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Depois da Missa

Colaborador de Navegos, bancário aposentado, inspira-se em personagens de sua terra natal para compor um conto

*Guilherme Cantidio

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O relógio enorme no alto da torre marcava 10:40 hs no momento em que os fiéis deixavam a igreja, ao término da última missa do sábado.

Padre Matos, apesar do jeitão rude e desbocado, era bastante apreciado por todos e tido não apenas como líder religioso, mas também como reserva moral da cidade. Estava mais impaciente do que de costume naquela manhã, provavelmente devido ao calor inusitado que assolava a cidade naqueles dias de verão da década de 1950.

As mulheres, a maioria das quais idosas ou de meia idade, insistiam em permanecer no salão, formando grupos de três, quatro, até cinco pessoas que conversavam animadamente. Padre Matos torcia o nariz, cruzava os braços, descruzava, pigarreava, tossia, e nada da mulherada abandonar a igreja. Finalmente, com a pouca paciência já esgotada, bateu palmas freneticamente e, gesticulando com ambos os braços, como a tanger galinhas, esbravejou:

— Vamos já todas pra casa! Vocês não têm mais o que fazer não?

— Nossa, padre Matos hoje está como nunca! — comentou com um risinho e a mão cobrindo a boca dona Efigênia, mulher do .

Entre risinhos e comentários as “beatas”, como padre Matos costumava chama-las ironicamente, iam finalmente abandonando o salão, afugentadas por ele, cada vez mais agitado, aos gritos:

— Já pra casa! Por acaso não têm marido? Casa pra cuidar? Não têm nada que ficar fofocando aqui na minha igreja. Já chega.

Quando finalmente se viu só, passou a chave na enorme porta principal, desabotoou três a quatro botões da batina, do colarinho pra baixo, ao tempo em que caminhava aliviado até a sacristia. Assim que abriu a porta o cuco anunciou onze horas em ponto. Abriu a janela que dava para o pórtico e chamou o aprendiz de coroinha, um garoto de doze anos, agregado da paróquia:

— Bento, vem cá!

— Sim, senhor. Chamou?

— Chamei, sim. Preste atenção: vá até o depósito, traga um casco, embrulhe numa folha de jornal e ponha dentro desta caixa de sapatos. Vá até a padaria e compre uma cerveja bem geladinha. De lá pra cá, não converse com ninguém e volte logo.

— Sim, senhor. Agora mesmo.

Padre Matos sabia perfeitamente que era muito importante manter as aparências; não por si mesmo, mas para não escandalizar seus paroquianos. Se suas “beatas” soubessem de sua queda por uma geladinha, certamente sua credibilidade e liderança estariam abaladas.

— Está aqui a cerveja, padre. Ninguém percebeu nada.

— Está bem, meu filho, pode ir.

O primeiro copo foi sorvido de um único gole, finalizado pela lambida no lábio superior pra remover o colarinho em forma de bigode.

— Ah!…que delícia! — verbalizou o pároco para si mesmo, como se para suprir a ausência de um interlocutor.

Os demais goles, até a última gota, foram ingeridos pausadamente, quase cerimonialmente. Olhou no relógio de pulso: 11:35 hs.

— Bento, vem cá menino! — esbravejou do lugar onde estava, na escrivaninha, com as duas mãos em concha ao redor da boca, direcionando o som para a janela.

— Chamou, padre?

— Venha cá. Pegue este casco aqui e mais um lá no depósito, embrulhe no jornal e traga mais duas cervejas bem geladinhas. Dessa vez não precisa levar a caixa de sapatos não. Volte logo.

O calor estava de rachar e o suor escorria-lhe pela testa. O velho padre desabotoou mais três ou quatro botões da batina que agora estava aberta até a altura do umbigo, descalçou os sapatos, tirou as meias e calçou um chinelo de couro. Lavou rapidamente o rosto na pia e, enquanto se enxugava, ligou o rádio. — “Em Mossoró, precisamente meio dia” — anunciou com empáfia o locutor.

— Cheguei, padre — anunciou Bento, ofegante — demorei porque…

— Alguém perguntou alguma coisa?

— Não, senhor, é que fiquei esperando o troco.

— Está bem. Fique por perto que vou já precisar de você outra vez.

— Sim, senhor.

E lá se foi Bento correndo e cantando pórtico adentro.

Padre Matos sorriu com a alegria do menino. Botou uma cerveja no congelador e abriu a outra; completou um copo e, a exemplo de Bento, sentiu vontade de cantar. Cantou. Entre um gole e uma canção, lá se foi a segunda garrafa. Abriu a terceira; sentia-se feliz. Como podia alguém ser contra a alegria que estava sentindo? com que direito poderia alguém se opor ao seu direito de se refrescar com uma cerveja bem geladinha, especialmente num calor desses?

Sua alegria tornou-se, então, em indignação; raiva, mesmo.

“Não dou esse direito a ninguém. Na minha paróquia mando eu.” — decidiu intimamente.

— Bento! — gritou a todos pulmões.

— Tou aqui, padre — respondeu Bento da janela, onde estivera o tempo todo espiando o padre cantar.

— Vem cá, menino. Pegue esses dois cascos, vá na padaria e traga mais duas cervejas bem geladas. Pode vir batendo uma na outra e gritando bem alto que são pra padre Matos, que não deve nada a ninguém, e quem quiser que se lasque!

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