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Negritude literária

Uma das muitas florações ideológicas remanescente dos anos de 1960, quando a mídia descobriu que negro é lindo. O movimento teve em Leopold Senghor, Presidente do Senegal por 20 anos. Em Natal foi entrevistado por Racine Santos, da Tribuna do Norte.

*Marcelo Alves Dias de Souza –  Procurador Regional da República e Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Um dos movimentos políticos mais badalados do momento, no mundo inteiro, é o “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”, em português). Iniciado nos EUA em 2013, foi num crescendo, tendo sido decisivo, junto com a epidemia do coronavírus, segundo os entendidos, pelo resultado das recentes eleições presidenciais naquela enorme nação.

Mas não é só isso. Se até recentemente, com a proliferação dos meios de comunicação, filmes hollywoodianos, televisão, revistas de moda e Internet, a beleza africana original perdeu o seu espaço em prol dos padrões ocidentais, hoje está ressurgindo um novo orgulho da “negritude” no sentido dos versos de Léopold Sédar Senghor (1906-2001), “Mulher nua, mulher negra/Vestida de tua cor que é viva, de tua forma que é bela”. Para se ter uma ideia, nas nossas aulas na Aliança Francesa (e já confesso que adorei voltar a estudar lá), estamos discutindo, por quase toda uma unidade, esses novos cânones da beleza, com ênfase na beleza negra natural.

Esses novos movimentos em prol da negritude, entretanto, tiveram os seus precursores, que pavimentaram o caminho para que um dia essa explosão de conscientização e atitudes ocorresse. E algumas dessas iniciativas surgiram por meio da literatura, que é, muito mais do que a moda ou a beleza, a “praia” deste articulista.

E já que estamos no “espaço” francês, lembremos a “négritude”, corrente literária (e política), nascida de escritores francófonos negros, relacionada ao anticolonialismo, que propaga a existência de uma cultura e de uma identidade própria às comunidades negras. Na verdade, como afirmava Marcel Girard, no já velhinho “Guide illustré de la literature française moderne” (é velhinha a edição que possuo, de 1949, da maison/éditeur Peirre Seghers), “um dos eventos importantes do pós-guerra é a erupção/difusão da poesia negra de língua francesa. Ela é alimentada pela cultura francesa, mas não abandona suas características próprias. Ela é assim uma poesia engajada, porque fala intencionalmente contra a colonização ou, ao menos, contra os preconceitos europeus”. Tem-se escritores originários de toda a francofonia de então: Guiana, Martinica, Guadalupe, Haiti, África do Norte, Madagascar, Ilhas Reunião, Indochina e por aí vai.

Entre seus principais nomes, já relacionados no meu “Guide illustré”, está o guianense Léon-Gontran Damas (1912-1978). Mestiço de negro, índio e branco, como muitos na nossa América do Sul, ele foi escritor, grande poeta e homem público de viés esquerdista (deputado pela Guiana). Estudou direito e letras em Paris. Criticou o colonialismo e a assimilação cultural. Suas obras mais conhecidas talvez sejam “Pigments”, “Graffiti” e “Black-Label”. Viajou muito. Quase um embaixador da “négritude”. Faleceu nos EUA.

Outro grande nome do movimento, bem mais conhecido até, é o martinicano Aimé Césaire (1913-2008). Professor, poeta, ensaísta, dramaturgo e biógrafo. Na França, foi normalista e “agregé”. Anticolonialista, foi deputado pela Martinica, enxergando nas suas reivindicações pela negritude uma luta entre os proletários e os donos do capital. Rompeu mais tarde com o Partido Comunista Francês. Amigo de André Breton (1896-1966), cultivou a estética surrealista. Foi um dos melhores. São famosos os seus “Cahier d’un retour au pays natal”, “Les Armes miraculeuses” e “Soleil cou coupé”. Césaire merece estar, sem dúvida, no panteão dos fundadores do “mouvement littéraire de la négritude”.

Por fim, temos o célebre senegalês Léopold Sédar Senghor, aqui já citado. Professor. Poeta maior. Esquerdista. Deputado e Ministro na França antes da independência do seu país natal. Primeiro africano a ser imortal da Académie Française. Primeiro Presidente da independente República do Senegal (de 1960 a 1980). Defensor de uma “commonwealth” dos estados africanos independentes. Para os seus detratores, está relacionado ao neocolonialismo; mas, para os apoiadores, com razão, foi um símbolo da mistura e cooperação entre duas culturas. Sua poesia – “Chants d’ombre”, “Hosties noires”, “Éthiopiques”, “Le lion rouge” e por aí vai –, é uma síntese da alma europeia com a alma negra numa mística original, ciente do destino do homem negro, da sua história e da sua cultura, visando posicioná-lo na civilização universal. Senghor, na vida, foi quase tudo; e, falecido, recebeu homenagens mil.

Bom, milhões de vivas para todos esses senhores!

 

Em destaue, Senghor, mais político, tornou-se Presidente do /senegal por 20 anos; acima, Aimé Césaire, ficou na Martinica.

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