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Discordando da natureza

Articulista de Navegos chama a atenção dos leitores para contradições que em geral nos passam despercebidas.

*Nadja Lira

Desde os meus tempos de criança ouço dizer que a natureza é sábia, mas para mim, esta afirmação tem convérsias. A primeira delas diz respeito ao crescimento dos cabelos e das unhas, o que ocorre diariamente. Sabe-se que o homem das cavernas mantinha os cabelos compridos, entre outros fatores, para proteger o corpo. As unhas, por sua vez, ajudavam a fazer às vezes de garfo e faca e ajudar na alimentação.

Atualmente, por uma questão de higiene e estética é necessário que as pessoas mantenham seus cabelos e unhas aparadas e limpas. Mas estes continuam a crescer independentemente da nossa vontade, mesmo que a necessidade deste crescimento seja dispensável.

Nossos dentes, entretanto, que são muito mais necessários, uma vez perdidos não há como se recuperar. Depois que perdemos os dentes permanentes, a única alternativa é a de se ficar banguela. É claro que existe a possibilidade de se fazer um implante dentário. Mas esta é uma alternativa que custa “os olhos da cara”, e, portanto, não está acessível para a maioria das pessoas.

Questiono a sapiência da natureza neste aspecto: por que cargas d´água as unhas e os cabelos que não são tão necessários à sobrevivência humana, não podem ser recuperados enquanto que com os dentes a história é bem diferente? Depois que caem prejudicam seriamente nossa mastigação e ainda tem um agravante: tira a nossa vontade de sorrir.

Outro ponto que me leva a duvidar desta propalada sapiência da natureza, está relacionada ao fato das pessoas crescerem e engordarem. Por que é que a natureza controla a nossa altura e não controla nossa capacidade de engordar?

Conheço uma infinidade de pessoas que gostaria de ter crescido pelo menos 10 centímetros a mais, mas a natureza não permitiu. Estas pessoas, porém, precisam se submeter a dietas rigorosíssimas para manter o peso equilibrado.

Sendo sábia como se apregoa, a natureza deveria fazer com o peso, o mesmo que faz com a altura: se ela permite que a pessoa cresça somente até determinado ponto, então deveria fazer o mesmo com o peso permitindo que a pessoa chegasse ao peso ideal para a sua altura e então não precisaria engordar mais.

Esta, sem dúvida, seria uma atitude sábia e que evitaria as filas intermináveis nos consultórios médicos para cuidar de casos de obesidade e aumento nas taxas de colesterol, triglicérides, glicose, etc. E ainda sem contar que enquanto um considerável grupo de pessoas evita comer para se preservar destes problemas, outro contingente não come porque não têm acesso aos alimentos.

Também não consigo entender por que a natureza concentra energia demais nas crianças, que correm, pulam, gritam, caem, levantam e começam tudo de novo, enquanto os adultos, que devem correr atrás destas crianças, mal se aguentam nas pernas.

O resultado desta disparidade pode ser vista no fim do dia: as crianças dormem feito uns anjinhos, enquanto os adultos mais parecem farrapos humanos de tanto cansaço. Neste ponto, me parece que a natureza não foi tão sábia dotando as crianças com energia demais e os adultos com energia de menos. Portanto, até que me provem o contrário, eu discordo da sabedoria da natureza.

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

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