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Confidências a Vinicius de Moraes

Ausente de nossas páginas a algum tempo, retorna Clauder Arcanjo com sua colaboração regular, ao extrair do seu Baú de Licânia reflexões sobre o granede poeta e compositor carioca.

*Clauder Arcanjo

[email protected]

 Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor

Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse minha fronte palpitante…

Eu estaria sempre como um círio queimando para o céu a minha fatalidade

A deusa Fatalidade, Vinicius, sempre de braços dados com o deus Acaso, anda aprontando nas praias do tempo. Quer na alvorada, quer ao meio-dia, quer no silêncio da madrugada. Ela, com suas vestes curtas e trágicas, ludibria os crentes no primado da Razão, enquanto avança, com suas mãos-garras brancas, sobre a pele macia dos poetas, palpitantes, a rezarem com seus versos, orações arfantes, por um novo amanhã.

Enquanto isso, o círio da Poesia nos encanta, ao tempo em que nos queima as pupilas com sua bela e encantada chama.

Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento

E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser uma braçada de lembranças

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Como esquecer os amigos pobres?

Eles são essa memória que é sempre sofrimento

Vêm da noite inquieta que agora me cobre.

— Vinicius, os amigos pobres são nosso mais rico patrimônio. Guardo deles, e por isso sempre deles haveremos de cuidar, o riso frouxo e desinteressado, a partilha das horas miúdas, o banhar-se no sofrimento comum, o perdoar de fé infinita. Nesta noite inquieta, alguém me cobra tal passivo. Sem sofrimento, em passos silenciosos, seguirei em direção a eles, e hei de me (re)encontrar, também, comigo.

Com os velhos amigos na lembrança, aprendi, nunca se está solitário.

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.

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Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu me senti mendigo.

Tu, Poeta, sabes que nossa carne é pouca para tanta mendicância na vida. Privado da ração dos sonhos, o corpo míngua, a pele enruga, os músculos se enfraquecem… e tornamo-nos mendigos de nós mesmos.

No cair da tarde — sem ódio, alvoroço nem amor por nada —, quando a noite suspira nos braços da lua, é que percebemos que há tanta falta dentro de nós.

Muito forte sou para odiar nada senão a vida

Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida

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Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memória.

A memória eleva-nos à condição de cria do tempo. Se a mantivermos acesa, com seu pavio de eternidade, alçamos à condição de pretensas crias de Deus.

No entanto, em tais encruzilhadas, se a carne tremer na luta, se os olhos se embaçarem sem brilho… o Incriado voltará. E o inferno do esquecimento nos esperará. Novas rosas de Hiroshima.

Lá, o chocalhar do esqueleto, sem carne, o grito lancinante da mente, sem uma sequer lembrança.

São como dois silêncios que me paralisam.

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Quantos somos, não sei… Somos um, talvez dois; três, talvez quatro; cinco, talvez nada

Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze Terras

Quantos, não sei… Só sei que somos muitos — o desespero da dízima infinita

E que somos belos como deuses mas somos trágicos.

Quando me batizei no rio da Poesia, olhei para as margens e quis contar quantos eleitos novos lá havia. Um, dois, três… Perdi-me na casa dos quatro.

Quando publiquei o meu primeiro livro de poemas, naquela noite fitei os que me cercavam, arautos do deus poema, e quis enumerar quantos lá existiam. Um, dois, três, quatro… Desorientei-me na marca do quinto.

— E em Licânia, quantos há?

Em Licânia, Vinicius de Moraes, sempre quando quis contá-los, eu me confundia. No chamado do feirante, no aboio do vaqueiro, na cisma do comerciante, no apurado do meeiro, na fuga do retirante, no cantarolar do canoeiro… há poetas em todo recanto da minha província. Cabe a mim anunciá-los, poética sina.

Quantos, não sei… Somos a constelação perdida que caminha largando estrelas

Somos a estrela perdida que caminha desfeita em luz.

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Mas morre toda a dor ante a visão dolorosa da beleza

Eis onde reside nossa utopia. Cantar, decantar, poetizar de tal forma a cruel dor… que ela feneça. A beleza, se não mata a dor, é o melhor bálsamo para sarar nossas trágicas chagas, humildes proscritos.

Deus, abençoai a teimosia dos artistas!

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas

E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos

E se eu tiver ainda um pouco de crédito convosco, Senhor, cuidai de zelar pelas famílias que se dependuram no varal dos morros; e, em especial, pelos jovens que, religiosamente, se embebedam — nisso não mora o pecado! — com o vinho dos domingos profanos.

Nas tardes da fazenda há muito azul demais.

Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora

Mastigando um capim, o peito nu de fora

No pijama irreal de há três anos atrás.

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De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Bastou-me ela para tornar o meu pequeno mundo infinito. Bastaram-me seus grandes olhos para o mar de escolhos, que me ameaçava, vestir-se de azul. Bastou-me sua voz macia acalentar o meu sono, para que eu voltasse a sonhar com um novo mundo.

Por isso, entendam-me, a todo o meu amor serei atento, com tal zelo… de tal forma que nunca perca tão fiel contentamento.

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A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos

Virá para os teus

Desce das estrelas

Das brancas estrelas

Juntos, meu amor, vigiaremos os céus, não deixaremos que a morte, que vem de longe, acelere seus passos. Esta profana senhora sempre se apeia do cavalo negro, quando percebe que estamos a colher flores de paixão no brilho das brancas estrelas.

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.

Os homens, ai! dos homens, Poetinha, eles sempre se enrolam nas questões relativas à morte. No mais das vezes, preocupam-se tanto em matar a morte… que acabam abatendo a própria vida.

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente, não mais do que de repente, o sonetista, zeloso com seu novo poema, ao se encontrar com a métrica de Vinicius, pobre poeta!, abriu a boca de espanto e, de mãos espalmadas, protestou, em pranto, e com supremo espanto: “Ó, meu Deus, por que não viniciaste?!”

Moraes da história: vate assim é silencioso (discreto) e branco como a bruma.

Sem saudade. Não ter contentamento.

Ser simples como o grão de poesia

E íntimo como a melancolia.

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Aqui jaz o Sol

Que criou a aurora

E deu luz ao dia

E apascentou a tarde

Eis o epitáfio que orgulharia todos os Vinicius. Mas onde assentaríamos tais palavras? Confesso que elas não ficariam bem numa lápide, junto à pasmaceira de um túmulo. Melhor seria se tais versos subissem para as nuvens, escritos por entre o brilho das estrelas. Apascentando a madrugada e revigorando o fulgor das novas auroras.

— E quanto aos dias de chuva? — Tu, fiel pessimista, logo me indagarias, com os pingos a te molharem as poucas certezas.

Eis que Vinicius, de pronto, te responderia: “E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul”.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Obs.: os trechos em itálico foram extraídos do livro Antologia poética, de Vinicius de Moraes. — São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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