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Na ABL a confusão é geral

Circula na blogosfera um texto certamente apócrifo, atribuído ao autor de A toca do lobo, Tomaz de Figueiredo, escritor português falecido em sua terra natal em 1936, motivo pelo qual não poderia ter comentado a recente eleição da petista Fernanda Montenegro e Gilberto Gil para o parnaso da Casa de Machado de Assis. Leiam-no, por sua lucidez e pertinência.

*Tomaz de Figueiredo

A Academia Brasileira de Letras nunca esteve tão em evidência antes da discutível, e um tanto absurda, nomeação da atriz Fernanda Montenegro à cadeira de número 17.

Aos 92 anos de idade, com uma admirável carreira de atriz, com diversos trabalhos na TV, teatro e nos cinemas, vem atuando exaustivamente no papel vitalício de militante da terceira idade, repetindo o discurso bobo de um adolescente quando se mete a falar de politica.

Fernanda é do tipo que rotula com os piores adjetivos o atual presidente da República, mas nutre admiração por Sergio Cabral, criminoso condenado a “somente” 393 anos de reclusão. Praticamente um anjo barroco de tão puro e sereno.

A atriz que já foi laureada com muitos “prêmios” no Domingão do Faustão, aparentemente possui uma pífia carreira como escritora, tendo apenas publicado em quase um século de vida, de acordo com os jornais, apenas duas obras:

“Prólogo, ato, epílogo”, onde narra suas memórias e “Fernanda Montenegro: itinerário fotobiográfico”, livro de fotos que contam a sua trajetória pessoal e profissional.

Você deve estar pensando agora: “a pessoa escreve dois livros, sobre ela mesma, sendo um deles praticamente um álbum de fotografias e recebe título de imortal na Academia brasileira de letras?”

Sim. É isto.

O estatuto da Academia Brasileira de Letras estabelece que para se candidatar à uma vaga de “imortal” é necessário ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário.

Eu, como tenho sete livros publicados, centenas de artigos em jornais e revistas, uma dezena de peças teatrais e diversas canções gravadas, poderia me candidatar a uma vaga, mas como tenho alergia a mofo, não gosto de falar a meu respeito e nem tenho nenhuma vaidade, prefiro que minha obra seja lida, algo não muito comum na vida dos “imortais” da ABL.

Aliás, visite a Editora Zelig e conheça meus livros, já que não sou “imortal”.

Quando um “imortal” morre (?), a cadeira fica vaga e será ocupada por outro “imortal” escolhido mediante eleição por escrutínio secreto. Fernanda Montenegro, que concorreu sozinha, faturou a vaga, mas não por unanimidade, o que mostra que ainda restou um pouco de bom senso entre alguns discretos “imortais”.

Mas não pense você que Fernanda é a única “imortal” com uma carreira (??) literária mais do que insignificante.

A cadeira 7, que já foi de Euclides da Cunha e Castro Alves, hoje pertence ao cineasta Cacá Diegues. Entendeu como funcionam as regras do “clubinho”?

Tenha viés político declarado, mas do lado da turma, e pronto: a vaga já é sua.

Até o caricato e desprezível jornalista da Globis, Merval Pereira, ocupa hoje a cadeira 31, assim como seu ex patrão, Roberto Marinho, e dois ex presidentes, FHC e Sarney.

Paulo Coelho, que ao menos escreveu livros de conteúdo duvidoso, mas que se tornaram best-sellers, ocupa a cadeira 21, outrora pertencente a José do Patrocínio.

Curioso que sou, fui pesquisar sobre os laureados e para meu espanto, eu um leitor voraz, nunca ouvi falar de 80% que lá está.

Mas também não é por menos, já que as obras de tais escritores são restritas a um público restrito, que eu diria ser ainda mais restrito que o meu, que já também não sou conhecido.

Estranhamente, gente como Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo e cronista do país, não se tornou “imortal”, ao menos pela ABL, claro.

Mesma coisa com Millôr Fernandes, indiscutivelmente uma das mentes mais brilhantes do mundo das Letras, mas desprezado pela Academia.

O poeta Mario Quintana, meu favorito dos brasileiros, concorreu três vezes e não foi eleito.

Já o nobre e absurdamente talentoso Carlos Drummond nunca quis se candidatar à vaga, assim como Clarice Lispector, que também jamais mostrou interesse algum pela ABL.

Aqueles que se emocionaram com a história da cachorra Baleia e a família com quem vive na seca do sertão nordestino, trama contada em  Vidas Secas, vão se impressionar ao descobrirem que Graciliano Ramos nunca foi eleito à uma vaga de “imortal”, assim como seu colega Monteiro Lobato, pai de Emília, e o gigantesco poeta Paulo Leminski, ambos também injustamente ignorados.

Mas afinal quem se importa com a ABL?

A verdadeira imortalidade não está numa cadeira de clube de “amigos duvidosos”, mas sim na própria obra, pois esta sim, tal qual seus escritores, não morre jamais.

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