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Adalgisa Nery, esplendor e miséria*

Fundador de Navegos recorda escritora e política carioca que foi em sua época uma das mulheres mais poderosas do Brasil.

*Franklin Jorge

Apesar da grande proliferação de escritores, raros – raríssimos – são aqueles que entre nós se consolidam como autores de uma obra consubstanciada em estilo e profundidade, fatores, com sabemos se não somos parvos,  que determinam a originalidade e qualidade de um texto literário. No jornalismo, então, essa indigência intelectual e artística se faz ainda mais notória, especialmente depois que os editores abdicaram da sua função e abriram a porteira da antes ilustre página de Opinião, na qual, por tradição, só escreviam aqueles que tinham cultura e o que dizer ao leitor.

O Jornal do Comércio e o Diário de Pernambuco, no Recife, faziam-se respeitar pelo estilo e grandeza de conhecimento de seus colaboradores, recrutados entre os melhores da intelectualidade pernambucana, para ficarmos em exemplos próximos. Hoje, especialmente entre nós, potiguares, é essa indigência que salta aos olhos de quem não usa viseiras para filtrar a realidade e receber tapinhas nas costas como qualquer literato provinciano que almeja o conhecimento. Até o jornalismo que se diz cultural patina no factual e nessa indescritível pobreza de ideias e discernimento.

Uma mirada sobre o articulismo em voga nos jornais locais o comprova sobejamente – ai de nós! – Raros os que escrevem e têm o que dizer e o dizem fluente e lucidamente, sem subjetivismo nem servilismo, agradando ao gosto mais exigente e aos intelectos mais críticos, como o faz o professor Ivan Maciel, sobretudo ao evocar personagens admiráveis da nossa história literária e política, dentre as quais, a escritora e jornalista carioca Adalgisa Nery [1905-1980], recentemente tema de um texto seu, grande escritora e protagonista da história das ideias em seu tempo, com quem tive o privilégio e o prazer de trocar algumas cartas quando ainda adolescente no Ceará-Mirim e de ser recebido em seu enorme e desnudo apartamento em Botafogo, naquele já remoto ano de 1972. Escrevia Adalgisa no jornal Última Hora quando em 1967 passei a ler seus artigos, durante umas férias no Ceará Mirim, e a admira-la, por seus méritos e por sabê-la integrante dum círculo de escritores e artistas que despertavam o meu interesse e curiosidade juvenil.

Abaixo, excertos de meus diários escritos no Rio de Janeiro, nos quais refiro minha visita à autora de A Imaginária e Mundos Oscilantes:

Autora de uma obra-prima, A Imaginária [1959], romance à clef que transfigura sua complexa relação com o grande esteta, escritor e artista plástico paraense Ismael Nery [1900-1934], seu marido e pai de seus dois filhos, Adalgisa Nery foi uma bela e elegante  mulher, poderosíssima, que jazia esquecida ainda antes de sua morte. Diziam-na, nos círculos literários mais exclusivos do Rio de Janeiro, amante de Getúlio Vargas, segundo corria à boca pequena àquela época em que tinha todos aos seus pés. Walmir Ayala contou-me que a viu pela primeira vez em 1956, num baile de gala, no Theatro Municipal, em num camarote ao lado do ditador. Ao enviuvar, casou-se em segundas núpcias com Lourival Fontes [1899-1967], o Joseph Goebbels da Ditadura Vargas, criador do DIP – Departamento da Imprensa e Propaganda – órgão responsável pela censura de ideias, associado à polícia política no Brasil naquele período sombrio de nossa história.

Mulher de personalidade marcante, Drummond a lembrou como personificação da beleza, siderando a todos  quando entrava no recinto da Livraria José Olympio, onde os maiores escritores e artistas do seu tempo e da sua geração se reuniam, para espairecer e discutir as novidades da literatura e da política.

