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Confidências a Whitman

Articulista de Navegos recolhe do Baú de Licânia suas conversas com um dos mais importantes fundadores da literatura norte-americana e criador do conceito de Desobediência Civil.

*Clauder Arcanjo

Eu canto o Homem Moderno.

Já eu, Walt Whitman, não canto o antigo nem o moderno. O Homem sofre de um silêncio absurdo. Meu cantar está garroteado; sem forças, esperneio ao vento e, do mundo e dos homens, não espero mais nem um sequer alento.

A ti, velha causa!

Tu, boa causa, inigualável, apaixonada,

Tu, doce ideia, austera, sem piedade,

Imortal ao longo dos tempos, raças e nações, (…)

A boa causa de mim se perdeu. Parece-me que se apaixonou, sem dó nem piedade, por um mortal que aqui passou. Sem deixar vestígio, Whitman, ou doce lembrança, com o tempo, na velha e austera esquina, se esfumou. Apenas uma saudade imortal, sem tristeza, cá em mim restou.

Ó velha e boa causa!

Poetas que hão-de vir! oradores, cantores e músicos que hão-de vir!

Nem o dia de hoje tem de me justificar e responder pelo que sou,

Mas vós, uma nova descendência, natural, atlética, continental,

maior do que as anteriores conhecidas,

Erguei-vos! porque tendes de me justificar.

Tu, leitor, tanto como eu, vibras de vida e orgulho,

Por isso são para ti os cânticos que se seguem.

 

Se a rima é pobre, ou impera o descaminho no poema, caro leitor, é que os dias meus andam carregados de desfastio. Lá fora, o orgulho ameaça afogar a canoa da humildade, que insiste em navegar — eis que necessário — na garganta dos cânticos; enquanto, cá dentro, vibram os sinos da agonia.

 

Nunca houve mais começos do que há agora,

Nem mais juventude ou velhice do que há agora,

E nunca haverá mais perfeição do que há agora,

Nem mais céu ou inferno do que há agora.

Tão lúcida certeza, tão cabal engano.

 

Depois que cantaste essa estrofe, Walt, vários começos pereceram, mais jovens e velhos ficaram pelo caminho… Sem mencionar que a perfeição e os céus, que há agora, só servem de mordaça para a humanidade, mais causa de furor e desatino.

Que vês tu, Walt Whitman?

Quem são aqueles que saúdas, e que um após outro te saúda?

Vês bem longe. Olhas bem nas terras distantes. Quem vem lá? Devem ser os filhos da Utopia, crestados no sol da Esperança, grávidos com o sonho do Novo Mundo.

Quando me comprometo a dizer o melhor descubro que não

consigo,

A minha língua fica imobilizada,

A minha respiração não obedece ao organismo,

Fico um homem mudo.

— Não, Whitman!, tuas estrofes, enquanto cavalos livres de peias, tornam teus versos banhados com o ritmo-rio frenético da América que te pariu (ou tu a concebeste?).

Há um “indiscutível crescimento” em torno da mudez do homem; ao tempo em que a palavra cala, no miolo da sua mente, crê-me, o sonho voa.

Whitman, outras almas e outros corpos abrigarão “as palavras da terra”. Nem sempre estamos prontos para o preparo de tantas pradarias, de tantos desertos, de tantos portos e verdades intocáveis…

Para mais ninguém a não ser para ti existe a imortalidade.

Juro que começo a reconhecer (e quem não há-de?) um naco de Licânia na imensidão da tua grandeza. Se não no canto, ao menos no indício da bondade, “século após século”.

Cada hora é o sémen dos séculos, e ainda de mais séculos.

Ó capitão! meu capitão! terminou a nossa terrível viagem

Obs.: os versos, em itálico, foram extraídos da obra Folhas de Erva, de Walt Whitman, tradução de Maria de Lourdes Guimarães. — Lisboa: Relógio D’Água, 2010.

 

Clauder Arcanjo – Escritor, editor e membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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