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Entrevista interrompida com Cassiano Arruda Câmara

Fundador de Navegos entrevista noturna com o criador de O Novo Jornal, ousado empreendimento que marcou a história do jornalismo no RN e do nosso tempo.

*Franklin Jorge

Cheguei pontualmente após o jantar e fui em seguida recebido pelo dono da casa, o professor Cassiano Arruda Câmara, jornalista, publicitário, marqueteiro agraciado cm muitas vitórias. Sempre cordial, aparentando estar satisfeito por receber-me em sua casa, pergunta-me aonde desejo que fiquemos.

Meu propósito, ao entrevista-lo, é tê-lo entre os participantes da trilogia a que dei o título de O spleen de Natal, um livro que muitos prezam. Tomamos sorvetes enquanto conversamos, aspirando o ar da noite, à beira da piscina e depois numa sala íntima, de estar, em torno de uma mesa de trabalho.

Há nele, Cassiano, um menino tímido disseminado no homem grandalhão, cordial, apto à amizade. Quisera, pois, tê-lo no Spleen. Quis a sua experiência, a sua generosidade de comparti-la, quis ampliar a entrevista em uma cartografia do jornalismo em Natal nos últimos cinquenta anos.

Cassiano acabara de jantar e já me esperava. Um pouco acanhado, sem dúvida tímido, satisfeito em receber-me. Ficamos ali conversando. Eu tentando anotar-lhe a fala mansa, educada, calorosa, de um homem que teria sido um grande Senador da República. Não sabia quanto a política lhe fora cara; quanto aspirara legislar. Dos filhos e Lauro e Juanita, dizia o professor Antenor Laurentino Ramos, seria o único dos irmãos verdadeiramente com vocação para a política.

Menino, acompanhou Aluizio Alves em sua caravana apta a tornar-se vitoriosa. Fizera discursos. Criado em meio a política de Nova Cruz, o pai deputado; a mãe prefeita. Aluizista histórica, não se concebia política na ribeira do Curimataú sem a participação de Dona Juanita. Homem, sobretudo, de família. Preso ao parentesco e à amizade. A forja que o fez está desaparecida nos dias de hoje, segundo o autor do memorial da Anta esfolada.

Vou começar a transcrever as anotações que jaziam entre papéis avulsos. Dessa entrevista colhida para um livro, O spleen de Natal, quando o ouvi, uma noite, em sua casa ao pé do morro, numa noite que renunciava um aguaceiro.

Cassiano estava honrado e feliz com a lembrança do companheiro de batente. A conversa transcorreria fluente, sem tropeços, um reencontro feliz, sem lugar para amarguras sob um céu que anunciava chuvas. Que cairiam de madrugada. Daí das três para as quatro horas. Uma noite com cheiro de terra úmida. De grama. Dum resquício de Mata Atlântica ao pé do morro.

Empolgado com a política, acompanhou Aluízio Alves em suas batalhas. Acompanhava-os em seus encontros e comícios. Não fora grandalhão, pareceria um menino. Tão moço era.  Mas sempre sério. O escritor Luís da Câmara Cascudo confiava-lhe a correspondência.

Rapaz, a primeira vez que vim a Natal meu pai era político. Exercia um mandato de Deputado Estadual. Eu teria uns seis anos. No Governo de Dix-sept Rosado Maia, que em vez de se instalar na Vila Potiguar, foi morar no Grande Hotel, onde papai, deputado, morava. Morava lá o filho do governador, Carlos Augusto.

Em frente a Praça José da Penha havia árvore, e nós desparecemos. Fomos resgatados pelo coronel Sebastião Revoredo. Estávamos lá, Carlos Augusto e eu, trepados nas árvores, brincando. Outra lembrança, aos oito anos, quando vim estudar aqui, interno, no Colégio Sete de Setembro à Rua Seridó. Era Diretor o Dr. Francisco Nogueira Fernandes, uma grande figura. Chegou a ser secretário no Governo de Cortez Pereira. Era casado com D. Mariquinha. O casal não tinha filhos. Eu era tão pequeno e fiquei sendo para eles uma espécie de filho de criação. Não me faltava amor e a proteção dessas figuras. Em 1953 o internato fechou e eles quiseram que eu ficasse morando com eles. Fui transferido para o Marista, onde fiquei até 1960, à Rua Apodi.  Lá tive de me virar sozinho.  Éramos de 70 a 80 internos, a maioria na faixa dos dez anos.

Essa experiência me levou a aprender a me virar sozinho. Saía aos domingos para passar o dia na casa de meu Correspondente, uma figura que então existia, que me assistia. Foi quando a minha tia Terezinha, casada com um oficial da Aeronáutica, Hugo Manso, veio morar em Natal. Um feriadão passei na casa de minha tia.

Havia no Marista uma Academia, uma espécie de clube literário no qual nos tratávamos como “Nobre Árcade”. Participei da seção infantil. Em 1958 participamos de uma coisa muito interessante. Uma Semana de Estudos Literários. Foi quando entrei primeira vez na casa de Câmara Cascudo. Nessa ocasião descobrimos que o Rio Grande do Norte não tinha bandeira nem hino. Fomos a Cascudo e, lá, articulamos a criação da Bandeira do RN. Irmão Celso foi o organizador dessa Semana Literária.

Me reencontrei com Cascudo anos depois. Eu era funcionário de Fernando Luís Cascudo, proprietário da Vésper Propaganda, em 1960. A primeira agencia estruturada como tal, meu primeiro emprego. Foi aí que o meu Google passou a ser Câmara Cascudo, um ser, de fato, de cultura enciclopédica.

Mas voltemos aos anos de 1950. Minha mãe era prefeita de Nova Cruz. E Aluízio Alves, preparando-se para a campanha de governador, promoveu lá em Nova Cruz, sede do município, um Encontro de Prefeitos para levantar os problemas regionais e buscar soluções colegiadas. O interesse oculto era a candidatura irreversível. Fazendo isto ele fundamentava e preparava seu plano de governo. Foi quando Aluízio Alves me conheceu…

Em 1950, quando eu tinha 16 anos, tornei-me orador de campanha de Dix-sept Rosado. Houve um comício em Nova Cruz, e eu querendo falar, querendo falar. Fazer um discurso. A partir da´, sempre que meu pai era convidado para esses comícios, já vinha o convite estendido a mim – “Traga seu menino”.

Aluízio Alves me conquistou dando-me atenção. Passei a receber telefonemas frequentes, dele. Tocava o telefonema, e diziam-me: O deputado Aluízio Alves quer falar com vc… Passei a ser o orador do Trem da Esperança.

[…].

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