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Do sentimento em flor…

A arte pode substituir as mais notáveis experiências? De certa maneira, a arte é um devaneio protetor, uma precaução que o espírito aprende contra a realidade que, mais cedo ou mais tarde, se torna impossível de não ser conhecida.

*Alexsandro Alves

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Durante a década de 80, boa parte da música que ouvíamos se devia à popularidade das novelas de Globo.

O repertório mais pop nacional ou internacional era baseado na telinha.

Os LPs dos artistas estavam confinados aos fãs, e todos eles, dos mais cults aos mais populares, davam um rim para ter sua música tocada em alguma novela da emissora, e além do rim, ainda davam um dos olhos, caso fosse na das oito.

Outros tempos.

E não eram apenas artistas medíocres, de ocasião, que logo seriam esquecidos, que apareciam marcando com suas músicas, os leitmotive dos personagens de um Aguinaldo Silva ou de uma Janet Clair.

Artistas grandes como Caetano ou Chico Buarque, Simone ou Bethânia, também agarraram como bezerrinhos, as tetas da emissora.

Foi exatamente numa dessas novelas que conheci uma das músicas mais inesquecíveis de toda a minha vida, e que escuto até: Em flor, que me foi apresentada na novela Roda de fogo, de 1986, escrita por Lauro César Muniz. A música, interpretada por Simone, era a música da personagem Maura, de Eva Wilma, e era uma versão da estadunidense Too young, cantada por Nat King Cole.

Eu não gostava de ouvi-la com gente em casa, apenas a ouvia sozinho. Eu acho que músicas que falam de amor, quando são sinceras, verdadeiras, pode soar como vitrines, e uma criança, eu tinha 11 anos na época, não está preparada para certas exposições. Então, interiormente, eu me precavia e só a escutava solitariamente.

Claro que todas as músicas falam de amor, ou a grande maioria delas, porém há muitas formas de falar e de cantar o amor.

E a melhor forma de perceber e de sentir que existe amor é através da arte verdadeira. Porque o amor em si, não vale um funk da quebrada.

A interpretação de Simone é verdadeira. É artística. O menino apreciava, sem entender do fogo que arde sem se ver uma faísca. Como a arte importa. Ela dava sentido ao que eu mesmo nunca havia sentido.

Era a languidez e a doçura de frases como do sentimento em flor, repetida na segunda parte da canção ou a firmeza de bastou se ver, ou o início que me parecia com uma porta aberta de repente de Não são sinceras as razões, como isso me tirava de qualquer entendimento possível.

Tudo o que é cantado nessa canção é verdade. Na canção é verdade. Isso basta.

Ao me levantar, repetidas vezes, repetidas vezes, para voltar o braço da 3 em 1 para o início da música, eu prolongava uma revelação que ainda de fato não conhecia, mas já estava revelada. A verdade não precisa de explicação factual. A noção estética de um objeto ou de um sentimento, por vezes, e não raro, suplanta e é mais desejável do que a confirmação objetiva.

Me parece que quando tocamos o objeto de nosso desejo, ele se desfaz. É melhor não tocar.

O mundo que Em flor desabrochava era uma solidão de aprendizado, que vinha não pela palavra, porque eu não compreendia frases como Não são sinceras as razões, eu não sabia das razões! Nunca havia amado. O que me fazia sempre entrar naquele jardim de flores desconhecidas, mas que eram agradáveis, era a fantasia superior do amor, talvez maternal, porque era o único amor que de fato conhecia.

As flores abertas cheirosas seriam as da minha mãe? Eu ficava sozinho para me encontrar, intimamente, com ela? Por isso preferia a solidão?

A consciência não consciente de um tabu.

Ficou lá. Sem respostas. A música permanece, hoje, guardada e protegida nas lembranças. Uterina.