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O espírito criador

Colaborador de Navegos, um dos grandes expoentes de sua geração conectado à Alta Cultura, aborda um tema que lhe é caro, o mistério da Criação.

*Alexsandro Alves

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Justificar nossa vida através da arte, imagino que nenhuma outra arte é mais digna disso e também mais capaz disso do que a literatura. Sempre imaginei dessa forma o propósito do livro. É mesmo a imagem do alquimista, que transforma elementos vulgares em elementos nobres. A saga de escrever um livro é uma demanda de descoberta, de apropriações e de fúria semelhante à demanda do Santo Graal.

É uma saga de distanciamento, no fim de tudo, de isolamento e de solidão. Quem pode viver uma vida dupla e ser completo em ambas? Há de ser incompleto em alguma ou pior, nas duas. O livro, que é por fim sangue transmutado em tinta, cobra do escritor o mesmo que um amante cobra do outro: submissão a sua arte e afastamento do ordinário. Quem está disposto? É sobre isso “O Lobo da Estepe”, “Tonio Kroger”, muito da obra maior de Proust.

Por que precisa ser assim? É “a decisão gravemente tomada”, como Beethoven escreve no quarto movimento de seu Quarteto de Cordas n.º 16. Essa decisão é um imperativo, porque não podemos “servir a dois senhores”, como o galileu uma vez sentenciou. Mas é estar entre eles e não se ver, absorver tudo, o que há de bom e o que há de ruim, e transmutar em arte. A severidade e o rigor demarcam o caminho.

Mas esse afastamento não precisa ser físico, não precisa ser tão proustiano. Ele, que levou esse ideal às consequências mais absurdas e, por isso, talvez nenhuma outra obra contenha mais sangue do que a dele. Os ideais e as perspectivas que se distanciam para outros horizontes, “mais rarefeitos”, como diz Nietzsche. Embora que Nietzsche também tenha se afastado de certo convívio social. Porém, nem todo o escritor precisa ser um Zaratustra e permanecer trinta anos isolado.

Olhar as coisas de cima, sob uma outra perspectiva, e redimensionar os objetivos de nossa subjetividade, com severidade e rigor. A nossa subjetividade compartilha com alteridade o espaço de outras subjetividades. Essa alteridade não deve ser confundida com identificação. Por isso a severidade e o rigor. Porque tudo ao nosso redor é força criativa, som e fúria shakespeareanas, movimento tempestuoso (“stürmisch bewegt”) mahleriano.

A sociedade é uma maré de força criativa. A cidade em si é um livro. Qualquer conversa é diálogo, qualquer esquina é parágrafo. Uma tarde irmanada com amigos é um capítulo inteiro. Há o amigo, o professor, o inimigo, o leitor, o ouvinte de música – todos aos pés do escritor. Tudo e todos. Porque há sangue em cada letra. Mas também, não esqueçamos, do afastamento e do esnobismo necessários, com severidade e rigor.

Escrevo estas linhas ouvindo as Bachianas Brasileiras n.º 4, de Villa-Lobos, de todas, a única de fato melancólica. Mas a suíte musical acabou e agora o que me vem à mente é a primeira parte da Oitava de Mahler: “Veni creator spiritus!”. É a sinfonia de Mahler que menos gosto, talvez porque sua primeira parte seja um hino católico e a segunda, a cena final do “Fausto”, de Goethe, e eu não encontro ligação entre um texto e outro. Mas isso não é para ser resolvido aqui, mas no sangue transmutado…