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E por que não o que é nosso?

Cantor e animador cultural promove concurso digital para escolher A mais bela voz potiguar, iniciativa do projeto de longo curso Talento Potiguar, fazendo por conta própria o trabalho de instituições desconectadas com a realidade. O concurso se encerra na próxima sexta-feira, e o premiado será escolhido através de voto digital.

*Franklin Jorge

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Há meses tive em mãos o livro de Fernando Luiz, A arte de pés descalços, titulo singelo e relato prosaico, sem metafísica ou credos estéticos definidos; folheei-os algumas vezes, sempre protelando a leitura que me parecia ser de descobertas. Aqui e ali, ia tomando conhecimento de uma informação nova – ditada pela experiência e pelo idealismo de um artista que, por sua insistência em romper círculos elásticos, tornar-se-ia de alguma forma uma figura folclórica em luta por sua utopia.

Havia muito tentara entrevista-lo para o Spleen, porém não obtive resposta. E agora, nas vésperas de uma viagem ao Rio, ele me presenteia com o seu livro que é o documentário de um heroísmo, segundo vou averiguando, de lápis na mão, anotando o óbvio ululante abafado por autoridades que regem a Cultura. E ao mesmo tempo, ao lê-lo, o corolário de todos aqueles que pensaram, algum dia, fomentar um sonho. No caso dele, a caça e a revelação de talentos que sem o seu altruísmo teriam um caminho mais árduo. Que lutariam sem esse esteio benfazejo.

Logo, às primeiras páginas deparei-me com um homem que pensa no bem comum. Que não exerce nenhum cargo público, mas dá o melhor de si na auto-realização de muitos. É alguém que sabe ouvir e compreender, porem tem uma meta a perseguir e a alcançar, para justificar a sua existência. Nada pode conter a sua ânsia de seguir em frente, crendo que grandes talentos anônimos costumam viver em bolsões de pobreza. E assim pensando construiu pontes inter-bairros, inter-comunidades.

Fernando Luiz percebe as distorções e o complexo de inferioridade que orienta as ações culturais em nossa cidade; aponta-nos quando cultivamos o exótico, o endógeno, o que está do outro lado, porque não vimos o que está aqui mesmo, ao nosso lado, é o que quer dizer-nos. Um clima de discriminação em tudo. De casa-grande e senzala, agora abençoado por editais que satisfazem urgências, mas não contribuem para a formação e enriquecimento intelectual do público. Sem o viés educativo, quero dizer, porém a um tempo muito didático, ao expor-nos a realidade que permeia a vida de instituições anômalas e estéreis. Verdadeiros zumbis da vida cultural.

Ninguém melhor do que aquele que sofre na própria pele as agruras de fazer cultura entre nós poderia dar depoimento mais isento e preciso, ao falar como criador e paciente de um sistema que não se renova e se compraz em repetir-se, ano após ano, governo após governo, sem novidades e sem idéias novas. Obediente à rotina do ócio e do marasmo que amordaça e limita talentos.

Assim vemos Fernando Luiz, na comunidade do espírito, em contato com a realidade, descobrindo que aqui, na terra de Luis da Câmara Cascudo, berço e laboratório do folclore nacional, é o lugar onde menos se valoriza o artista popular, ou melhor dizendo, a “prata da casa”. Observa também, nas primeiras páginas do seu livro, o tamanho da falta de integração entre a capital e o interior do estado. Sem doutorados, sem títulos acadêmicos, apenas vivendo e pelejando contra o medíocre que há de ser a parte mais consistente de tudo, vendo com todas as inferências o que os sábios não percebem e continuam martelando, martelando em ferro frio, fracasso após fracasso.

Fernando Luiz levanta questões mais complexas. Mas persiste, em seus pensamentos, o incomodo de constar que estamos na rabeira de tudo. Que o Rio Grande do Norte tem uma posição insignificante no ranking da cultura regional. Regional, enfatize-se. Imagine-se na chamada “cultura nacional”. Ele descobre sozinho e nos faz descobrir com ele que não há política cultural sem ações sérias e regulares, sem políticas culturais, enfim; e, muito menos, sem que se dê esse primeiro passo, de todos o mais difícil: o da valorização dos talentos locais. Porque, como aprendemos dos nossos pais, sempre tudo começa em casa. Se não vemos em volta, não enxergamos nada. E, por que não o que é nosso?, pergunta-se, em livro, o meu caro Laurence Bittencourt Leite ao refletir sobre o papel que desempenha nossas instituições.

Começou assim o seu Show das Comunidades, evento que mexe com a parte mais intima de uma cidade – seus bairros. Onde viceja a alma encantadora das ruas.  Ele pode assim dizer: “A riqueza cultural, abafada pela indiferença do poder público e pelo desprezo de certa parcela da chamada elite cultural, esperava apenas uma oportunidade para explodir, em toda a sua plenitude”.

