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Difusos, evanescentes

Com as novas gerações cada vez mais aficionadas por tecnologias virtuais, colaborador de Navegos não acredita que o conhecimento adquirido e o prazer da leitura através delas se compara a dos livros impressos; citando obra do sociólogo e filósofo francês Baudrillard – que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade –, o autor questiona se a humanidade vive, de fato, numa representação imagética

Honório de Medeiros

“A vida é líquida”, disse Zygmunt Bauman (1925-2017), aludindo à consistência das relações entre nós e os outros, ou entre nós e as coisas e/ou fenômenos. Líquida, posto que essa consistência não tem forma definida, assume aquela que o recipiente (o contexto) impõe.

Para não sermos ultrapassados, temos que fluir com a realidade, vertiginosamente, a tudo atentos. Escrevo isso e me lembro de minha filha, da geração Z, sentada, administrando, ao mesmo tempo, seu computador de mesa, o notebook e o celular.

Não seríamos estruturas rígidas que atravessam o tempo imutáveis ou pouco atingidas pelas circunstâncias, somos proteiformes, somos difusos, somos evanescentes.

Vivemos em uma época na qual as gerações mais novas escrevem tudo em uma linha. No máximo algumas poucas linhas. E somente leem, e são treinadas pela realidade virtual com a qual convivem full time exatamente para isso: algumas linhas, umas poucas linhas. Leitura frenética.

Tal é o ser – e o dever-ser –  que essa realidade virtual impõe: tudo é frenético, tudo é descartável, tudo é cambiante, imediato. É a maximização das potencialidades, negativas ou positivas, da nossa espécie sobrevivente e dominante, conforme descrito pela Teoria da Seleção Natural.

O ensino, hoje, está em ruínas por vários motivos, mas desconfio que o modelo que ainda predomina está fadado ao fim, entre outras razões, em decorrência do descompasso com essa realidade que aos poucos se impõe, no qual não há mais lugar para uma educação que se estrutura a partir de livros, com textos pesados, longos e que exigem tempo e estudo profundo, bem como a utilização do “pensar” típico dos escolásticos medievais, que moldaram as bases do nosso ensino ocidental e cristão.

As gerações mais novas, que herdarão o mundo, ou o que restar dele, e sua forma de apreender e expressar a realidade estão em processo de descompasso com aquela construída pelos nossos antepassados. Não se trata de estarmos certos e eles errados por não quererem ler livros como “Ulisses”, de James Joyce (1882-1941), “Paideia”, de Werner Jaeger (1888-1961), ou “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust (1871-1922). É outra vibração, algo que se situa em um futuro que não conseguimos vislumbrar sem que esse vislumbre seja mais que uma imensa ousadia.

São elas, as gerações mais novas, mutações engendradas pelo meme que é a realidade virtual: caracterizam-se por viver em ritmo alucinante, pensar freneticamente, falar acelerado, em contraposição ao lento viver, pensar e falar arcaico, que vai sendo abandonado.

O livro de papel sobreviverá, claro, como sobreviveu o ritual do chá no Japão moderno, que a restauração Meiji instaurou, e atirar com arco e flecha, algo excêntrico, típico de verdadeiros outsiders, a partir do qual hão de se criar seitas e seus inevitáveis rituais iniciáticos. Livros em ambientes virtuais existirão cada vez mais, óbvio. Mas nunca serão consumidos como o foram os livros de papel após Johannes Gutenberg (1400-1468).

Assim como os monges que salvaram a civilização como nós a conhecemos, na Alta Idade Média, copiando os textos antigos e os deixando para a posteridade, será em ambiente monacal que os iniciados lerão obras em papel como as que foram citadas acima.

O velho mundo está morrendo, viva o novo mundo, do qual serei espectador privilegiado, posto que, quando menino, fui apresentado ao milagre da televisão já completamente cativado pelo livro de papel e, agora, sessentão, fico maravilhado com as infinitas possibilidades de uma realidade sequer possível de ser imaginada antes, domínio e prisão dos que, hoje, ainda são apenas adolescentes.

Domínio e prisão: lá atrás, em um mundo arcaico, a mitologia hindu nos apresentou a deusa Maya enquanto responsável pelo ocultamento da realidade tal qual ela é, bem como pela nossa incapacidade de percebermos que tudo quanto nos cerca nada mais é que pura ilusão, um devaneio infindável a nos impedir o verdadeiro conhecimento.

Hoje esse devaneio, essa ilusão, é tema de “Matrix”, um filme cult de ficção científica. O filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007), em quem os criadores de “Matrix” se inspiraram, disse, em “Simulacros e Simulações” que o que a humanidade vive não é a realidade. Ele sustenta que a sociedade substituiu a realidade por signos e símbolos. Pode ser que esteja certo e tudo isso não passe de um imenso simulacro.

Honório de Medeiros, advogado, é mestre em direito de Estado pela UFCE.

DISTOPIA Cena do filme “Matrix” (1999), de Lilly e Lana Wachowski; o longa apresenta uma história cyberpunk integrando referências a inúmeras ideias filosóficas e religiosas, além de influências mitológicas, animes e filmes de ação; seus personagens vivem uma realidade simulada criada por máquinas sencientes

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