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Escritor potiguar transforma goianos em ouro

Navegos transcreve texto originalmente publicado no Diário da Manhã [Goiânia, 30/11/2015] no qual sua autora faz a cartografia do relacionamento do escritor Franklin Jorge com a cultura goiana que resultou em um livro, O ouro de Goiás [Instituto José Mendonça Teles/Editora Kelps], rapidamente esgotado.

*Iracema Dantas

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Desde menino Franklin Jorge [Ceará-Mirim, 1952] ouvia o nome de Goiás. Uns parentes seus, atraídos pela Marcha para o Oeste que visava povoar e desenvolver o Centro Oeste, haviam se estabelecido nesse estado havia anos. Em sua imaginação infantil, essa vasta e inóspita região foi adquirindo os contornos de um mundo mitológico e fantástico, sempre associado a riquezas e mistério, era, no entanto, completamente inacessível, pois não havia então informações ou publicações acessíveis que saciassem a curiosidade do futuro escritor potiguar acerca do povo e da cultura goianos que sonhava conhecer algum dia a Serra Dourada, guardiã totêmica da velha cidade de Goiás.

Seu pai, de nome José, ainda muito jovem, movido por uma ânsia de aventuras, aportou ali, nessa terra distante, onde chegou a trabalhar, na Ilha do Bananal, com os irmãos Villas Boas, sertanistas notáveis com os quais tirou algumas fotografias que passaram a fazer parte do álbum de família. Dessa fase da vida de seu pai, dele recebeu de presente um abano de palha e um cocar,  confeccionados por índios, o que  aumentou ainda mais a curiosidade e o interesse do futuro autor de “O Ouro de Goiás” [Instituto José Mendonça Teles/Editora Kelps, Goiânia, 2012], livro que reúne suas conversas com escritores e artistas que segundo suas palavras singularizam a Cultura Goiana.

“Sempre o nome de Goiás esteve presente em minha memória, desde menino, quando a minha avó materna se referia às deambulações de meu pai que percorreu o Brasil de um a outro hemisfério. Aos poucos, fui desbravando e adensando esse conhecimento acerca dessa região. Eu me lembro que tinha uma curiosidade enorme sobre a vida e a obra do escritor Hugo de Carvalho Ramos”, lembra Franklin Jorge, autor de Tropas e boiadas, cuja primeira edição, pertencente à orquidofili e pesquisadora Amália Hermano Teixeira, tive em mãos alguns anos depois, ao hospedar-me em sua casa no coração de Goiânia. “Sobretudo, por seu intermédio, pude conhecer realmente além de seu único livro transformado em raridade, detalhes de sua vida e de seu suicídio, já nos anos 80. Doutora Amália não mediu esforços para que eu conhecesse, em profundidade e abrangência, a cultura goiana, que eu já passara a admirar desde que conhecera sua sobrinha, a escritora Alcyone Abrahão, em fins de 1977, quando ela se mudou para uma temporada em Natal.” Estava feit a ponte entre Franklin e Goiás.

“Devo dizer do inestimável trabalho de divulgação cultural de Goiás realizado por Alcyone, afilhada do poeta Pablo Neruda, nascida  em Goiânia no ano de seu Batismo Cultural. Tendo morado em Natal durante todo o ano de 1978, empenhou-se na divulgação de seus artistas e escritores, dentre os quais Carmo Bernardes que seria, de quantos li e estudei, aquele que mais me encantaria, como escritor e ser humano”, afirma. “Em cuja companhia passei alguns dos momentos mais intensos e instrutivos de minha vida. quando já vivia em Porto Velho, dele recebi uma fotografia e uma carta na qual ele dizia, para minha surpresa, que se tivesse tido a graça de ter um filho homem, muito lhe teria agradado ser o meu pai… ”

Quando conheceu Carmo Bernardes, pessoalmente, Franklin já havia se relacionado com vários outros escritores e artistas goianos, alguns, circunstancialmente, como José J. Veiga, que visitaria algumas vezes no Rio, em seu apartamento na Glória, perto de Pedro Nava, nesse tempo mais conhecido como médico e autor de um poema bissexto decantado por Drummond e Manuel Bandeira; outros, em caráter duradouro, como José Godoy Garcia, poeta muito do seu agrado com o qual passou a trocar algumas cartas e livros. “Quando adolescente, no Rio de Janeiro, tive a satisfação e o privilégio de conhecer José J. Veiga – autor de uma obra alegórica que nos fazia pensar em mundos distópticos, assim como Cora Coralina, que, como me diria Carmo Bernardes muitos anos depois, teria dado um sopapo no beletrismo e na poesia então produzida em Goiás.”

“Sempre o que me encantou, na literatura goiana, por exemplo, foi a sua força telúrica; essa espécie de autenticidade que foi se tornando rara com o empobrecimento da cultura brasileira, posterior à ditadura, que foi como que uma espécie de fermento criativo para as pessoas de talento. Grandes obras surgiram nesse período de restrição e discricionarismo, apesar do horror que representa viver em um momento sem indivíduo e sem liberdade”, acrescenta o autor de “O Spleen de Natal”, uma trilogia que dá voz ao povo que não tem voz. “Por outro lado, devo dizer que essa relação do Rio Grande do Norte – onde nasci e vivo – com o estado de Goiás é muito antiga. Ainda durante a Colônia e o Império, fornecíamos o sal consumido nessa vasta e então inóspita região do País.”

