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O desastre do último Jabuti

Reproduzimos de Amálgama, revista digital liberal e conservadora de qualidade, texto que expõe mazelas ideológicas explícitas no badalado Torto arado, livro que “não consegue criar personagens psicologicamente complexas”.

*Guilherme Staumpf

Não lembro de nenhum romance nacional recente que tenha ganhado tanta badalação da imprensa quanto Torto Arado  (Todavia, 2019, 264 páginas) do escritor baiano Itamar Vieira Júnior. Os elogios, que se iniciaram quando do lançamento do livro, ganharam corpo após o romance vencer o Prêmio Jabuti.

A coroação parece ter vindo com a entrevista concedida ao programa Roda Viva, em que entrevistadores deslumbrados louvavam o texto que, supostamente, já nascera um clássico e cunharam um termo para os seus admiradores: tortoaretes.

O livro aparentemente agradou pelos temas que aborda: escravidão, racismo, patriarcado. E os críticos apaixonados, incapazes de uma análise objetiva, encantam-se com os assuntos e, como que tomados de uma reação pavloviana, propagam aos quatro ventos chavões como: uma obra de “fôlego”, “necessária”, “urgente”.

A proposta de Itamar é de se inserir dentro da história da literatura brasileira contemporânea como criador de um romance com grande envergadura. O autor procura trabalhar questões sociais, inseridas num drama familiar, buscando um diálogo com a tradição literária nacional –especialmente os autores da geração de 1930 e 1945. Infelizmente, todas as tentativas são falhas.

Acompanhamos no romance a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, bem como de seus familiares, numa fazenda no nordeste do Brasil. Logo nas primeiras páginas, podemos reconhecer algumas inspirações.

O romance de tipo familiar no interior da Bahia ecoa as páginas de O Tempo e o Vento. Não apenas no nome de uma das personagens principais, mas também na tentativa de construção de uma simbologia. Na obra de Érico Veríssimo, alguns objetos são permeados de significado, reaparecendo ciclicamente em momentos definitivos da história – o punhal de Pedro Missioneiro e o tear de Ana Terra são alguns exemplos.

Em Torto Arado, a faca que acaba ferindo uma das irmãs, selará a união entre as duas e, de certa forma, definirá seus destinos. Ocorre que aqui, o objeto é permeado apenas por um pseudomisticismo, não sendo perceptível ao leitor qualquer significado mais profundo em tais passagens – que, via de regra, são construídas por um amontoado de lembranças das irmãs, muitas vezes aglutinadas de forma confusa.

A deficiência do livro é não conseguir criar personagens psicologicamente complexas: incapazes de gerar empatia, elas causam ao leitor a mesma repulsa que as personagens de A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Enquanto se está a ler o livro, consegue-se apenas sentir pena ou desprezo daquelas personagens risíveis, ocas, superficiais.

Findado o livro, só se deseja esquecê-las. Outro traço em comum de Torto Arado com a obra da escritora chilena é a falta de criatividade na tentativa de criar uma atmosfera fantástica. No quesito realismo mágico, o livro de Itamar, assim como o de Allende, soa como uma cópia malfeita de García Márquez. Acontecimentos opacos e descrições simplórias ditam o tom nesses momentos.

Como romance de tipo social, o livro em nada tem a acrescentar. Diferentemente das obras de Graciliano Ramos, Rachel de Queiróz ou José Lins do Rego, em que a problemática social nordestina é retratada não apenas como denúncia, mas como registro, sempre dotado do mais alto nível estético, Torto Arado apenas relata situações exageradas, onde os polos são tencionados com o intuito de mostrar, de forma maniqueísta, quais personagens são bons e quais são maus, o que é aceitável e o que é reprovável. Se pensarmos em Grande Sertão: Veredas e na capacidade de Guimarães Rosa de criar um mundo onde o metafísico e o real se fundem em uma atmosfera de tensão, o livro de Itamar parece um rascunho inacabado.

No que tange à polifonia, o autor também não consegue lograr êxito em sua tentativa. Apesar da mudança de narrador, os capítulos mantêm o mesmo estilo, sendo impossível distinguir uma personagem da outra por sua forma de contar essa história. Uma das belezas de O Som e a Fúria, por exemplo, é justamente a capacidade que Faulkner possui não apenas de alterar as perspectivas sobre os acontecimentos daquela família, conforme muda de narrador, mas também de alterar completamente o seu estilo de escrita e, apesar da dificuldade dos dois primeiros capítulos, é imensa a satisfação do leitor ao chegar no final da obra.

Em Torto Arado temos um projeto frustrado: apesar da troca de narrador, temos a sensação da história ser relatada pela mesma voz. Nesse contexto, teria sido mais efetivo fazer uso da terceira pessoa, do que colocar uma série de narradores que em nada se diferenciam.

O livro de Itamar Vieira Júnior propõe-se a ser alta literatura. Na realidade, sem qualquer qualidade literária ou estética, apenas passa uma mensagem que reforça a sensação daqueles que dela compartilham de estarem do lado certo da História.

Parece que abdicamos de critérios estéticos desenvolvidos por uma rica tradição literária para louvar uma subliteratura panfletária.  Relembrando uma frase do crítico Otto Maria Carpeaux: quando os homens emudecem, começam a falar até as pedras.

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