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Chato de esporas

Colaborador de Navegos, jornalista e critico de arte de renome, escreve sobre sua experiência jornalística sob o Governo Militar.

*Reynivaldo Brito

Estávamos nos anos do regime militar e era comum a presença de militares e agentes da Polícia Federal irem às redações dos veículos de comunicação entregar correspondências devidamente protocoladas sobre os mais variados assuntos. Na maioria das vezes anunciando alguma comemoração de datas históricas, a posse de um novo comandante, a visita de um ministro militar ou mesmo proibindo a divulgação de algum fato envolvendo ações realizadas no combate ao terrorismo; uma ação bem sucedida contra a chamada luta armada, praticada pelos terroristas de esquerda ou mesmo a participação de um militar em um fato.

Já os agentes da Polícia Federal, na época sob o comando do coronel Luiz Arthur de Carvalho, apareciam sempre no turno vespertino para entregar seus Comunicados proibindo a divulgação de algum fato relacionado com morte de terrorista ou mesmo prisões efetuadas pela PF. Eram comunicados sucintos, muitas vezes não passavam de três a quatro linhas, de tão resumidos às vezes tínhamos dificuldade de entender do que se tratava. Outras vezes, era através desses comunicados que tomávamos conhecimento do que havia ocorrido.

Lembro que certa vez um agente PF chegou à redação do jornal A Tarde, que ficava no primeiro andar, no prédio onde hoje funciona o luxuoso Hotel Fasano, na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia, trazendo um desses documentos. Ao me avistar dirigiu-se a mim para assinar o protocolo.

Normalmente quem ficava chefiando a redação no período vespertino era o saudoso jornalista Antônio Maria de Brito Cunha, que era uma pessoa de fácil convivência e levava aquela situação com certa fleuma. Aconteceu que naquela tarde o Brito Cunha ausentou-se, não lembro a razão, e o agente se dirigiu a mim com o livro do protocolo já aberto quase que exigindo que o assinasse, confirmando o recebimento do comunicado. Foi aí que recusei, e ele não gostou. Em tom de ameaça disse que iria falar com o coronel Luiz Arthur. Eu respondi que podia falar, e apontei para o telefone que ficava em cima de uma das mesas de madeira.

Afastei-me do agente até que ele conseguisse se comunicar e não sei o conteúdo do diálogo. O agente fechou e livro e retornou para sua sede que ficava na Cidade Baixa. A imprensa em todo o país estava sob censura, mas já surgia daqui e dali alguma reação.  Lembro que nesta mesma época surgiram as máquinas de Xerox, e um desses comunicados foi xerocado em várias cópias as quais foram jogadas de cima de um dos prédios na Rua Chile. Naquela época a Rua Chile era muito movimentada, tinha um comércio intenso. Muita gente saiu correndo para pegar uma cópia querendo ler o conteúdo do Comunicado que depois fiquei sabendo era a censura de uma Operação sigilosa da PF.

Tinha um chargista no jornal de nome Eduardo Carvalho, já falecido, que era muito criativo e brincalhão. Conhecido carinhosamente por Dudu ele resolveu juntamente com o Brito Cunha fazer umas esporas de papelão utilizando as capas que serviam para proteger as bobinas de papel onde o jornal era impresso. Eram grandes folhas em forma circular (usadas como proteção das laterais das bobinas de papel jornal) e bem resistentes. Ali ele desenhava e recortava para criar as esporas. Essas esporas eram coladas nos calcanhares dos visitantes chatos que diariamente procuravam a redação do jornal. Alguns eram assíduos e enchiam a paciência dos redatores e repórteres que queriam trabalhar. Naquela época não tinha a rigidez e o controle que existe hoje para você acessar uma empresa ou um jornal. Assim, pessoas do povo, profissionais liberais que trabalhavam naqueles prédios da Rua Chile e imediações, e mesmo vindos de outros locais da Cidade compareciam para fazer uma reclamação ou levar uma carta para publicar na seção de Opinião do Leitor. Outros iam cobrar e saber o porquê da sua carta ainda não ter sido publicada.  Isto acontecia com frequência porque naturalmente era feita uma seleção daquelas que tinham algum interesse para o cidadão ou a Cidade.

Foi aí que surgiu a ideia da espora. Os chatos foram os primeiros a ganhar suas esporas. Enquanto alguém conversava com o chato para distraí-lo outro se abaixava e fixava a espora no sapato através de uma fita adesiva. Concluída a operação da fixação da espora, restava aguardar o seu desfile.

O esporado saia do jornal e invariavelmente subia garbosamente com sua espora pela Rua Chile, e a gente ficava observando das janelas laterais da redação para ver a reação das pessoas ao ver o esporado Era muito divertido porque um soldado, um agente ou mesmo um visitante chato, às vezes vestido de paletó e gravata ou fardado esporado quebrava a monotonia da tarde na redação.

Esta reação singela era uma forma de demonstrar que àquelas pessoas não eram bem-vindas à redação do jornal. Recordo de um dentista que tinha seu consultório na Rua Chile que só andava todo de branco. Às vezes de paletó e gravata. Quando tinha uma folga no consultório ou um cliente faltava lá vinha ele com seu riso largo e muita conversa. Era descendente de italiano e tinha a pele avermelhada. Por várias vezes foi esporado mesmo quando descobriu e passou a ficar mais atento. Porém, a habilidade de Eduardo e de outros era tanta que eles faziam o serviço em questão de segundos. Ai o dentista subia a Rua Chile exibindo sua bela espora, enquanto os transeuntes que viam ficavam rindo a valer.

Certa vez um esporado retornou à redação muito nervoso e pronunciando palavrões. Queria saber quem foi o engraçadinho “para dar-lhes uns sopapos”. Ameaçou procurar a direção do jornal, mas felizmente não chegou a concretizar sua ameaça. Aí entrou a figura de Brito Cunha com sua paciência que se dirigiu ao esporado zangado e conseguiu aplacar sua ira, a ponto dele entender a brincadeira e sair rindo da redação. Esta brincadeira durou alguns anos, a ponto de Eduardo Carvalho ter um razoável estoque de esporas já prontas para o uso. Bastava aparecer um chato, que a brincadeira começava.  Chato em redação de jornal naquela época era o que não faltava.

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