Deputada por seu estado natal, Embaixatriz Plenipotenciária do Brasil no México, cassada em 1964 pelo Governo Militar por seu socialismo, conheci-a pessoalmente já em seu ostracismo, encaminhando-se para os setenta anos. Recebeu-me metida num babydoll que lhe deixava à mostra a pouca carne flácida, duma brancura translúcida que me lembrou a porcelana mais fina. Conversamos por horas naquela tarde calorenta, em Botafogo, apesar de minha timidez e por sentir-me de alguma forma intimidado por sua história de vida. Foi a primeira pessoa a dar-me noticias de Frida Kahlo, artista de quem foi amiga e que se tornaria depois esse fenômeno  de marketing que a faz competir com Che Guevara em popularidade. foi ainda amiga de Rufino Tamayo e Siqueiros, outros grandes artistas mexicanos com os quais conviveu. Descreveu-me a grandeza do México e deu-me noticias frescas sobre Leon Trotski nesse nosso primeiro e último encontro, apesar de seu reiterado convite para que a visitasse, inclusive em Petrópolis, onde passaria o verão para fugir da fornalha carioca que podia chegar a 40 graus.

Empolgado com a originalidade da sua escrita, consubstanciada em conceitos profundos, senti-me realmente lisonjeado por sua atenção a um jovem anônimo que batera à sua porta sem ter quase nada a oferecer-lhe, exceto o testemunho de sua admiração. Ao abrir-me a porta, após eu tocar espaçadamente duas ou três vezes a campainha, retrocedeu alguns passos, e por alguns instantes me olhou fixamente, exclamando  em seguida: “Mas que belo rapazinho!” – numa voz grave que contrastava vivamente com a fragilidade de seu corpo magro e engelhado.

Surpreendeu-se com minha juventude, declarou. Fazia-me um pouco mais velho e menos tímido. Surpreendeu-a sobretudo  o fato de e saber exatamente o que ela representara em seu tempo para a cultura e a política brasileira. E por conhecer relativamente bem o círculo do qual ela fizera parte em seus dias de glória, como Carlos Drummond de Andrade [1902-1987], que tantas vezes decantara  com entusiasmo sua beleza e inteligência.

Levou-me em seguida a uma saleta de paredes nuas e sem nenhum outro móvel senão as duas poltronas inglesas, de couro. nas quais nos sentamos um diante do outro por algumas horas naquela que seria uma das mais impressivas entrevistas de minha vida. Esperava deparar-me, ao entrar em sua casa, com a sua coleção de pintura, e em especial com os seus retratos pintados por seu primeiro marido, Ismael Nery, vigoroso representante, entre nós, do  Surrealismo. Por esta época eu curtia em demasia essa escola estética e admirava as criações de Ismael, produzidas em número reduzido para um grupo seleto e pesquisava intermitentemente sua história, chegando a reunir valiosas informações desconhecidas e inéditas, recolhidas da memória de amigos que tivemos em comum com o poeta Murilo Mendes e com a pintora e jornalista Sílvia de León Chálreo, que o conhecera bem de perto e que certamente me seriam de grande utilidade, se eu lograsse escrever o livro proustiano que ideara sobre a cultura do meu tempo, tendo Em busca do tempo perdido como provável referência. Porém Adalgisa pareceu não se impressionar com minhas revelações e conhecimento de seu protagonismo, e deduzi que ela nada me contaria sobre este passado que me levara até ali e que eu desejara ardentemente resgatar, ouvindo personalidades das Letras e das Artes, como o Embaixador Paschoal Carlos Magno, que me abrira as portas de sua mansão em Santa Tereza, onde vivia na companhia das irmãs solteironas.

