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O cão

Procurador Regional da República, Colaborador de Navegos, escreve sobre Prêmio Nobel alemão, um dos últimos satiristas da literatura.

*Marcelo Alves Dias de Souza

Günter Wilhelm Grass (1927-2015) nasceu na outrora Cidade Livre de Danzig, que, pelo Tratado de Versailles, de 1919, não pertencia nem à República Polaca nem à Alemã de Weimar. Coisas da Europa de então. Embora Danzig seja hoje parte da Polônia, Grass criou-se alemão. Lutou na 2ª Guerra Mundial. Foi ferido e feito prisioneiro de guerra. Trabalhou como pedreiro. Daí, estudando, virou escultor e desenhista. Já pendendo à esquerda, participou da vida literária e política de seu país. E, sobretudo, escreveu poesias, teatro e romances. Fez-se um dos grandes escritores alemães de todos os tempos, arrebatando o Prêmio Nobel de Literatura de 1999.

A denominada “Trilogia Danzig” certamente representa o ponto alto na literatura de Günter Grass. É formada por “O tambor” (“Die Blechtrommel”) de 1959, “Gato e rato” (“Katz und Maus”) de 1961 e “Anos de cão” (“Hundejahre”) de 1963. São livros que misturam o realismo mágico com uma visível dimensão política. Mostram como o nazismo e a 2ª Grande Guerra afetaram aquela região da Europa. São fábulas, às vezes tristes, outras divertidas, que nos alertam para uma face cruel, mas por alguns negligenciada (quiçá simpatizada), da história. Dos três títulos, o mais badalado é “O tambor”.

Ele é considerado como um ponto de inflexão na literatura alemã. Como lembra a Academia Sueca do Nobel, “um recomeço após décadas de destruição linguística e moral”. É um romance ousado, agressivo até, que colocou Grass no pódio dos grandes escritores alemães e estabeleceu um altíssimo padrão para as suas obras (o que nem sempre é fácil para o trabalho subsequente). “O tambor”, claro, foi bater no cinema. O filme homônimo é de 1979, com direção de Volker Schlöndorff (1939-). Ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes no mesmo ano. E levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1980.

O “nosso” Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), já fazia rasgados elogios ao autor e sua obra: “Satírico autêntico é Günter Grass. Seu romance Die Blechtrommel (O Tambor), repelente e agressivo, já revelou todos os aspectos de sua personalidade literária: o estilo brutalmente naturalista em que conta um enredo fantástico, irreal, possível só como símbolo da realidade detestada; a agressividade contra todos os tabus caros à sociedade; a vontade do anarquista de épater le bourgeois.É uma farsa exuberantemente cômica e exuberantemente trágica”. E chama a nossa atenção para o terceiro título da trilogia: “Tudo isso caracteriza também o romance Hundejahre (Anos de Cão), que fez logo sensação na Alemanha e no estrangeiro. Sátira violenta contra o nazismo e contra o novo regime de Bonn. Simbólica é a história do cachorro preferido de Hitler, que fugiu de Berlim antes da morte do Führer, chega à Alemanha Ocidental, procura novo dono e muda de nome”.

Acredito que é sobre uma parte da fábula de “Anos de cão” que devemos focar aqui. A estória do tal “cão de Hitler”. Um pastor alemão, por sinal. Lembremos que, na trama, alguns personagens são nazistas e, posteriormente, ex-nazistas, que simplesmente “mudaram de pele”. Tornaram-se homens respeitáveis. Como os tais “cidadãos de bem” de hoje. E isso se dá até com o cachorro de Hitler, lembremos.

Trata-se de uma literatura de “encontro com o passado”, é verdade. De alguém que foi criado e educado durante o Nazismo. O próprio Grass, chocando o mundo literário e político, no seu livro “Descascando a cebola” (“Beim Häuten der Zwiebel”), de 2006, autobiográfico, reconheceu expressamente haver sido membro, quando adolescente, do braço militar da SS.

Mas será que podemos transpor essa fábula canina para o presente? E para a nossa terra? Histórias de criminosos nazistas que vieram parar na América do Sul pululam. Na Argentina, em especial, há até um mito do exílio de Hitler por lá. Os mitos são problemáticos. Mas às vezes são cruelmente reais. Josef Mengele (1911-1979), “O anjo da morte”, acabou no Brasil, isso é certo.

Será que agora até o “cão de Hitler” veio bater no Brasil? Tem tanto mito e pastor por aqui…

 

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