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A extraordinária Irmã Aloísia de Touros

Escritor e jornalista evoca missionária que deu vida a Touros, alemã da Baviera, chegou em março de 1979, vinda de São Bento.  

*Roberto Patriota

Falei sobre tantas coisas, acontecimentos e pessoas, e não poderia deixar de parolar um pouco sobre uma das mulheres mais dinâmicas e construtivas que conheci durante toda a vida. Era ainda adolescente, quando no final dos anos 70, fui apresentado a ela. Por longo período a paróquia de Touros permaneceu sem um pároco e durante esse tempo foi administrado por uma missionária alemã que chegou a Touros vinda de São Bento do Norte aonde havia realizado um brilhante trabalho.

Refiro-me a Irmã Aloísia Gerhardinger.

Alemã da Baviera nascida em 6 de janeiro de 1918, entrou na Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora, no ano de 1935, em Gaissau, Áustria. Foi residir em Touros em março de 1979, e durante o período em que permaneceu à frente da paroquia do Bom Jesus dos Navegantes realizou ali um admirável trabalho cristão e administrativo.

Quando chegou, a paroquia local estava passando por um período difícil e de certo abandono. Irmã Aloísia não perdeu tempo e foi logo reformando a Igreja Matriz e a casa paroquial, em seguida pós em prática um amplo projeto de construções de casas para famílias carentes. Naquela época muitas famílias ainda moravam em casas de taipa.

Construiu também centros pastorais em vários distritos, além de igrejas e capelas em localidades mais afastadas da sede municipal. Fez erguer uma grande marcenaria na entrada da cidade e um frigorífico de médio porte para atender as necessidades dos pescadores. Era uma administradora nata e competente com o olhar voltado para o social.

Reforma a Igreja Matriz e a casa paroquial

Conseguiu recursos para a aquisição de barcos de pesca e custeou estudos para muitos filhos de famílias carentes. Também construiu muitas casas de alvenaria para famílias ligadas a Igreja Católica de Touros, atendendo assim a devotos de baixa renda que não tinham moradia digna. Tudo que conseguiu realizar contou sempre com a prestimosa ajuda financeira de seus patrícios europeus.

Tive a oportunidade de como jornalista, durante as décadas de 80/90, privar da sua convivência durante longo período. Realizei algumas entrevistas com a irmã Aloísia, para o jornal Folha do Mato Grande e rádio FM Mato Grande, e também mantive com ela algumas conversas informais. Aos poucos fui conquistando sua confiança e amizade.

Tive a honra, durante a grande solenidade pública por ocasião da sua despedida de Touros, de presta-lhe sincera homenagem, nomeando-a membro efetivo da Ordem Praieira do Rio Grande do Norte, conferindo-lhe o diploma de Embaixadora da Paz Mundial. A festa foi organizada pelo então prefeito de Touros, Josemar França e aconteceu em palanque armado ao lado da Matriz do Bom Jesus dos Navegantes com a participação de quase toda a população da cidade. Além do diploma da Ordem Praieira, ela recebeu o tradicional chapéu de palha, símbolo do povo praieiro. Um pouco tímida e sem jeito aceitou colocá-lo na cabeça como mandava o rito da solenidade. Foi um momento de muita emoção e que guardo com muito carinho ainda hoje.

Foi uma mulher extraordinária, dedicada somente ao bem comum das pessoas. Poucos foram os gestores de Touros que conseguiram realizar uma tarefa tão intensa e competente como o trabalho edificador concretizado pela irmã Aloísia durante o seu período em Touros. Era uma mulher de porte mediano, uma típica alemã do século XX. Loira, de olhos azuis brilhantes, rosto afilado e tez clara e pronunciada. Tinha o semblante grave e um sorriso encantador. Nunca desperdiçava seu tempo com conversas avulsas, estava sempre trabalhando, fosse de dia ou durante a noite, quando aproveitava o silêncio da madrugada para escrever cartas buscando recursos junto às muitas organizações não governamentais e católicos europeus amigos, para assim poder continuar o seu incansável trabalho.

Era também a irmã Aloísia quem realizava os batizados e os casamentos por não ter sacerdote residente na Paróquia durante esse longo período. Contava sempre com a ajuda de duas ou três irmãs franciscanas, mas era ela o cérebro de tudo. Com o tempo tornou-se muito amiga da minha avó paterna, Maria Segunda Patriota, que era uma católica fervorosa e confidente da religiosa. Irmã Aloísia também organizou a Pastoral da Juventude, Vocacional, dos Enfermos e dos Pescadores. Na área da promoção humana e social, foram encaminhados os cursos com mães gestantes, com as pessoas que trabalhavam com labirinto, com os pescadores, com os agricultores e tantas outras pessoas que precisavam dos seus préstimos.

Era uma mulher devotada, não se entregava nunca, mesmo já doente, escondia sua enfermidade para não ter que frear a sua importante missão. Permaneceu em Touros até março de 1997, doando 18 anos da sua vida ao trabalho missionário naquele município. Regressou ao Sul do país devido ao agravamento da saúde. Morou durante esses anos na Fraternidade Imaculado Coração de Maria, Xaxim/SC e Fraternidade Betânia, Xanxerê/SC, aonde o mal de Alzheimer veio progredindo e ela foi necessitando de cuidados mais intensos. Mesmo debilitada pela doença, nunca esqueceu Touros, tentou regressar ao município diversas vezes, mas a saúde frágil não permitiu esse sonhado retorno. Quando visitada por alguns tourenses no Sul do país, ou mesmo quando falava ao telefone com alguém da cidade, se emocionava e chorava copiosamente.

Faleceu em 20 de dezembro de 2010. Tudo que fez e realizou foi por amor, devoção e bondade. Jamais esperou reconhecimento ou gratidão de ninguém. Era uma mulher de fibra, consciente da sua missão aqui na terra. A ela, a eterna gratidão do povo tourense.

 

 

 

Em destaque, Tours elas lentes de João Maria Alves; acima, Irmã Aloísia e o símbolo da Ordem Praieira do Chapéu.

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