamos ao museu-casa, que possui também um memorial do exílio, mantendo iluminadas as trajetórias de centenas de outros exilados com marcas importantes nas artes, ciência e cultura brasileiras.

O motorista confessou nada saber sobre o famoso exilado judeu, que viera para ficar no Brasil em 1940 e que partiu para outro plano, de maneira impressionante e dolorosa, com a segunda mulher, Lotte Altmann, em 1942. Certamente, o condutor do táxi também não tinha ideia de que aquela rua leva o nome do poeta brasileiro da “Canção do Exílio”: Gonçalves Dias (1823–1864).

Na visita que fizemos à casa, pudemos ver e ouvir – contando com a simpatia entusiasmada de uma dupla de gentis senhoras e de uma jovem estudiosa – mais do que já havíamos aprendido e lido do e sobre o famoso escritor, que teve precoce sucesso literário na Europa, portas abertas a todos os gêneros da arte das palavras, em numerosas obras (romances, novelas, teatro, poesia, biografias). Eu e a minha mulher trouxemos diversos livros editados pela Fundação Casa Stefan Zweig; dentre eles, um fabuloso “Dicionário dos Refugiados do Nazifascismo no Brasil”, uma belíssima edição da conferência proferida por Zweig no Rio de Janeiro, em 1936, intitulada “A Unidade Espiritual do Mundo”, um exemplar gratuito (mas não menos valioso) de “Stefan Zweig: Exílio e Integração”, essa obra coordenada editorialmente por Kristina Michahelles.

Ao sairmos da antiga residência de Zweig, descendo as escadarias por um jardim frontal, que conta com um jogo de xadrez de grandes dimensões no gramado (o último livro de Zweig, “o jogo de xadrez”, foi escrito no Brasil), deparamo-nos com o nosso taxista nos esperando cheio de curiosidade, lendo todas as placas informativas no entorno. A minha mulher, nos seus diálogos “investigativos” de sempre, descobriu o sobrenome do motorista: Schneider. Essa foi a abertura para que, no retorno ao hotel, o simpático condutor nos revelasse que foi um dos poucos da família que não tiveram o sobrenome mudado e que os seus pais também vieram ao Brasil exilados, fugindo da tragédia da guerra.

Na conversa até o nosso destino de hospedagem, pude perceber que havia nascido (ou renascido) ali um interesse do descendente europeu pela história familiar de exílio, que levara alguns da família a trocar de sobrenome no Brasil, em face de possíveis incômodos à época. Também pude perceber nos olhos azuis (a máscara contra a covid não os ocultava, por óbvio) um pouco da melancolia herdada dos exilados, um pouco de Stefan Zweig.

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