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Decupando a atemporalidade do agora

Em entrevista concedida a Poelatria,  publicada recentemente, Leila Míccolis vê a criação como um movimento ininterrupto de vida

*Carlos Castelo

Para você, o que é poesia?

Gosto muito da definição de arte da Tulipa Ruiz: “arte é decupar a atemporalidade do agora”. Direcionando o foco para a poesia, sinto-a mais como os gregos a percebiam: enquanto poética, uma ação muito mais ampla do que o fazer poético; ou seja, não apenas como a arte de escrever versos, mas como parte da physis, da natureza, do movimento ininterrupto da vida. E já que em sua essência originária a poética é sempre permanente e atual, eu diria que a busca da poesia para mim é encontrar o agora de todos os tempos.

A Musa a conduz e não você a ela? Ou, para você, o processo é mais “disciplinado”?

Bom… minha musa nunca foi diáfana… e continua sendo palpável, com certa audácia rebeldia. Nem sempre, porém. Como minha literatura não se direciona apenas à poesia, em alguns formatos de textos preciso ser muitíssimo disciplinada e obediente, para inclusive conseguir cumprir prazos implacáveis.

Emendando na pergunta anterior, como se dá o seu processo criativo?

Não é único, é diversificado, depende do tipo de texto literário do meu momento: novelas de televisão e ensaios acadêmicos precisam de “enredos” anteriores à elaboração dos respectivos capítulos. Crônicas e poesia vêm de insihgts do mundo à minha volta, através de alguma percepção incomum, muitas vezes contidas apenas em uma palavra-chave que anoto, por senti-la o centro da concepção, mas que nem sei a princípio onde ela vai me levar.

Existe algum autor (ou autores) pelos quais você se sente mais influenciada?

De início, minha poesia só recebeu críticas negativas, em 1976, do tipo “isto não é poesia, mulher não escreve assim”… Quando pararam as pedradas a e ela, tentaram entendê-la através de alguns cânones insubmissos: Rimbaud, Mallarmé, Baudelaire, Gregório de Mattos, poetas que na época eu nunca tinha lido. Então, o poema a seguir acho que ela responde sua pergunta, tem tudo a ver com toda esta minha experiência, e se intitula AUTODIDATA: Sofri / a influência de muitos poetas / que nunca li.

A ironia, o humor, a crítica são características de versos com maior presença da logopeia. Você se considera uma poeta que vai mais nessa linha?

Quando associam a logopeia a estas construções poéticas, sempre traduzo a fala como alguém dizendo: “este tipo de poesia é um mero jogo de palavras”, ou seja, sempre capto nesta afirmação um subtexto depreciativo. Quem se expressa assim não sabe ou não nota a sutileza da categorização de Ezra Pound, abordando a logopeia como a dança das palavras, justamente a parte reflexiva da linguagem (nas três esferas poéticas a melopeia mergulha no som e a fanopeia, nas imagens, no imaginário). Reflexão é diferente de racionalidade; e a ação reflexiva se dá justamente por ser a linguagem poética conotativa, constituída de figuras de linguagem, sentidos figurados, duplos sentidos, relações, referências, subtextos. Então existe este ballet inerente a ela, esta interconexão essencial à sua construção, esta espécie de frame coreográfico. E é justamente esta ligação sutil que faz com que a poesia exerça plenamente suas funções, trazendo para si outros sabores e saberes, como Barth propunha.

Além do mais, sabemos que em teoria literária ironia, humor e crítica não são sinônimos. cada um tem características e processos criativos específicos. A ironia, mesmo com tom de sarcasmo, é um recurso dramático (Brecht o usava muito em seu teatro épico, didático). O humor é um estado de espírito, e a crítica (que pode ser humorada ou irônica) é uma atividade intelectual analítica. Para aumentar ainda mais a complexidade, cada uma dessas ferramentas tem seus graus, níveis e matizes. Portanto, colocar as três no mesmo patamar é no mínimo reducionismo. Na poesia, talvez o elo que as liga é a sensação de incômodo que as três causam, porque desconstroem, rompem com a visão tradicionalista de que o fazer poético seria apenas a procura do belo, dentro dos padrões convencionais.

Ainda no tema: humor, em poesia, por vezes é visto como algo “menor”? Há até quem diga que humor não se coaduna com a lira? Qual a sua opinião sobre esse ponto de vista?

Parece-me que pela própria cultura, nós latino-americanos valorizamos mais os dramas do que as comédias, mais os choros e lamentações do que o riso (daí o sucesso dos folhetins e das telenovelas). A tragédia é catártica, o riso é demolidor – como no Nome da Rosa, de Humberto Eco, aliás uma obra extremamente séria. É que o riso é capaz de afrouxar a rigidez dogmática, exercendo uma crítica antiformalista e propiciando um desmoronamento de dogmas, o que — para os ascetas moralistas — levaria ao caos. Mais do que ameaça, um perigo mortal. O riso é assim… perigosíssimo. No ocultismo, chega a desfazer certos feitiços, como no filme As Bruxas de Eastwick… As lágrimas são mais valorizadas e emocionantes do que as alegrias e os sorrisos, não apenas na poesia, mas no próprio cotidiano. E isso vem de longe, não é de hoje. Ouvi durante minha infância toda o provérbio: “muito riso é sinal de pouco sizo” – como se rir necessariamente suprimisse as capacidades analíticas ou cognitivas de alguém. Além do mais, como seria a aferição deste “muito” riso, qual o percentual?

Quanto à poesia, creio que respondi esta pergunta acima, mas vale insistir: para setores mais convencionais, quaisquer modulações poéticas que rompam com a rígida estética clássica são antipoesia.

 

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