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O amigo dadivoso

Fundador de Navegos evoca em crônica a segunda passagem do poeta Thiago de Mello pelo RN, lembra fatos que passam a fazer parte da história da nossa cultura e ao mesmo tempo expõe a mesquinhez com que dirigentes culturais exploram os artistas.

*Franklin Jorge

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Um dos traços característicos de Thiago de Mello, além da afetividade fácil, era a generosidade. Gostava de presentear os amigos e o fazia sem comedimento. Que me lembre, presenteou-me no curso dos anos com visitas inesperadas, manuscritos, livros de sua autoria e de outros autores, alguns nossos amigos comuns e, sobretudo, de jovens estreantes cujo talento desejava compartilhar comigo.

Para ele, tudo era natural; não cobrava nada a ninguém. Aceitava tudo com simplicidade, pois tinha a convicção de que nada levaria deste mundo, embora lhe apetecesse deixar-lhe algo que pudesse lembrar o caboclo que ele fora, um ribeirinho que sempre vira o rio correr em direção ao mar que encerra o mistério primordial da vida. Por isso, não gostava de mesquinhez nem de gente mesquinha. Tinha horror aos avarentos e àqueles que, podendo fazer, não fazem ou fazem apenas para a satisfação da própria vaidade.

Desapegado de tudo, creio que seu bem mais preciosos seria, além de seus amigos, aquele par de roupa tecida, cortada e costurada à mão pelas mulheres do Solentiname, uma ilha de luxuriantes praias e densas floresta, em Manágua, que o Padre Cardenal, Ernesto Cardenal, escolhera para ali realizar o trabalho de sua vida em favor de uma comunidade, até a sua chegada, pobre e esquecida.

Poeta e seu amigo, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, Cardenal acolheu Thiago e o introduziu nessa comunidade que o recebeu de braços abertos. Logo todos se tornaram seus amigos e as mulheres locais, encantadas com os seus carismas de poeta e homem bom, tiveram a iniciativa de tecer uma roupa especial para ele, esse terno branco com que se vestiu, desde então, em todas as ocasiões que considerava especiais. Em 1992, ao visitar-me em Rio Branco para comemorar meus 40 anos, esqueceu essas peças em minha casa, a túnica e a calça de puríssimo linho artesanal. Homem delicado e fino, “sugeriu” em carta manuscrita que eu as devolvesse pelo serviço de correios. E, como presente de aniversário, desenhou uma mesa de trabalho para mim, que mandei executar em pau-rosa.

Em Natal, como convidado especial e homenageado no Dia da Poesia, em 14 de março de 2013, vestiu essa roupa tecida, cortada, costurada e bordada à mão por essas nicaraguenses anônimas e abençoadas. Aqui mesmo, nessa ocasiã, fui testemunha de que ele distribuiu seu insignificante pro-labore em gorjetas a motoristas e garçons –  o miserável cachê que recebeu da Prefeitura de Mossoró – o Governo do Estado estava de tal forma falido que a secretária de cultura recorreu extraordinariamente à prefeita de Mossoró, sua sobrinha, para assegurar-lhe a quantia de 5.000 mil reais, valor que considerei irrisório, considerando-se que seu pagamento  estava condicionado à participação do poeta em um segundo evento que se revelou precário, em Mossoró.  A rigor, seu pro-labore foi de 2.500 por cada uma de suas apresentações. Informado por mim sobre a sordidez dos bastidores dessa negociação, Thiago retribuiu serenamente da melhor forma, ou seja, expressando sua grandeza: presenteou a secretária gananciosa e avarenta com um poema, mas ela não percebeu que se tratava de uma retribuição, porém num estilo, em sua pequeneza e parvoíce de gestora improvisada, ela desconhecia…

Em verdade, a secretaria queria apenas que Thiago conhecesse a Estação das Artes, em Mossoró, onde nos foi servido um lanche após essa comemoração que nos pareceu improvisada e sem propósito. Como público, além dos funcionários convocados para ocupar o auditório, havia apenas uns quatro gatos pingados… Ao comunicar-lhe o fato que tanto me desagradara e que expôs quão mesquinho e explorador do trabalho alheio pode ser o homem investido de poderes, Thiago me disse que estava aqui, não para ganhar dinheiro, mas para continuar uma conversa que havíamos iniciado, há 30 anos, em Rio Branco, quando ele me revelou que em 1955 estiveram em minha terra natal, o Ceará-Mirim, na companhia do grande romancista paraibano José Lins do Rego, hospedando-se na casa-grande da Usina Ilha Bela.

Vale lembrar que, nessa segunda visita de Thiago a terras potiguares, atendendo gentilmente ao convite que lhe fizera, ele me presenteou com a boneca do livro que escrevera sobre o grande poeta de língua espanhola, Jorge Luís Borges, um pequeno volume cujo lançamento em São Paulo tive a honra de comparecer e dele receber um curto e caloroso autógrafo. Curioso é que, ao entrar numa livraria, por acaso, deparei-me de repente com essa sessão de autógrafos. Ao ver-me, Thiago levantou-se e veio abraçar-me e, para que eu tivesse com quem conversar enquanto esperava o término da sessão, pois ele disse que queria jantar comigo, apresentou-me a famoso físico de nome árabe que me informou que Thiago deixara Barreirinha aborrecido com o padre e o prefeito que lhe pediram para não tomar banho em pelo e osso no igarapé em frente à sua casa que Lúcio Costa construiu e deu de presente ao  poeta para que ele tivesse ali, naquela aldeia amazônica, seu refúgio…

REPRODUÇÕES – Em destaque, Thiago em almoço no Camarões com os seus amigos Albérico Batista da Silva e o Editor de Navegos; e, abaixo, retratado aos 22 anos por Isolda Hermes da Fonseca; em seu exílio no Chile com Pablo Neruda, de quem traduziria seus poemas para o português; a mesa desenhada por ele como presente de aniversário dos 40 anos de Franklin Jorge; e carta manuscrita pedindo a devolução da roupa que esquecera em sua casa em Rio Branco.

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