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A cidade abandonada

Em detrimento da preservação de sua cultura – incluindo o patrimônio arquitetônico –, Poder Público transforma Natal numa cidade onde a arte se resume a entretenimento e diversão; infraestrutura também está, literalmente, no buraco; descaso social igualmente envergonha todos os cidadãos desta que já foi uma das capitais mais belas e seguras do país

Nadja Lira

Natural de uma cidade do interior do Rio Grande do Norte, mudei-me para sua capital, Natal, ainda adolescente com o intuito de estudar e aqui finquei minhas raízes, há mais de 40 anos. Sempre senti orgulho de receber amigos vindos de outras partes do Brasil para conhecer esta que considero a minha cidade e apresentar-lhes tudo o que ela tem de melhor. Sempre senti orgulho em repetir as palavras do mestre Câmara Cascudo: “Natal nasceu do abraço entre o rio e o mar”.

Hoje, já não vejo a Natal com os olhos de outrora. A cidade que antes me enchia de orgulho já não conserva o mesmo encanto. Suas ruas estão esburacadas e sujas. Como se não se bastasse, a violência reina em cada ponto da cidade tirando o prazer de alguém sair de casa, embora sabendo que estar dentro dela não é garantia de segurança.

Nestes últimos anos, tenho viajado por várias cidades do Brasil e uma coisa me chama a atenção por onde tenho passado: todas elas são bem sinalizadas, de forma que, se a gente aluga um carro no aeroporto, pode seguir tranquilamente para qualquer parte, apenas seguindo a sinalização.

Aqui, a sinalização é tão precária que me perdi quando precisei ir, pela primeira vez, ao aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Além da falta de sinalização, as vias de acesso ao aeroporto são inseguras e, para quem trafega à noite, a dificuldade é maior pela precariedade da iluminação.

Não faz muito tempo que Raniere Barbosa, então titular da Semsur (Secretaria Municipal de Serviços Urbanos), prometeu transformar Natal em uma cidade tão iluminada quanto Paris. Ele deixou a secretaria, elegeu-se vereador e a promessa que, diga-se de passagem, não gerou credibilidade nenhuma. Caiu no esquecimento. Outra coisa que chama a atenção nas cidades por onde tenho andado é a ausência de flanelinhas limpando parabrisas de automóveis e os vendedores de bugigangas nos sinais de trânsito.

Como se não bastasse a proliferação dos flanelinhas, o número de pedintes também aumenta assustadoramente na Cidade do Natal. Eles invadem as calçadas dificultando a passagem das transeuntes e, também, invadem os ônibus. O trânsito da cidade está transformado em um verdadeiro caos. Nos horários de maior congestionamento, ninguém vê um único guarda orientando, ajudando os motoristas, como ocorre em outros centros urbanos. Aqui, cada um é dono de si e faz o que acha conveniente no trânsito. Os guardas existem apenas para aplicar multas.

Suspeito que os engenheiros de trânsito de Natal não dirigem pelas ruas da cidade. Caso o fizessem, tenho certeza de que não fariam tantos absurdos como os que se veem em Natal. As faixas de pedestres, por exemplo, só são colocadas em esquinas.

Eu não tenho curso de engenharia de trânsito, mas sinto na pele a dificuldade de trafegar pelas ruas da cidade. Saindo do viaduto da av. Engenheiro Roberto Freire para entrar na av. Ayrton Senna existe uma faixa de pedestre logo na entrada da avenida, bem na esquina, antes da Microlins.

O motorista entra na Ayrton Senna para aproveitar que o sinal abriu e então seguem todos: aqueles que vão em direção à praia de Ponta Negra e os que vão entrar na via que homenageia o piloto de Fórmula 1. Quem vai entrar nela, depara-se com a bendita faixa cheia de pedestres e tem que brecar para evitar um acidente, correndo o risco de ter a traseira do seu veículo abalroada pelo outro que seguem em direção ao bairro que abriga o nosso maior cartão postal, o morro do Careca. É um horror.

Também causa vergonha, tristeza e desgosto perceber como em Natal nenhum gestor se preocupa em preservar nossa história, nossa cultura, nossos valores. Quanta tristeza nos causa ver a forma como os antigos casarões da Ribeira estão sendo destruídos pela ação do tempo, sem que nenhuma medida seja tomada – apesar de a maioria ser de propriedade privada.

Vejo com pesar que o atual prefeito, Álvaro Dias, preocupa-se mais em oferecer circo para o povo, em virtude da quantidade de festas que realiza na cidade, esquecendo a importância de preservar a história da Cidade dos Reis Magos.

Nadja Lira é jornalista, pedagoga e filósofa.

SOL, MAR, DUNAS E BURACOS NAS RUAS Imagem aérea de Natal feita pelo fotógrafo Júnior Santos; em primeiro plano, vê-se a ponte Newton Navarro, que liga os bairros dos Santos Reis e Redinha; ao fundo, a praia de Ponta Negra, principal atração turística da cidade, que sofre o desleixo da prefeitura e de seu órgão responsável pelos serviços urbanos

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