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Dois contos de Kipling

Colaboradora de Obvious escreve sobre um escritor laureado com o Prêmio Nobel de Literatura que, pela grandeza de sua obra, personificou o próprio Império Britânico.

*Ana Calasans

 

Quando criança tinha uma fixação muito forte em bichos. Por isso, o desenho da Disney que mais me fascinava era Mowgli. Meu avô tinha Kim em sua biblioteca, mas o primeiro livro de Rudyard Kipling que li, claro, foi O Livro da Selva. Indiano de pais ingleses e nascido sob o domínio britânico, Kipling (1865-1936) foi acusado por muitos de ser um súdito excessivamente fiel aos ditames do imperialismo em prejuízo de seus compatriotas, apesar de ter passado a maior parte de sua vida fora de seu país.

Como desde pequena não ligo para a biografia e aprecio a obra e o talento do autor, sou leitora fiel de Kipling, um escritor que é capaz de escrever contos que se igualam na qualidade e na diversidade.O conto que mais gosto em O Livro da Selva, no entanto, não é nenhuma das façanhas de Mowgli, mas a história do audaz mangusto Rikki-Tikki-Tavi e da grande guerra que ele travou sozinho no bangalô do acampamento de Segowlee. Como todo mundo deve saber, o lema dos mangustos – um bichinho muito parecido com os agora tão populares suricatos – é “corra e descubra”. Rikki-Tikki com sua curiosidade, astúcia e, acima de tudo, coragem livrou os animais do jardim e a família que o acolheu do malvado Nag e de sua pérfida esposa Nagaima, um casal de najas. Kipling consegue transformar um episódio “comum” do mundo animal – a quebra de uma cadeia alimentar e de dominação estabelecida pelo aparecimento de um predador isolado e improvável – em um conto delicioso e cria um herói apaixonante.

Anos depois, na adolescência, assisti na Sessão Coruja a um filme que me causou tamanha impressão que a palavra Sikandergul me persegue em sonhos até hoje. O Homem que Queria ser Rei, filmado em 1975 por John Houston, conta a história dos ex-soldados, golpistas e aventureiros Daniel Dravot (Sean Connery) e Peachey Carnehan (Michael Caine) que decidem viajar até o Kafiristão (um lugar na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, à margem do Himalaia) – diz-se que Houston queria filmar o conto desde a década de 50 e sonhava ter Gable e Bogart como protagonistas. O Kafiristão é uma no man’s land cheia de oportunidades, onde dois vigaristas dispostos poderiam fazer a vida longe da fiscalização da Coroa Britânica. Lá chegando, e devido a uma série de peripécias, os nativos passam a acreditar que Dravot é Alexandre Magno redivivo – Sikander/Alexandre – que retornou como deus para guiá-los. A aventura, encarada com uma mistura de fanfarronice e ambição, os leva a uma viagem do inferno ao paraíso e de volta ao inferno, desta vez com uma passagem só de ida. O filme de Houston é relativamente fiel ao conto de Kipling, com exceção de tópicos como a descrição da aparência e genética dos “kafiristenses” (que no livro são loiros e grandes, quase nórdicos, e no filme mongóis) a forma como a história começa (o encontro do jornalista/Kipling com Peachey) e o nome da noiva de Dravot e da cidade, Sikandergul (Cidade de Alexandre), que não são citados no conto. Ambos, filme e conto, transmitem o mesmo clima de irrealidade e inexorabilidade.

O que me impressiona na história é a vibração de fundo trazida por um cenário onde as regras aparentemente civilizadas do mundo não funcionam: a ideia de que a estabilidade é mantida por um acordo entre homens e deuses e que a divindade só garante sua posição se respeitar as regras firmadas. O filme amplifica o tom de irrealidade do livro. Na obra de Houston, os habitantes realmente acreditam que Dravot é a reencarnação de Sikander; no conto, os nativos parecem mais pragmáticos e as virtudes militares e organizacionais de Dravot e Peachey dão uma considerável força a fé. Como também me sinto atraída por tudo o que diz respeito à história e mitologia das religiões, O Homem que Queria ser Rei é um parque de diversões simbólico para mim: o nome da noiva de Dravot é Roxane, nome da filha do rei da Bactriana que desposou Alexandre Magno, a simbologia maçônica, a crucificação, a divinização do homem e a humanização do deus… E por aí vai.

Do ponto de vista mais humano e menos simbólico, a devoção apaixonada de Peachey a Dravot é uma das descrições mais sutis, ternas e densas do amor de um homem por outro. Ao contar a Kipling sobre seu retorno do Kafiristão, mutilado no corpo e na alma, carregando a cabeça coroada de seu companheiro morto e referindo-se a si mesmo na terceira pessoa, Peachey fala sobre a presença de Dravot a seu lado: “As montanhas dançavam de noite, e as montanhas procuravam cair sobre a cabeça de Peachey, mas Dan levantava a mão e Peachey passava curvado pelo meio. Ele não largava a mão de Dan e nem largava a cabeça de Dan”.

 

Na foto, cena do filme “O homem que queria ser rei”, com Michel Caine e Sean Connery.

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