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Confidências a Cervantes

Do Baú de Licânia, articulista de Navegos conduz o leitor por linhas e entrelinhas de um dos mais eminentes autores do Século de Ouro espanhol.

*Clauder Arcanjo

Num lugarejo em La Mancha, cujo nome ora me escapa, não há muito que viveu um fidalgo desses de lança em armeiro, adarga antiga, rocim magro e cão bom caçador.

Todos os romances nascem desta passagem, Cervantes. Melhor, a literatura moderna passa a ser outra depois de Dom Quixote. Óbvio, bem sei, mas a obviedade, em tempos estranhos e confusos como o atual, há de ser repetida à exaustão, a fim de evitarmos que a mentira tome o campo e invada a mancha-lugar da necessária obviedade.

— Deus faça vossa mercê mui venturoso cavaleiro e lhe dê ventura nas lides.

Grato, os que cavalgam no campo vasto (e, sem cerimônia, recheado de armadilhas) do ofício literário precisam por demais dos votos de ventura, sem falar nas bênçãos divinas.

— Bem podes chamar-te ditosa dentre todas as que hoje vivem sobre a terra, oh, bela entre as belas Dulcineia d’El Toboso! Pois coube-te em sorte ter sujeito e rendido a toda a tua vontade e talante um tão valente e nomeado cavaleiro como é e será D. Quixote de La Mancha.

Digo pois que por estes e outros muitos respeitos é digno o nosso galhardo Quixote de contínuos e memoráveis elogios, que a mim também não se me devem negar, pelo trabalho e diligência que empenhei em buscar o final desta agradável história; conquanto eu bem saiba que, sem a ajuda do céu, do acaso e da fortuna, o mundo ficaria falto do passatempo e sem o gosto que por bem quase duas horas poderá gozar aquele que a ler com atenção.

Posso até continuar: “Deu-se, pois, o achado desta maneira…”. E, quando ouço uma história, fatalmente a comparo (sei que é uma forma de extrema covardia) com as narradas por Cervantes e, secularmente, veneradas.

— Assim é a verdade — disse D. Quixote —, e segui adiante, que o conto é muito bom, e vós, meu bom Pedro, o contais com muito boa graça.

Não sou Pedro, boníssimo Dom Quixote, mas pouco importa. De certa forma, todos nos sentimos seguidores do bom Pedro.

Receber um elogio assim, fico cá a imaginar, faz-nos herdeiros das Novelas exemplares. Contos que (re)contam, com graça e zelo, ao tempo em que encantam os olhos e a mente de quem os lê.

— E nós, senhor, que havemos de fazer então?

Confidenciar com Miguel de Cervantes não seria desdenhar de tão garboso mestre? Cá para nós, tal intento não estaria a enlouquecê-los (ele, D. Quixote e sua valorosa dama), turvando tal diálogo com as águas sujas da tolice?

— Aí é que está o ponto — respondeu D. Quixote — e a fineza do meu intento, pois um cavaleiro andante enlouquecer com motivo não tem gosto nem graça: o ponto está em desatinar sem ocasião e dar a entender à minha dama que, se a seco faço isto, o que não faria molhado?

— Por Deus, senhor Cavaleiro da Triste Figura, não posso sofrer nem levar com paciência algumas coisas que vossa mercê diz, e por elas venho a imaginar que tudo quanto me diz de cavalarias e de conquistar reinos e impérios, de dar ínsulas e de fazer outras mercês e grandezas, como é uso dos cavaleiros andantes, que tudo isso deve de ser coisa de vento e mentira, e tudo pataranha, ou patranha, ou como o quisermos chamar.

Sancho, fiel escudeiro, deves confiar naquele que te acena com o imaginado mundo novo. Deves acreditar no insular reino a ti ofertado, pois serás um justo governador, daqueles que julgam pelo não visto, pelo ainda não posto. Governo esse que há de fundar o império da utopia, da justiça, onde saltará aos olhos do mundo a fineza de tua têmpera.

Não há patranha quando se sonha com o belo e o justo, fiel Sancho Pança.

— Já sei que tudo nesta casa é encantamento, pois da outra vez, neste mesmo lugar onde agora me acho, levei muitos sopapos e porradas sem saber quem mas dava, e nunca pude ver ninguém; e agora não aparece por aqui esta cabeça, que vi cortar com os meus próprios olhos, com o sangue jorrando do corpo como de uma fonte.

Nos aposentos mais recônditos da mente, Sancho, verás que o essencial-encantado é inacessível aos olhos.

— Pois bem, Deus dará o remédio — disse D. Quixote. — Traze-me de vestir e deixa-me sair lá fora, que quero ver os sucessos e transformações que dizes.

Cá fora, Cavaleiro da Triste Figura, continua o reino da paulada e da má ventura.

Não tenho mais, senhores, que vos dizer da minha história; se ela é agradável e peregrina, que o julgue vosso bom entendimento, o que de mim sei dizer é que eu a quisera ter contado com maior brevidade, posto que mais de quatro vezes o temor de vos enfadar me refreou a língua.

— Você, ao chegar aqui, fiel leitor andante, há de convir que todo bom escritor é aquele que ousa continuar a “agradável e peregrina” prosa do espanhol, que nos encanta com o seu destemor de bem narrar e, graças a Deus, sem refrear a língua.

Obs.: os trechos, em itálico, foram extraídos da obra O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, Primeiro Livro, de Miguel de Cervantes; tradução e notas de Sérgio Molina; apresentação de Maria Augusta da Costa Vieira. — São Paulo: Editora 34, 2017 (3ª Edição).

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense

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