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Goianos telúricos

Fundador de Navegos brinda o leitor com fragmentos de  O Céu de Goiânia, série originalmente de 15 de crônicas em sua maioria ainda inéditas que produziu em sua última passagem por Goiás, em novembro de 2015

*Franklin Jorge

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Num já remoto dia de Setembro de 1979, conversando em seu atelier com o artista Antônio Poteiro [1925-2010], entre uma pincelada e outra ele louvava os sortilégios da noite goiana e, dando ao poeta que o habita, o descrevia como um grande e alto campo semeado de estrelas. Poteiro vem de pote, explicou-me, recipiente utilitário de argila usado para armazenar e resfriar a água de uso doméstico. Em sua mocidade, acrescenta, foi oleiro e ganhou a vida amassando o barro informe e genesíaco.

“Ah, as noites de Goiânia! – suspira Poteiro. – De céu azul-claro cheio de estrelas. De todas as cidades que conheço, prefiro Goiânia, e em Goiânia, o Jardim América, onde moro” [in “O Ouro de Goiás”, pág. 23]. Nascido em Portugal, encontrou em Goiás o céu que dá sombra à sua vida.

Ouço-o e anoto suas entusiasmadas confissões.

Em visita a Carmo Bernardes [1915 -1996], referindo-me ao que me dissera Poteiro sobre o céu de Goiânia, ele me conta que cresceu ouvindo dos mais velhos que a noite foi criada para o deleite dos pagãos. Dos bichos brutos que vivem enfurnados em matas ensombradas e profundas.

Estamos diante de dois goianos universais, nenhum deles nascido em chão dos Goyases. O primeiro, deu-nos Santa Cristina de Pousa, que o mandou, novinho ainda, do outro lado do Atlântico para o Brasil; Carmo Bernardes, nascido em Minas Gerais, aqui chegou fugindo da seca e da fome; ambos, seres telúricos, enraizados na terra e dela tirando o alento que singulariza suas criações. Dois seres agigantados e capazes de auscultar a pulsação misteriosa da terra hereditária, traduzida em artefatos estéticos plástico e verbal. Dois criadores em estado selvagem.

De origem rural, mudou-se Carmo Bernardes para a cidade aos 30 anos; e, depois de viver toda uma existência em contato com a terra e os animais de trato doméstico, tornou-se jornalista cultural e cronista, por mais de 30 anos imprescindível na vida dos leitores.

Poteiro, filho de oleiros, por incentivo de Siron Franco [1947] tornou-se artista plástico e ceramista admirado e reconhecido no mundo das artes. Suas pinturas e cerâmicas vem de muito longe. Talvez da infância. Falam todas as línguas.

Há, no quanto inventaram, um espírito de goianidade; um espírito que subjaz no imaginário coletivo e na cultura do povo goiano; algo genuíno e autentico que faz Poteiro e Bernardes, nos domínios das artes visuais e da literatura, criadores, viscerais, generosos, legítimos.

Ninguém, antes de Bernardes descreveu e engrandeceu com maior argúcia e sensibilidade a natureza da terra goiana, fazendo-se compreender por todos os que pararam nas páginas que escreveu e dotou dessa magia ilusionista da literatura que nos leva a reler com enlevo e proveito o que escreveu em livros Força da lua, meu predileto; Idas e voltas e Jurubatuba, outras obras suas que redimensionam a literatura que se debruça sobre a cultura e o imaginário rural. Uma obra que, por sua visceralidade intrínseca e mitopoética nos coloca a todos, leitores, em conexão com um Brasil autóctone e profundo.

Poteiro e Bernardes, cada um autônomo em seu oficio, contribuíram excepcionalmente para o engrandecimento da Cultura Goiana. Marcaram sua passagem na terra dos homens. Souberam aproveitar os dias e criaram uma obra; a obra que há de representa-los no futuro.

Os dois são personagens de um livro que escrevi. Publicado em 2012 pelo Instituto José Mendonça Teles/Editora Kelps, pretendo, nessa passagem por Goiânia, realizar novas entrevistas para enriquecer e atualizar O Ouro de Goiás. Na primeira edição, rapidamente esgotada, escrevi sobre Bernardo Élis, José Antônio de Moura, José Godoy Garcia, Luís Estevam, Cora Coralina, Amália Hermano Teixeira, Alcyone Abrahão, Frei Confaloni. Além de Carmo Bernardes e Antônio Poteiro, acima citados, dois goianos telúricos.

FOTOS: Em destaque, a Casa de Vidro no Parque Antônio Poteiro. Abaixo, cerâmica e retrato do artista pintando; detalhe do Parque Carmo Bernardes e retrato do escritor.

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