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Inep censura Manoel de Barros por contrariar a Bíblia

Em sua edição de novembro do ano em curso revista Piauí desmonta critérios adotados sob a presidência do professor Marcus Vinícius Rodrigues e expõe bastidores da elaboração das provas do Enem de 2019

*Por Ângela Kempfer

Poeta Manoel de Barros foi vetado do Enem por “contrariar” trecho da Bíblia
Documentos sobre a elaboração da prova de 2019 mostram 66 questões excluídas

Após 2 anos, quem luta para enfrentar o Enem descobre que um dos conteúdos mais exigidos durante a preparação já foi boicotado da prova. Documentos divulgados agora mostram que em 2019 houve censura à poesia de Manoel de Barros no Exame Nacional do Ensino Médio.

A questão surgiu de “O Livro das Ignorãças”. Contrariando a Bíblia, Manoel escreveu: “No descomeço era o verbo”, uma oposição a “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus (João 1:1-4)”. Na justificativa dos censores, usar tal verso “fere sentimento religioso e a liberdade de crença.”

“Era previsível”, diz o professor Rossine Benício, que há quase 30 anos, ensina Literatura em Campo Grande. Na avaliação dele, Arte e Literatura sempre serão penalizadas diante de imposições ideológicas, porque na essência, são “questionadoras e transgressoras”.

Como professor, sente muito diante da perda do trabalho realizado durante um ano, que incentiva o pensamento crítico dos alunos. “Agora, só falta cobrar o hino nacional, as cores da bandeira. É a volta do ensino tradicionalista, de coisas que eu estudava em 1978”, reclama.

Ele lembra que em 2015, o tema da redação tratou de violência contra a mulher e explorou até canções do grupo Racionais MC’s. “Saímos até para comemorar, porque era uma prova com batida crítica… Isso facilita até o acesso dos meninos da periferia, que conhecem esse tipo de música, que têm contato com Manoel de Barros na rede pública”, argumenta.

Bom tempo, segundo ele, era quando trabalhava textos de Manoel de Barros por duas semanas durante o cursinho. “Os alunos nem conheciam. Mas teve um ano que caíram 8 questões sobre o poeta no vestibular da UFMS”, conta.

Para educadores, Manoel é um dos 15 escritores mais citados em provas do Enem e vestibulares por “desenvolver uma poética singular, marcada por narrativas alegóricas, que transparecem nas imagens construídas ao longo do texto… transitam entre o sonho e a racionalidade, características singulares que fizeram dele um dos maiores poetas brasileiros”.

Na prova de 2009, a citação foi de verso do “O apanhador de desperdícios”. Em 2012, ele voltou com um trecho de “Cabeludinho”.

Mas Manoel não foi o único nome ilustre vetado. Segundo reportagem da Revista Piauí, 66 questões da prova acabaram excluídas, algumas consideradas heresia, outras “leitura direcionada da história”, ou geradoras de “polêmica desnecessária”.

Outros 2 poetas sumiram da prova por atacarem a ditadura militar: Ferreira Gullar e Paulo Leminski. Chico Buarque, claro, também nunca passaria pela avaliação, foi censurado sob alegação de “leitura direcionada da história / Sugere-se substituir ditadura por regime militar”.

A Revista Piauí lembra que, em 2019, o presidente do Inep, Marcus Vinícius Rodrigues, montou uma equipe para analisar ideologicamente as questões do exame naquele ano. Durante dez dias, dividiram as perguntas com os carimbos de “sim” e “não”.

Até a personagem argentina Mafalda caiu fora, porque em um dos quadrinhos citados no Enem, a menina fala: “Sabe, mamãe, eu quero ir para o jardim de infância e estudar bastante. Assim, mais tarde, não vou ser uma mulher frustrada e medíocre como você!”

Na onda antifeminista, os censores se chocaram, inclusive, com foto da Marcha das Vadias, movimento de mulheres que durante manifestação saiu pelas ruas de sutiã.

E o corte não ficou apenas na interpretação de texto. Da prova de Ciências da Natureza, a censura foi sobre a camisinha, apontada como “o meio de prevenção mais barato e eficaz” contra a Aids.

Novamente, a justificativa para a questão ficar na gaveta foi: “Gera polêmica desnecessária”, mesmo argumento para retirar perguntas que citavam “superlotação e as condições precárias” nos presídios, risco das armas de fogo, maioridade penal e até produção de milho transgênico.

Outra justificativa recorrente, que aparece 19 vezes nos relatórios, é “leitura direcionada da história”, usada para desclassificar perguntas sobre a persistência das condições precárias dos pobres negros, a violência policial e até a relações entre o governo Donald Trump e Israel. –

 

 

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