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Meninas boas vão para o céu

Professora analisa ‘traço cultural’ do feminicídio

Nadja Lira

Assim como acontece com a maioria das meninas da minha geração, eu também cresci ouvindo histórias fantasiosas de reis, rainhas, fadas, sapos que são transformados em príncipes e heróis que salvam mocinhas colocadas em perigo por terríveis vilões. Cresci acreditando que o bem sempre vence o mal, que meninas boazinhas vão para o céu e que em cada mulher vive uma princesa, a qual, em algum momento de sua vida, encontrará um lindo príncipe montado em um cavalo branco, o qual a levará para um mundo mágico de amor e felicidade.

Hoje, depois de adulta, percebi que toda essa fantasia não passa de uma tremenda enganação, cruelmente imposta às crianças do sexo feminino. Isto porque, enquanto as meninas são preparadas para serem princesas, vivem na ilusão de que são princesas e esperam por um príncipe, os meninos não são preparados e tampouco desejam assumir a figura desse príncipe.

Meninas são preparadas para serem esposas, mães, recatadas e do lar, mas nenhum menino é preparado para ser marido, pai e responsável pelos compromissos inerentes à formação de uma família, por exemplo.

Diferentemente daquilo que é ensinado às meninas, meninos são preparados para assumirem a figura do Don Juan, do conquistador, do garanhão. Meninos são instruídos a se portarem como marinheiros, que tem uma mulher a espera deles em cada porto onde seu navio atracar. Existem pais que, ao nascimento de um filho, afirmam em alto e bom som: “prendam suas cabritas porque meu bode está solto”, num profundo desrespeito à forma como as meninas devem ser tratadas. São raras as exceções.

Não consigo entender, e mesmo ver com bons olhos, a forma diferente como se trata homens e mulheres em relação aos filhos. À mulher se imputa toda a responsabilidade pela guarda dos filhos, como se estes não precisassem da presença masculina para sua produção. Considero profundamente injusta a carga que a maternidade impõe às mulheres porque, se levarmos em consideração o esforço masculino na produção de uma vida, pode-se dizer que este se resume a um mero instante de prazer.

Nesse momento em que o país inteiro volta seu olhar para a questão do aborto, observo que no Brasil a única parte responsabilizada por tal ato é a mulher, como se esta fosse capaz de fazer um filho sozinha. Ora, onde estão os pais dos filhos abortados? São homens apenas para fecundar uma mulher e não o são suficientemente para assumir as responsabilidades dos seus atos?

Uma boa parte dos homens são educados para, ao se tornarem adultos e donos dos seus próprios narizes, serem também donos, senhores e proprietários das mulheres que cruzarem os seus caminhos. São raros os relacionamentos nos quais não existam problemas com a infidelidade masculina. Eles adoram posar de machões e para provar sua virilidade precisam ter várias mulheres. Quando encontram uma mulher que lhe dá o troco, então espancam, sequestram e matam a infeliz, perpetuando desta maneira, o velho ditado popular: “homem tem que lavar sua honra com sangue”, como se as mulheres também não tivessem honra, dignidade, sentimentos.

Num passado bem recente, a própria lei garantia ao homem o direito de matar a mulher que por alguma razão traísse o marido. Tal absurdo parecia natural aos olhos da população que não via estranheza no fato de um homem traído “lavar sua honra com o sangue da traidora”.

Um fato de feminicídio ocorrido nos anos 1980 marcou minha memória, quando o cantor Lindomar Castilho matou a cantora Eliane de Grammont, com quem havia casado, mas se encontrava separado havia um ano. Castilho, segundo os jornais da época, era um sujeito de temperamento agressivo, violento, ciumento e costumava agredir a esposa. O casamento durou dois anos porque a mulher não aguentava conviver com as agressões.

Ele jamais aceitou a separação e imaginava que Grammont mantinha um caso com o primo dele, o violonista Carlos Randal. Uma noite, enquanto ela fazia um show acompanhada por Randal, Castilho chegou ao local e disparou vários tiros contra os dois. Um dos tiros atingiu Grammont, que chegou morta ao hospital. Outro tiro atingiu Randal, mas ele sobreviveu. E qual foi a tese usada pela defesa do assassino? Legítima defesa da honra motivada por profunda emoção.

É fácil perceber que pouca coisa mudou nos últimos tempos. A lei já não garante o direito de os homens lavarem sua honra com sangue, mas parece que o costume criou raízes dentro deles, que continuam matando mulheres pelos motivos mais estúpidos possíveis.

Em pleno século XXI vê-se as meninas boazinhas sendo mandadas para o céu, apesar das afirmações de que existe igualdade de direitos e que as mulheres são seres empoderados. Na prática, porém, o que se vê é que os ranços culturais não perderam suas forças. Penso, portanto, que as meninas boas não deveriam apenas ir para o céu, mas para Salvador, Campos do Jordão, Buenos Aires, Dubai…, enfim, conhecer e desfrutar as belezas que o mundo oferece.

Nadja Lira é professora, jornalista e filósofa.

 MACHISMO A cantora Eliane de Grammont, assassinada aos 25 anos, em 1955, pelo ex-marido, o cantor Lindomar Catilho; caso comoveu todo o país

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