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A banalidade da cultura

A partir de obra do escritor peruano Mario Vargas Llosa, advogado potiguar questiona a vulgarização da cultura nos dias atuais; para ele, a figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, está fora do debate, tornando-a apenas distração e entretenimento

Honório de Medeiros

Fecho o livro de Llosa, Mario Vargas Llosa, “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva; 208 págs.; 2008), cujo título foi calcado deliberadamente no “A Sociedade do Espetáculo” (Buhet-Chastel; 154 págs.; 1967), de Guy Debord, um dos mais originais pensadores do século XX, e percebo que encontrei um texto, da melhor qualidade, que explica a causa da sensação permanente de estranhamento e solidão vivenciada por alguns poucos, originada pelo descompasso entre a “cultura”, na qual fomos criados, e a realidade que encontramos nos dias de hoje.

Não é, portanto, “saudosismo” o que sentimos. Há, de fato, um progressivo e profundo processo de banalização dos valores fundantes da cultura, entendida esta como o resultado do processo civilizatório.

Cultura como a pensou, por exemplo, T. S. Elliot, citado por Llosa em “Notas Para Uma Definição de Cultura” (É Realizações; 144 págs.; 1948), tão atual, posto que lá para as tantas, expõe: “E não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, que possa ser considerado desprovido de cultura” (p. 19).

É bem verdade que em ensaios tais como “A Civilização do Espetáculo” e “Breve Discurso Sobre a Cultura” (“Dicta&Contradicta”, nº 6; 2010) Llosa não nos aponta as causas do surgimento desse fenômeno, muito embora aluda, de forma enfática, à “necessidade de satisfação das necessidades materiais (…), motor da economia, valor supremo da sociedade”, como a força que estaria por trás das rédeas que conduzem o processo de destruição da cultura tradicional. Não há, em seu texto, uma explicação acerca da causa de tudo isso.

Para Llosa, a civilização do espetáculo é “a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal”.

Mas como chegamos nesse patamar?

Entendo, embora possa estar enganado, que mesmo Zygmunt Bauman e sua obra acerca da “vida líquida” e da “modernidade líquida” também não o conseguiu. Sua preocupação também é descrever um fato, ou melhor, um fenômeno social, o processo civilizatório por nós vividos hoje.

Para Bauman, “a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”, nas quais “as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades”.

Eu me pergunto, em relação a Bauman: não há um padrão, uma lei geral que origine esse processo? Não seria essa “vida precária” em “condições de incerteza constante” uma face avançada do processo evolucionário de Charles Darwin? Ou da luta de classes de Karl Marx?

Mas não é o caso de abordar esse tópico por aqui. O caso é apenas registrar o alívio ao constatar que não estamos sozinhos, nós que nos sentimos órfãos de uma cultura que vem sendo deixada, cada dia mais velozmente, e de forma mais radical, para trás.

Que o digam, como pálido exemplo, a música, o teatro e a literatura contemporânea.

É a banalização da cultura.

Honório de Medeiros, advogado, é mestre em direito de Estado pela UFCE.

INCONFORMISTA O escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2010; o intelectual se opõe ao fato de, contemporaneamente, a cultura ter se tornado mecanismo apenas para divertir e entreter

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