Falando certa vez numa sessão do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, levado que foi pela historiadora e orquidófila Amália Hermano Teixeira, pode Franklin Jorge falar não apenas sobre a contribuição de Alcyone Abrahão à divulgação das culturas goiana e potiguar, mas ainda sobre este assunto obscuro e pouco estudado, a relação econômica entre esses dois estados tão distantes e diversos. Todo o sal consumido em Goiás viria do Rio Grande do Norte sobre lombos de animais, numa trajetória que demandava mais de seis meses.

“Alcyone colocou-me em contato com a cidade de Goiânia e com o seu cosmopolitismo, sobretudo com a sua beleza artificialmente criada pelo homem, porém, em muitos aspectos, respeitando a Natureza, como prova e comprova a existência, na capital do Estado de Goiás, de tantos parques e espaços verdes.”

E, depois de uma pausa, acrescenta: “Sobre Alcyone, devo dizer que foi uma das grandes influências que tive nem minha vida. Além das nossas instigantes conversas intelectuais, devo reconhecer que ela, de alguma forma, contribuiu para uma verdadeira transformação em termos estritamente pessoais. Passei a compartilhar da sua natureza epicurista e hedônica, em detrimento do que eu sempre fora, por natureza e índole, um indefectível estoico.”

Revela o escritor que adquiriu, nesse convívio com a autora de “Não Coloque o Macaco Diretamente Sobre o Pavimento”, uma grande autoconfiança. “Aliás, devo dizer que as mulheres sempre tiveram uma influência altamente positiva sobre mim. A começar pela minha avó, passando por duas outras escritoras – a mineiro-potiguar Maria Eugênia Maceira Montenegro e a carioca Leila Míccolis, a quem dedico o diário de viagem que conclui e fecha O Ouro de Goiás.”

“Esse livro tem, em sua gênese, todo um aparato romanesco. A versão que se publica generosamente, por iniciativa do escritor José Mendonça Teles, não é aquela que eu gostaria de publicar. Vale a pena contar essa história. Ainda nos anos 2000, quando eu coordenava o Comitê de Cultura do Projeto Natal 2015, presidido pelo presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, escritor e poeta Diógenes da Cunha Lima, recebi certa manhã, inesperadamente, o telefonema de um norte-rio-grandense radicado em Goiânia, que se identificou como Getúlio Pereira de Araújo, médico. Ele havia tomado conhecimento da existência desse livro, ainda inédito, a que eu dera, num momento de feliz inspiração, o título de ‘O Ouro de Goiás’.”

Getúlio perguntou-lhe porque não o publicara ainda e Franklin respondeu que o seu trabalho intelectual não interessava às instituições culturais do Rio Grande do Norte. Naquele momento, Getúlio assumiu o compromisso de fazer a publicação do livro às suas expensas. “Logo, mandei-lhe a única cópia digitada que possuía. Algumas semanas depois, ao procurar saber se recebera os originais, fui surpreendido com a notícia de sua morte. Desesperei-me, ao ter essa informação, pois não possuía nenhuma cópia do livro, a não ser aquela que enviara, em confiança.” Franklin fez contato com a família de Getúlio, na esperança de resgatar o manuscrito. Mas a mulher e filha de Getúlio, por telefone e e-mail, disseram-lhe desconhecer a existência desse livro.

“Foi um choque para mim, que só pensava no trabalho que tivera, durante anos, para escrevê-lo. Foram anos de pesquisas, entrevistas e contatos, coletando a matéria desse livro que reescrevi, exaustivamente, a partir de 1978. Em fins de 2011, ou seja, uma década depois, recorri a José Mendonça Teles. E ele, achando que já se passara tanto tempo desde o desaparecimento dos originais, sugeriu-me que refizesse o livro com as notas e as demais versões já descartadas. E deu-me um prazo curtidíssimo para fazer isto: queria aproveitar uma verba disponível para publicar o livro. Algum tempo depois, elaborei apressadamente essa versão de minhas conversas com escritores e artistas goianos, que seria publicada pelo Instituto José Mendonça Teles/Editora Kelps em tempo recorde em março de 2012, ano em que, coincidentemente, preparo-me para me tornar em setembro próximo um sexagenário. Um grande presente que me concede o povo de Goiás.”

[2012]

Foto Em destaque, o escritor Franklin Jorge com a sua gata Dayane em sua casa, no Tirol, fotografados por Aldorisse Henriques [Natal, 2012]; e a capa e a contracapa do livro inspirado em seu relacionamento com escritores e artistas goianos [Alcyone Abrahão, Carmo Bernardo, Cora Coralina, Bernardo Élis, Antônio Poteiro, Amália Hermano Teixeira, Maximiano da Mata Teixeira e outros].

Capa do livro, O Ouro de Goiás

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