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Reminiscências agrestes

Inicialmente habitada por boiadeiros que traziam gado da Paraíba e de Pernambuco para o Rio Grande do Norte no século XVI, o povoado se tornou vila com o nome Anta Esfolada devido ao animal que assustava a população; elevada a município em 1852, ganhou o atual nome: Nova Cruz; é a história dessa cidade contada em livro publicado pela editora FeedBack que o fundador e diretor de Redação de Navegos resenha aqui

Franklin Jorge

“Memorial da Anta Esfolada – Nova Cruz no Espaço e no Tempo” (FeedBack; 174 págs.; 2014), de Antenor Laurentino Ramos, alude ao entroncamento ferroviário que alavancou o progresso de Nova Cruz, por muitos anos uma cidade próspera, com peso político forte em uma vasta região do Agreste.

Mais que isto, tem foros de comarca onde vive uma humanidade capaz de inspirar um escritor de gênio, a oscilar entre o imaginário e o real, entre a ficção e a memória que sobrepuja o talento, fazendo-se real, como esta manhã de outubro.

Quem primeiro me deu notícia desse livro foi Aldorisse Henriques, que tem luz e música no nome – uma dessas felizes invenções que já nasceram perfeitas. Aldo e Clarice, suponho a junção poética dos nomes do pai e da mãe dessa adorável amiga, de quem fugi por tanto tempo, pelo tempo em que ela, fazendo-se de carnavalesca, queria-me fazer um folião. Ainda mais em troça de jornalistas e afins. Eu fugia da farsa carnavalesca, do folião que não podia deixar de ser, por pudor. Não me achava capaz de tanta lascívia. Anos depois, já amigos, ela me confessou não ser tão carnavalesca assim. Coisas da vida sem explicação.

Não, já prestei tributo a Momo, faz muito tempo, por curiosidade e vontade de experiência. Provei, descartei. Imagine-me passar por carnavalesco, só se fora um carnavalesco trágico, como vi encarnado em Vicente Serejo, na Bandagália, sobraçando o seu uísque e “Coelhinha”, a cara mais trágica de quantos tenho visto. Era de cortar as nádegas.

Nada vi mais trágico. Ou tragipatético, sei lá. Serejo com cara de cloretinho de sódio.  Não sei o que mais vi, nessa troça, além da coelhinha de dentes estufados. Sobraçando seu cloretinho de sódio.

Mas voltemos ao livro, que evoco como uma obra de singular relevo. Erguido com os adornos de um estilo oral, feito de novidades antigas, de saborosas usufruições. Verdadeiro pão dos anjos, essa escritura conectada com a comédia humana que remonta a antigas aparições assombradas sob a forma duma anta esfolada viva, que escapava do quicé do esfolador, e corria o mundo pedindo justiça. Um frade desencantou o mistério à custa de rezas. A anta sossegou e desapareceu. Nunca mais tornou ao povoado, que conheceu o sucesso. Tornou-se um importante entreposto comercial. Um entroncamento, de fato, ferroviário. Um lugar de muitos negócios. Tornamo-nos, desde então, amigos.

Sinto-me grato por ter sugerido o título da obra que há de crescer com o tempo. Só muito raramente um autor me empolgou tanto. Por último, Nelson Hoffmann, o imprescindível Villaça, Rachel Jardim, Murilo Mendes. Cléber Pacheco. Não esperava ler um livro tão carismático. Um livro que cerramos a última página com pesar. Amigos de leitura e da encantadora palestra de Antenor, que se tornariam costumeiras, lá na Vila dos Espanhóis, no Tirol.

Escreve Antenor sobre sua gente. Sobretudo sobre sua avó, que acolheu mais de dez sob o seu teto, inclusive a mãe do autor, abandonada dentro de uma caixa de sapatos à entrada do curral, tão desnutrida estava. Antenor descreve tudo com minúcias, a avó teúda e manteúda, espécie de Chica da Silva, amásia poderosa do poderoso tabelião do Cartório e chefe político. Tinha movimentado comércio em dias de feiras. Tinha, em seu negócio, freguesia avantajada. Tinha tino para negócios. Residia em casa senhorial, num alto, fazendo-se vista por todos.

Romance digno de uma minissérie. Cada vida, um mundo narrado com particular enlevo, deliciosamente em estilo conversado, rico de personalidade, um microcosmo multifacetado, fluente, dinâmico, repleto de novidades.

Fervilha o livro de criaturas vivas. Pacientemente recriadas em meio a um universo de seres cheios de alma, as personagens e as lembranças da terra natal de um escritor que urdiu sua própria comédia humana. Uma homenagem a Balzac, como soube a literatura prestar homenagem alguma vez a um gênio.

Franklin Jorge, diretor de Redação da Navegos, é autor dos livros “Ficções Fricções Africções” (Mares do Sul; 62 págs.; 1999), “O Spleen de Natal” (Edufrn; 300 págs.; 2001), “O Livro dos Afiguraves” (FeedBack; 167 págs.; 2015), dentre outros.

LEMBRANÇAS Capa do livro “Memorial da Anta Esfolada – Nova Cruz no Espaço e no Tempo”, de Antenor Laurentino Ramos; através de suas memórias familiares, autor narra a história da cidade do Agreste potiguar que fica a 93,4 km de distância da capital Natal

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