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Cidades históricas de Goiás

Fundador de Navegos publica mais um dos textos que escreveu para compor o livro ainda inédito O céu de Goiânia, que passará a fazer parte de uma segunda edição de O ouro de Goiás [2012], já esgotado desde o seu lançamento.

*Franklin Jorge

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Três velhas cidades do ciclo goiano do ouro, cidades coloniais ricas de história e da crônica de gerações, sobre as quais escreveria livros, segundo um projeto de quando eu não teria ainda 30 anos.

Natividade, referida em “O ouro de Goiás”, vive nos escritos de Maximiano da Mata Teixeira [1910-1984], desembargador, gastrônomo, pesquisador, botânico, pescador, escritor, homem de sociedade, famoso anfitrião ao lado de Doutora Amália [1916-1991], descobridora de uma espécie desconhecida de orquídea, a Amalae Catleya, batizada em seu nome. Encontra-se atualmente em território do Tocantins, ao Norte de Goiás, de onde vem a história. Natividade era a sua lenda, o seu passado, os seus palácios e senzalas, suas casas-grandes, sua memória pública e secreta, constando do passado das famílias, vencendo o tempo, reinando na memória coletiva. Em sua fase áurea, enriquecida pela extração de ouro, contou com um contingente de mais de 10 mil escravos trabalhando incessantemente em seus numerosos garimpos. Dessa cidade primitiva restam apenas ruínas.

Chego a pensar na espécie de livro que escreveria sobre essas cidades, se as visitasse com vagar e tempo suficiente, disponibilidade de meios e espírito para auscultar-lhes a alma, e dela extrair a essência em impressões doces e cruas. Pirenópolis, a antiga Meia-Ponte, alvo dos dardos satíricos dos letrados da Cidade de Goiás. Goiás Velho, que não se diz senão na mais estrita intimidade e na ausência de arraigados tradicionalistas de Goiás, segundo a orientação de Doutora Amália, que se esmera para que a minha apresentação no Conselho Estadual de Cultura seja admirada e aplaudida.

Há uma latente rivalidade entre cidades que disputam entre si prestígio e projeção cultural. Por sua opulência e influência passada, por sua história, por sua geografia. Natividade, Cidade de Goiás, Pirenópolis, cidades por muitos anos isoladas. Agora endereços do turismo histórico.

Cidade de Goiás com os seus becos decantados por Cora Coralina [1889 – 1985] em suas odes à cidade de sua mocidade ao pé da Serra Dourada, uma montanha mágica. A antiga capital. O Palácio do Conde dos Arcos. O rio Vermelho. As fontes públicas.  As mil e uma noites de Cora Coralina, em sua salinha modesta, narrando como protagonista os fatos pretéritos. A capital administrativa e política da província.

Natividade com os seus mistérios devorados pelas intempéries. Natividade tem piedade!

No Norte de Goiás há o raríssimo espécime botânico: o Papiro Goiano, árvore que fornece uma alva e sedosa película para uso da escrita. Quando a visitei, Doutora Amália deu-me varias folhas desse estranho papel, dizendo-me que o usasse para escrever meus versos. O Poema eliotiano foi escrito em Goiás Velho numa dessas folhas de papiro goiano e, na gruta de sua casa, em Goiânia, a transcriação inspirada por Garcia Lorca.

Pirenópolis renascida no turismo. Um mercado de artesanato. Celeiro de artistas populares.

Escreveria sem dúvida um livro para cada alma dessas cidades submergidas no tempo histórico. Lendário. E teria, para cada uma dessas cidades eivadas de passado e rumores, um fotógrafo oficial, para documentar tudo, e também uma expedição de fotógrafos-documentaristas que quisessem promover uma abrangente documentação do evento em seu processo de produção.

Natividade, Cidade de Goiás, Pirenópolis, a antiga Meia Ponte; Arraias, pois em todo triângulo há de ter sempre um quarto elemento. O extraordinário, rotineiramente, sempre esteve debaixo dos nossos olhos e narizes. Meia Ponte, atualmente Pirenópolis, rica de tipos populares, alguns excêntricos; toda uma geografia humana compondo a rica galeria de uma crônica multissecular. Tinha a fama de um povo espirituoso, de índole satírica, assim visto pelo povo da Cidade de Goiás:

Meia Ponte, meia gente,

Meia cara e língua inteira.

[“O Ouro de Goiás”, pág. 43]

Cidades que vivem como vivem todas essas cidades históricas, como endereços turísticos.  Vila Boa, a antiga Vila Boa de Goiás, cidade rival de Meia Ponte, atualmente Pirenópolis. Pelo dístico lembrado pelo escritor Bernardo Élis, há uns 30 anos, um povo observador, rico de verve espirituosa e satírica. Disputam, Meia Ponte e Vila Boa, a primazia. Quando já não há Vila Boa e Meia Ponte. Havia muitos tipos populares lá. Hilário Biscoito, Antônio Meia Quarta, uma galeria de tipos para todos os gostos e preferências.

Natividade por distante. Cidade remota. De grande escravaria. Milhares de braços escravos.  “Cidade do passado com um passado”, não sem memória, “como Goiânia”, monstro autófago. Natividade tem a sua história. Tem o seu passado. Em Natividade, cada página é uma casa; cada rua é um capítulo; e, tudo junto, um livro maravilhoso. No apogeu da mineração, quarenta mil escravos trabalharam ali, em Natividade, desmontando as terras lá de cima, e arredores, num raio de muitos e muitos quilômetros.  Foi lá no alto, na “cidade dos antigos”, que começou o antigo arraial de São Luiz. Uma cidade que deve ter sido grande, a dar-se crédito aos escombros que restaram. O reino mitológico de Maxi, Maximiano da Mata Teixeira. Presidente perpétuo da República Tocatinarágua, instalada na Cidade de Goiás.

[1989-2015]

Ruinas de Natividade, antiga cidade no Norte de Goias que em sua época de ouro teve mais de 10 escravos trabalhando em garimpos.

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