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Assembleia dos bichos

Colaborador de Navegos, escrevendo “em abismo”, mostra-nos quanto as Fábulas continuam um gênero atual

*Edilson Alves de França

Definitivamente popularizada por Monteiro Lobato, a fábula que revela o fracasso das soluções apressadas ou mágicas, transformou-se no exemplo maior de que as antigas e complexas questões sociais não comportam imediatos milagres executórios. Nessa ficção milenar, a sabedoria legada por Esopo e versejada por La Fontaine, dissipou a ideia de que um simples guizo, preso ao pescoço do famigerado Rodilardo, por si só, seria capaz de evitar seus constantes e ferozes ataques à população de roedores.

Pois bem; diante do atual contexto e tendo presente essa antiga lição, não era de se esperar que, de uma nova assembleia dos bichos, brotasse solução para o quadro de violência hoje reinante. Mesmo assim, instigados por papagaios proscênicos, todos os animais da selva concordaram com a necessidade de uma nova e imediata reunião. Desta feita, a assembleia seria geral e irrestrita, excluídos apenas os já numerosos descendentes do famoso Farofino, protagonistas do agravamento da violência a ser debatida.

Aberto os trabalhos e relatados pelas vítimas alguns dos episódios recentemente ocorridos, foram registrados, em ata, apenas os casos mais graves e de maior repercussão. Entre eles, o assassinato dos filhos da coruja “Feiura”; o violento esganamento do veadinho “Velocidade” e o latrocínio que vitimou, em plena páscoa, uma família inteira de coelhos, além de outros crimes que ainda estão sendo investigados pelas raposas da intelligentsia.

Solicitando a palavra, o canguru “Dupla Face”, representando a organização dos surtados, revelou-se paradoxal, sobretudo ao defender o direito de ir e vir de todos os bichos, inclusive dos corruptos presos e recolhidos antes do trânsito em julgado da sentença condenatória. Com aparente autoridade e isenção bipolar, assegurou:

– Os governantes têm o dever de garantir segurança, tal como prevê a Carta Magna. Precisamos do apoio da imprensa para protestar, fazer passeatas e mostrar que não concordamos com nossos colegas que estão no poder(…) O aumento da criminalidade decorre da flexibilidade das leis e da consequente impunidade.– Afirmou Dupla Face.

Depois desse já conhecido “glu-glu-glu”, foi a vez do poderoso “avão Misterioso ocupar a tribuna para acrescer que, dentre outras providências,também não admitirá novos atos de violência nem, muito menos, desvios de verbas que deveriam ir, por exemplo, para a segurança pública ou para a saúde. Categórico, prometeu:

– Amanhã mesmo, conforme já divulguei pela imprensa, entrarei com três novas ações judiciais, exigindo a efetividade do direito a felicidade, agarantia da paz social e, outra, par assegurar moradia digna, custeada pelo governo da selva e extensiva a todos os bichos, principalmente aos de menor renda…
Nem bem as palmas se aplacaram, o velho Jericó, com a clarividência de um verdadeiro “Pai dos Burros”, voltou ao tema central e lembrou:

– Os bandidos estão ocupando morros, subúrbios, ruas e bairros inteiros, de onde saem para roubar, estuprar e matar, evidenciando o surto de violência que, como se não bastasse, tem sido diariamente fermentado por certos “Abrutes da Agonia”, devotos do deus Pan…

– Originários do desordenado submundo da periferia, desfamíliarizados, abandonados socialmente, desempregados, desalentados, viciados e picados pelo midiático mosquito da opressão consumerista, os novos vilões da selva passaram a agir com maior ferocidade e audácia, certos de que jamais serão alcançados pela majestosa espada da “Deusa Tartaruga”.Nesse ambiente de progressiva desordem e renovada ambição material, os Farofinos já não buscam a mera sobrevivência…

Segundo sustentou Jericó,a ânsia agora é por grana, dinheiro, tudo que possa nele ser transformado e capaz de sustentar o vício da droga que se espalha pela floresta. Oferecendo um exemplo da facilidade do tráfico, confessou o asno:
– Nas minhas costas, sou obrigado a transportar quilos e quilos de cocaína e maconha.Entro e saio calmamente da floresta, através da Beira Mar, sem nunca ser incomodado pelos lobos que deveriam patrulhar a fronteira…

Valendo-se de sua penetrante visão aérea, a águia, conhecida como Rui, graças a sua perspicácia, desdobrou a pergunta que Esopo não poderia ter feito no longínquo século VI a. C. , indagando com certa impaciência:
– Quem vai garantir a sobrevivência dos milhares de Farofinos desempregados? Quem fechará as fronteiras da floresta para o tráfico de drogas? Quem reordenará a família animal? Quem garantirá a educação dos jovens Farofinos que se dispersam e perambulam por nossos charcos e pântanos? Quem ressocializará as hienas e coiotes que, recolhidos nas celas do abandono, se aperfeiçoam para o retorno à criminalidade? Quem garantirá saúde, educação e lazer para os felinos que sobrevivem nos esgotos da periferia? Quem garantirá a presença de Deus nos corações desses animais? Quem? Quem dos presentes, dentro da atual conjuntura econômica e política, tem o poder sobrenatural de praticar esses urgentes milagres?

Desta feita, caros irmãos bichos –Completou a águia:
– Os guizos do egoísmo, da indiferença, da soberba, da ambição, da incompetência histórica e da hipocrisia, devem ser presos aos nossos próprios pescoços. Até mesmo para que ecoem na nossa consciência animal.Para que nos façam sentir o
peso da co-responsabilidade pelo inferno em que deixamos ser transformada essa perigosa selva denominada Pau Brasil. Os governantes que sempre estiveram no poder foram ali colocados por toda a bicharada.A corrupção que levou a selva à atual indigência generalizada sempre foi tolerada e até aplaudida nas pessoas de salteadores, biltres, larápios e enganadores de ocasião…

Dentro dessa ótica, finalizou a águia, com a mesma ironia do velho roedor imaginado por Esopo:
– A proposta que faço, é no sentido de que voltemos a adotar aqueles velhos valores imprescindíveis à nossa vida na selva, tais como solidariedade, equidade e justiça. Não sendo possível, só nos resta construir uma fábrica de guizos e passarmos a usá-los, todos nós. Sem esquecermos de distribuí-los, como advertência,aos coiotes,furões, víboras e micos enganadores que, inconsequentemente, temos prestigiado a cada eleição.
Nada mais foi dito nem perguntado.

Edilson Alves de França é Procurador Federal Regional aposentado, Professor de Direito e Advogado.

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