É impressionante como o artista dribla o descaso, a indiferença e a falta de projetos das instituições, que fazem tudo de afogadilho, sem pensar, repetindo a cada ano e a cada evento as mesmas dificuldades rotineiras, os mesmos rasgos de narcisismo e auto-suficiência. deletéria. Em tudo carecemos de espírito público, o que sobeja em Fernando Luiz, que quis altear-se da planície cercando-se de talentos emergentes que passaram a contar com o seu espaço. O Show das Comunidades. Algo especial para a vida de milhares de pessoas do bairro e adjacências.

Fernando Luiz foi onde o povo está. Ele conta como tudo começa, ou melhor, dá de bandeja a gestores que não perdem tempo, informando-se, pois trazem o gênio em si: “descentralização”, mapeamento cultural das comunidades, sobretudo os “desdobramentos socais da cultura”, conforme chama ao resíduo, ao que fica, ao que é verdadeiramente cultura.  Fernando Luiz coloca uma questão que não pode ser ignorada: a disparidade dos cachês pagos a artistas locais e convidados. Os locais são sempre tratados como dejetos, fatalidades a que não se pode fugir, pois constituem os ossos do oficio. Aquilo que chateia. Que podemos protelar, mas em algum momento será preciso, pelo menos, receber e ouvir pensando noutras coisas muito diversas. Manda entrar o chato – e o chato entra pela enésima vez para ter o mesmo saldo.

Ele vindica por uma cultura viva, saída da vida das comunidades, interagindo, porque as idéias circulam. Um gestor esclarecido só precisa ouvir a voz da razão, e saber que não é o dono de nada. Apenas, se tiver sucesso, um gerente mais ou menos eficaz. Ora, há um grande filão nessa área que depende de gestão. A interação da Região metropolitana, que se fará, sem dúvida, por meio das ações culturais que, assim, teriam seus custos reduzidos e sobretudo promoveria a integração de que todos, de alguma forma, se ressentem. De repente, não apenas a capital do estado, vários municípios desfrutariam dos mesmos produtos e bens culturais. A prática de um conceito de sustentabilidade que quase sempre não passa de uma expressão bonita e alvissareira. Que geralmente dá em nada.

A arte de pés descalços, como a viu o seu autor enseja muita reflexão sobre a realidade de fatos que se repetem e inoculam, no público, o vírus do tédio. Quando o script segue automaticamente sem interrupções ou avisos. Escolho esta, que me parece significativa dessa cultura que persiste, porque não a combatemos: “Nessa época de tantas viagens, comecei a perceber que três capitais do Nordeste tinham um diferencial artístico e cultural, em relação às demais. Eram: Salvador, Fortaleza e Recife”.  Fernando Luiz observou que em Salvador os ritmos são versáteis e intensos e que Recife e Fortaleza tem em comum espaços nobres e grandes casas de espetáculos, além de uma infinidade de pequenos clubes e casas noturnas fervilhando nas periferias da cidade. Havia um movimento musical pulsante, baseado no prestigio do artista local, do criador que se insurge contra o tédio de dias em que nada acontece.

Quase nos diz com todas as letras: é preciso pensar a cultura e termos os planos que se façam necessários para o sucesso das idéias. Façamos o novo, que é o velho que estava escondido, como a última arte da chapeleira da rainha. Basta virar pelo avesso – simples assim – o marasmo e a voluptuosa servidão a falta de senso. E, à página 23 do seu livro-documentário, auto-biografia e confissão intima:

“Descobri que o Rio Grande do Norte, apesar de sua riqueza cultural, era o estado onde menos se valorizava os artistas de origem popular, onde existiam movimentos populares para divulgar seus artistas e onde era maior a falta de integração da cena cultural da capital com o interior. Havia uma espécie de fosso cultural entre Natal e as cidades interioranas localizadas fora da região metropolitana. Isso com um agravante: o Rio Grande do Norte era o estado que mais valorizava artistas der outros estados, dando-lhes a eles um tratamento infinitamente superior aos da própria terra, inclusive em termos remunerários”. E conclui com uma frase que resume toda essa cultura entranhada, que se interpõe de maneira poderosa entre a vontade dos bem-intencionados: “As conseqüências desastrosas para o nosso Estado justificam nossa parca visibilidade”. Creio que ele colocou bem a necessidade de, em qualquer empreitada, o desafio de ir sempre um pouco mais além. Ora, o que nos empobrece, nos oculta. Fernando Luiz reage à coisa-feita. Tem trunfos na manga.

Fernando Luiz faz a radiografia sucinta da decadência da musica nordestina. Identifica a distonia em tudo. Facilita-nos a compreensão de um fenômeno. Já o título do livro reporta à dureza e ao deságio da conversa fiada que caracteriza as instituições. Seu livro é para principiantes e doutores no oficio de fazer cultura entre nós.

 

 

 

 

 

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