Conversamos muito naquela tarde calorenta, quando externei o meu desejo de apreciar os seus retratos pintados por Cândido Portinari,  Diego Rivera e José Orozco, notáveis retratistas brasileiro e mexicanos, deu de ombros, sem comentários. Depois de alguns segundos, acrescentou friamente ao silêncio algumas palavras, para dar-me algo em troca de meu interesse por sua história intelectual e existencial. Quanto ao  retrato pintado pintado por Portinari, emergindo de um vulcão, teve um fim adequado: queimou no incêndio do Museu de Arte Moderna [1978] com outras obras que eu doei ao seu acervo. No Brasil – disse – não convém dar nada ao Estado que nos tira tudo e tripudia disto. Um museu como o MAM, sem segurança, sem recursos, a depender da caridade privada, quando nossas riquezas são mal empregadas…

Notando meu estranhamento diante da ausência à sua volta de obras de arte, livros e móveis que eu esperara deparar ali, confessou que estava vivendo em plenitude a idade dos despojamentos e que exterioridades e pompas do mundo já não lhe diziam respeito nem a impressionavam mais. Preparava-se, sozinha, para acolher a morte fatal e certa, como todo ser que pensa e tem consciência da sua finitude. Por isto se desfizera de tudo o que podia distrai-la de seus íntimos propósitos, como a usufruição de coisas que não lhe importavam mais. Livros, pinturas, móveis, joias.

Desculpou-se por ter adormecido enquanto me esperava, motivo pelo qual me recebera vestida daquela maneira a que se acostumara, vivendo sozinha com os seus pensamentos. No dia seguinte, muito cedo,  informou, iria para uma temporada de verão  em Petrópolis, para fugir àquele calor infernal que fazia no Rio naquele período do ano. Perguntou-me se eu teria ascendência indiana ou cingalesa, acrescentando que eu possuía as maneiras e o refinamento de um grande intelectual. Disse-me que, vestido apropriadamente, eu passaria por alguém da aristocracia desses países Perguntou-me ainda  se eu era rico ou tinha algum dinheiro que me permitisse levar a vida de um grão-senhor. Disse-lhe que não. E ela, incontinenti, retrucou: Alguém com a sua inteligência e maneiras precisa de recursos para viver de acordo com o que fará com o seu talento que me parece bem conduzido por suas ambições intelectuais.

Tenho um filho, culto e solitário, escritor e pintor como você, que pode supri-lo de tudo que lhe falta, se concordar em ser seu companheiro, acrescentou em seguida… Fiquei estupefacto com sua franqueza. Não se surpreenda – disse com firmeza. Já passei da idade das sutilezas… E, embora sem ser como algumas mães profissionalizadas pela maternidade, preocupa-me a vida que leva Emmanuel, como o grande solitário que é. Você seria seu companheiro ideal e teria condições de se projetar como escritor que é ou deseja ser, imagino e parece estar implícito em sua cultura e refinamento… Não, não fique chocado. Nesta vida precisamos ser objetivos e  práticos…

Anos depois, Antônio Carlos Villaça [1928-2005] a visitou, já vivendo em uma casa de idosos a que se recolhera voluntariamente para não depender de ninguém. O grande memorialista me faria partícipe de seu mundo e universo social, habitado por grandes personalidades brasileiras, me contou ainda  sobre o  fim da escritora que tanto me impressionara, praticamente abandonada por todos em um asilo, no meio do mato, achacada pela memória de tantos fatos marcantes, segundo expressão sua, rodeada de sombras e silêncio, num lugar onde as cobras eventualmente  entravam em seu quarto, provocando-lhe indescritível pânico.

Villaça a viu pela última vez, imóvel sobre a cama, aterrorizada, enrolada em um lençol puxado até acima do nariz, os olhos à mostra, fixamente pregados na porta entreaberta que dava para o descampado.

*Fragmento do livro Diários do Rio [inédito]

Em destaque a escritora Adalgsa Nery, antes de seu ostracismo, ao lado do presidente João Goulart e Jorge Amado. Acima no célebre retrato pintado por Cândido Portinari, emergindo de m vulcão.

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